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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Na manhã seguinte, cheguei ao meu estúdio antes das oito. O espaço ainda estava vazio, com as mesas apagadas e o cheiro de café do pequeno estabelecimento do térreo entrando pela janela. Durante anos, eu sempre associara aquele lugar ao esforço de manter um negócio funcionando. Naquela manhã, pela primeira vez, também o enxerguei como o único espaço da minha vida que não dependia emocionalmente de Rafael.

A conversa com a advogada aconteceu por chamada de vídeo, na minha sala. Expliquei apenas os fatos necessários: três anos de casamento, nenhum filho, patrimônio que precisaria ser levantado, contas compartilhadas e minha decisão de não continuar a relação. Ela não prometeu solução instantânea nem tratou o episódio do hotel como um passe mágico para eu conseguir tudo o que quisesse.

— O primeiro passo é separar emoção de documentação — ela disse. — Você precisa entender o que existe em nome de cada um, o que foi adquirido durante o casamento e quais despesas realmente são conjuntas. Depois decidimos se há espaço para um acordo ou se será necessário seguir pela via judicial.

Aquilo era muito menos dramático do que as discussões da família Almeida. E exatamente por isso me fez bem.

Passei parte da manhã reunindo contratos, extratos e registros do estúdio. Não para provar que eu era melhor do que Rafael, mas porque a frase da minha sogra continuava voltando à minha cabeça: “Sem meu filho, aquele seu estudiozinho teria fechado.”

Eu queria saber, sem orgulho e sem medo, quanto daquela frase era verdade.

Os números eram mais complexos do que a versão dela. Rafael havia me ajudado em alguns momentos, principalmente no primeiro ano de casamento, quando o fluxo de caixa ficou apertado. Mas o estúdio também possuía clientes próprios, contratos recorrentes e receita suficiente para continuar funcionando naquele momento.

A descoberta não me transformou em uma milionária independente de uma hora para outra. Apenas retirou de mim um medo que eu nem percebia que carregava.

Eu podia continuar.

Talvez com ajustes.

Talvez trabalhando mais.

Mas podia.

Pouco depois do almoço, Rafael apareceu.

Minha assistente perguntou se eu queria recebê-lo. Pensei por alguns segundos.

— Pode deixar entrar.

Ele fechou a porta atrás de si.

Parecia cansado.

— Você bloqueou meu acesso ao e-mail administrativo do estúdio.

— Era um acesso que você usava porque me ajudava com algumas coisas. Como estamos nos separando, achei melhor cada um ficar apenas com o que precisa.

— Sem me avisar?

— Estou avisando agora.

Rafael soltou uma risada sem humor.

— Então é isso? Em vinte e quatro horas você transforma tudo em procedimento?

— Não. Em vinte e quatro horas eu parei de tratar como normal o fato de minha vida pessoal e minha empresa estarem misturadas com alguém de quem estou me separando.

Ele se sentou diante da minha mesa.

— Minha mãe contou que você procurou advogada.

— Procurou você para descobrir?

— Ela ouviu alguém comentar.

Eu não quis saber quem.

— E daí?

Rafael apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Helena, eu não quero me divorciar.

A resposta veio com uma calma que surpreendeu até a mim.

— Eu quero.

Ele me encarou.

— Você fala como se três anos não significassem nada.

— Eles significam muita coisa. É justamente por isso que eu não aceito fingir que o que aconteceu não importa.

— Eu já disse que não dormi com a Lívia.

— E continua escolhendo a única acusação que eu não fiz.

Rafael respirou fundo.

Eu continuei:

— Você mentiu. Entrou num quarto com uma mulher que me incomodava há anos. Ela beijou você. Você não se afastou. Depois tentou me convencer de que eu era o problema por reagir. Quando sua família me humilhou, você ficou ao lado dela. Nada disso depende de ter havido sexo.

Ele ficou alguns segundos olhando para o chão.

— Eu sabia que você não gostava da proximidade entre nós.

— Sabia.

— E sabia que, se contasse que estava levando Lívia para o hotel, você ficaria irritada.

— Exatamente.

— Foi por isso que eu menti.

Sorri sem alegria.

— Você percebe que acabou de confirmar meu ponto?

Rafael levantou a cabeça.

— Eu estava tentando evitar uma briga.

— Não. Você estava tentando fazer algo que sabia que me machucaria sem ter que lidar com minha reação.

A frase ficou entre nós.

Dessa vez ele não rebateu.

Foi a primeira mudança real que percebi desde o hotel: Rafael ainda não aceitava o divórcio, mas já não conseguia sustentar com a mesma segurança que o único problema era a minha reação.

Antes de ir embora, deixou uma pasta sobre minha mesa.

— São cópias de alguns documentos do apartamento e das contas que você talvez precise.

Olhei para a pasta.

— Por quê?

— Porque sei que você vai pedir de qualquer jeito.

— Obrigada.

Ele pareceu frustrado com a normalidade da minha resposta.

— Só isso?

— O que você esperava?

Rafael demorou a responder.

— Não sei.

Quando saiu, abri a pasta. Havia documentos comuns, nada secreto, nada capaz de mudar o mundo. Escritura do apartamento, comprovantes de algumas despesas, registros de pagamentos.

Mas aquele gesto tinha significado.

Pela primeira vez, Rafael parecia começar a entender que a separação não desapareceria só porque ele se recusava a falar sobre ela.

No fim do expediente, recebi uma mensagem da minha sogra:

“Não envolva advogado numa briga de casal. Ainda dá tempo de consertar o que você fez.”

Não respondi.

Em vez disso, mandei para Rafael a lista inicial de documentos que a advogada havia recomendado que ambos reuníssemos e escrevi:

“Quero resolver isso de forma correta. Se você aceitar conversar sobre um acordo, melhor para nós dois.”

Ele visualizou imediatamente.

Demorou quinze minutos para responder.

“Eu não aceito o divórcio.”

Olhei para a tela.

Depois digitei:

“Você não precisa aceitar a minha decisão para entender que ela existe.”

Enviei.

Naquela noite, dormi na casa dos meus pais. Não chorei até pegar no sono. Não fiquei revendo as imagens do hotel. Pela primeira vez, minha mente estava ocupada com decisões concretas: onde eu moraria, como reorganizaria minhas finanças, quais contratos do estúdio exigiam atenção.

A dor continuava lá.

Mas havia começado a mudar de forma.

Na manhã seguinte, antes mesmo de eu chegar ao trabalho, a advogada me ligou.

— Helena, se ele continuar recusando qualquer conversa sobre acordo, podemos formalizar o pedido de divórcio sem depender da autorização dele.

Fechei os olhos por um instante.

Eu tinha passado três dias ouvindo pessoas falarem como se meu casamento só pudesse terminar quando a família Almeida permitisse.

Agora a realidade era outra.

— Então prepare o que for necessário — respondi. — Eu não vou voltar atrás.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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