
PARTE 9
O ateliê ficou pronto pouco antes de completarmos um ano de casados.
Não era luxuoso.
Eu não queria que fosse.
Mantive algumas paredes de concreto aparentes, aproveitei a luz natural das janelas e transformei a parte da frente numa pequena área onde poderia expor trabalhos meus e, no futuro, de outros artistas.
Quando meus pais visitaram o espaço pela primeira vez, minha mãe se emocionou.
Meu pai apenas passou a mão por uma das paredes e perguntou:
— Então foi para isso que serviu um dos imóveis?
— Para isso também.
Ele sorriu.
— Melhor do que ficar parado.
Eu sabia que a frase carregava outra lembrança.
Foi exatamente assim que Regina havia começado o pedido no terceiro dia do meu casamento: um apartamento vazio era um desperdício.
A diferença era que ninguém estava decidindo por mim o que fazer com aquele patrimônio.
Alguns dias depois, conversei com Lucas sobre o imóvel que Regina havia pedido para Marcelo.
Ele continuava vazio.
A proposta de uso gratuito não fazia mais sentido porque Marcelo já tinha sua própria casa alugada.
Decidi colocá-lo para locação.
Lucas concordou que era a escolha mais racional.
— Você não precisa da minha autorização — acrescentou.
— Eu sei.
— Então por que está me contando?
Pensei um pouco.
— Porque hoje eu quero compartilhar a decisão. É diferente de pedir permissão.
Ele sorriu.
A diferença parecia pequena, mas representava quase tudo que tínhamos aprendido naquele ano.
O apartamento foi anunciado e, algum tempo depois, alugado.
A renda passou a cobrir as despesas do próprio imóvel e a reforçar minhas reservas.
Não havia vingança nisso.
Não aluguei o lugar para provar nada a Regina.
Eu simplesmente parei de deixar uma propriedade parada apenas porque, durante meses, ela carregara um conflito familiar.
Marcelo soube e não reclamou.
— Era seu mesmo — disse.
Aquela frase talvez fosse a forma mais simples de mostrar o quanto ele havia mudado.
Regina descobriu depois, por meio dele.
Quando nos encontrou num almoço de família, apenas comentou:
— Então você alugou o apartamento.
— Aluguei.
— Está conseguindo um valor bom?
— Está funcionando bem.
Ela pareceu querer perguntar mais alguma coisa, mas parou.
Lucas mudou de assunto.
Aquela pequena atitude mostrou que ele continuava entendendo que minha vida financeira não precisava virar tema de mesa.
Na mesma época, comecei a pensar em nossa relação de maneira menos defensiva.
Durante meses, eu tinha avaliado o casamento pelo que poderia dar errado.
Era compreensível.
O terceiro dia havia colocado diante de mim exatamente o tipo de situação que meus pais temiam.
Mas viver esperando a próxima ameaça também seria uma forma de deixar aquele episódio controlar minha vida.
Por isso, numa noite tranquila, falei com Lucas:
— Eu quero continuar casada com você.
Ele ficou me olhando.
— Isso parece sério.
— É sério.
Sentei ao lado dele.
— Mas quero continuar com o casamento que nós construímos depois do problema. Não quero voltar para o casamento que eu imaginava antes dele.
Lucas demorou alguns segundos para entender.
— Porque aquele casamento não existia de verdade?
— Exatamente.
Antes, eu acreditava que amor eliminaria conflitos.
Agora eu sabia que amor não eliminava nada.
O que importava era como duas pessoas escolhiam agir quando o conflito aparecia.
Lucas segurou minha mão.
— Eu também não quero voltar.
Falamos sobre futuro, trabalho e filhos, embora não tivéssemos pressa em decidir tudo.
Pela primeira vez, essas conversas não pareciam promessas românticas.
Pareciam planos entre duas pessoas que já tinham visto um lado difícil uma da outra.
Regina ainda não tinha pedido desculpas diretamente.
Eu já não esperava por isso como condição para seguir em frente.
Mesmo assim, algumas semanas antes da abertura oficial do ateliê, ela me procurou.
Dessa vez, telefonou antes.
Perguntou se poderia passar em nossa casa.
Quando chegou, sentou-se à mesa e ficou alguns segundos mexendo na alça da bolsa.
— Helena, talvez eu tenha exagerado naquela história do apartamento.
Eu não respondi imediatamente.
Ela continuou:
— Na minha cabeça, como você vinha de uma família com mais condições, aquilo parecia uma coisa pequena para você e enorme para o Marcelo.
A frase era quase igual ao pensamento que Lucas havia expressado meses antes.
— E agora? — perguntei.
Regina respirou fundo.
— Agora eu acho que usei a diferença entre vocês como desculpa para não obrigar meu filho a crescer.
Foi a primeira vez que ela disse algo assim.
Não tentei facilitar.
— E também esperou que eu resolvesse um problema que não era meu.
Ela assentiu.
— Também.
Não houve abraço.
Não houve lágrimas.
Eu apenas disse:
— Obrigada por reconhecer.
Era suficiente.
Antes de sair, entreguei a ela um convite para a abertura do ateliê.
Regina olhou o endereço.
— Esse lugar é alugado?
— Não.
Ela levantou os olhos, curiosa, mas não perguntou.
Sorri.
— É uma história para outro dia.
Na verdade, eu já tinha decidido que não esconderia mais nada por medo da reação de alguém.
Se ela perguntasse, eu responderia.
Se se incomodasse, o incômodo seria dela.
No dia da abertura, pela primeira vez desde meu casamento, toda a família estaria no mesmo lugar diante de uma parte do patrimônio que Regina nunca soubera que existia.
Mas, ao contrário do terceiro dia depois da cerimônia, eu não estava entrando naquela situação para descobrir o que os outros fariam.
Eu já sabia exatamente o que eu faria.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














