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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Naquela noite, eu não queria discutir sobre metros quadrados, escritura ou dinheiro. O apartamento tinha se tornado apenas a parte visível de uma questão maior, e eu precisava saber se Lucas conseguia enxergar isso. Sentei-me diante dele na sala e perguntei de forma direta se, caso eu tivesse recusado imediatamente o pedido de Regina, ele teria ficado ao meu lado.

Ele ficou em silêncio por tempo suficiente para que eu entendesse que a resposta não era simples. Depois disse que provavelmente tentaria me convencer a ajudar Marcelo de alguma maneira, porque se sentia responsável pela família desde que o pai morrera. Durante muitos anos, ele havia sido o filho em quem Regina depositava a esperança de que tudo melhoraria.

Eu conseguia compreender esse peso. O que eu não aceitava era que ele transformasse esse sentimento em uma obrigação minha sem sequer conversar comigo. — Você pode sentir responsabilidade pelo seu irmão — falei. — Mas não pode decidir que eu também tenho a mesma responsabilidade, principalmente quando a solução escolhida é entregar algo que pertence a mim.

Lucas passou a mão pelo rosto e reconheceu que deveria ter impedido a mãe de me abordar daquela forma. Pela primeira vez desde o jantar, ouvi um pedido de desculpas que não vinha acompanhado de uma justificativa. Ainda não era suficiente para recuperar minha confiança, mas era diferente das frases que ele repetira até então.

No dia seguinte, Regina me ligou cedo. Queria saber quando voltaríamos ao cartório e disse que Marcelo e Lívia precisavam dar uma resposta à família dela. Em vez de entrar em uma discussão, propus uma solução que realmente correspondia ao motivo apresentado inicialmente: se o problema era a falta de moradia, eu poderia permitir que Marcelo usasse o apartamento por um período determinado, sem transferência de propriedade.

Expliquei que poderíamos formalizar tudo, definir o prazo e deixar claro que as despesas de condomínio, consumo e conservação seriam responsabilidade dele. Não cobraria aluguel durante aquele período. Na minha cabeça, era uma ajuda considerável para alguém prestes a começar a vida de casado.

Regina recusou imediatamente.

— Isso não resolve nada, Helena. A família da Lívia quer saber que eles terão algo próprio.

Aquela resposta confirmou o que eu havia percebido no cartório. Não se tratava apenas de um teto. O apartamento era parte de uma negociação informal em torno do casamento de Marcelo.

Lívia também acabou falando comigo mais tarde. Ao contrário de Regina, ela não tentou disfarçar o que queria. Disse que seus pais consideravam arriscado vê-la se casar com alguém que não tinha estabilidade profissional nem patrimônio e que uma casa no nome de Marcelo diminuiria essa preocupação.

Eu não a culpei por querer segurança. Na verdade, eu compreendia muito bem aquele desejo. O que não fazia sentido era esperar que a segurança dela fosse construída com a transferência do meu patrimônio.

— Se você precisa que Marcelo tenha alguma coisa antes de se casar com ele, então talvez essa conversa seja entre vocês dois — eu disse. — Não entre vocês e o meu apartamento.

Lívia não gostou, mas não encontrou muito o que responder.

À noite, contei tudo a Lucas. Ele ficou constrangido ao perceber que a mãe havia apresentado a questão como uma necessidade imediata de moradia quando, na verdade, havia muito mais envolvido. Perguntei se ele ainda achava que eu deveria transferir o imóvel.

Dessa vez, ele respondeu que não.

Foi a primeira mudança concreta desde o jantar.

No entanto, eu ainda tinha outra questão. Pedi que, a partir daquele momento, qualquer ajuda financeira importante que saísse do orçamento do nosso casamento fosse discutida entre nós antes de ser prometida a alguém. Lucas aceitou, mas confessou que durante anos ajudara a mãe sempre que ela pedia.

Não havia nada de errado nisso enquanto era solteiro e usava o próprio dinheiro. Eu deixei isso claro. O problema começaria se a rotina continuasse exatamente igual agora que tínhamos uma vida financeira em comum.

— Eu não quero controlar o que você faz pela sua mãe — falei. — Quero apenas que você entenda que casar significa que algumas decisões deixam de ser individuais.

Ele me encarou por alguns segundos e então assentiu.

Nos dias seguintes, Regina começou a demonstrar sua insatisfação por mensagens e telefonemas. Ela dizia que nunca imaginara que uma “formalidade de papel” pudesse ser mais importante do que a felicidade de Marcelo. Eu não respondi às provocações. Repetia apenas que a proposta de uso temporário continuava disponível se o problema fosse moradia.

Marcelo também ligou para o irmão. Lucas ouviu durante alguns minutos e depois respondeu que não me pressionaria para transferir o apartamento. Quando desligou, parecia abatido, mas não voltou atrás.

Aquilo significava mais para mim do que qualquer pedido de desculpas.

Pouco tempo depois, soubemos que Lívia havia decidido adiar os planos de casamento. Não porque tivesse deixado de gostar de Marcelo, mas porque queria vê-lo construir alguma estabilidade com os próprios recursos antes de marcar uma data.

Regina ficou furiosa.

Na cabeça dela, eu tinha destruído um casamento.

Na minha, eu simplesmente havia me recusado a financiar a solução que todos consideravam mais conveniente.

Naquela noite, enquanto Lucas guardava o celular depois de mais uma discussão com a mãe, ele comentou que talvez tivesse passado anos confundindo ajudar a família com resolver os problemas dela. Eu não respondi de imediato. Apenas pensei que, se ele realmente começasse a compreender essa diferença, talvez ainda houvesse algo em nosso casamento que valesse a pena reconstruir.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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