
PARTE 2
Naquele momento, eu nunca havia imaginado que, apenas três dias depois da cerimônia, aquele mesmo imóvel estaria no centro da primeira grande discussão do meu casamento. O apartamento havia ficado em meu nome, e todos na família sabiam disso desde antes da festa. Talvez por isso Regina tivesse falado com tanta naturalidade, como se passar um patrimônio meu para Marcelo fosse apenas mais uma tarefa de segunda-feira.
Depois do jantar, Lucas e eu voltamos para casa quase sem conversar. Assim que fechou a porta, ele perguntou se eu realmente pretendia cumprir o que havia dito. Respondi com outra pergunta: — Você sabia que sua mãe faria aquele pedido?
Ele demorou um pouco para responder. Depois admitiu que Regina havia mencionado o assunto dois dias antes, dizendo que Marcelo precisava de uma casa para poder organizar o casamento. Lucas contou que não tinha prometido nada, mas também não havia dito que ela não deveria me pedir.
Aquilo me incomodou mais do que o pedido em si. — Então, quando você encostou o pé no meu debaixo da mesa, estava me pedindo para aceitar. Lucas baixou os olhos e explicou que só queria evitar uma discussão diante dos parentes. Eu percebi que, para ele, preservar a paz naquela mesa havia sido mais importante do que me proteger de uma situação constrangedora.
Na manhã seguinte, Regina chegou cedo acompanhada de Marcelo e Lívia. Parecia animada, como se tudo já estivesse decidido. Eu peguei minha bolsa e disse que poderíamos ir, exatamente como havia prometido.
No cartório, a conversa mudou de tom. A funcionária explicou que não bastava colocar uma assinatura em uma folha: seria necessário preparar a escritura adequada, apresentar documentos, recolher os tributos correspondentes e depois registrar a transferência no Cartório de Registro de Imóveis. Marcelo perguntou quanto custaria todo o processo e perdeu parte do entusiasmo quando ouviu que havia despesas envolvidas.
Regina virou-se imediatamente para mim. — Helena, já que o apartamento é seu, você pode pagar essa parte também, não é? Respondi com calma que tinha concordado em transferir o imóvel, não em pagar as despesas de quem o receberia.
Ela franziu a testa. Marcelo disse que não tinha aquele dinheiro disponível e Lívia ficou em silêncio. Lucas olhou para mim, mas, dessa vez, não tentou tocar meu braço nem me pedir nada.
Perguntei então por que a escritura precisava ser transferida se, na noite anterior, Regina dissera que Marcelo só precisava “usar” o apartamento. Se era realmente algo temporário, eu poderia analisar uma cessão de uso por prazo determinado. Regina respondeu depressa demais: — Não, morar de favor não serve. Para casar, ele precisa ter algo no nome dele.
Foi naquele instante que a história mudou para mim. Até então, eu tinha ouvido que meu cunhado precisava de um lugar para começar a vida. Agora estava claro que a prioridade era ele se tornar proprietário do lugar.
Olhei para Marcelo. — Foi isso que você queria desde o começo? Ele respondeu que uma casa própria daria mais segurança ao casamento e que, afinal, eu tinha condições melhores do que ele. Não havia vergonha em sua voz, apenas a convicção de que aquela diferença de condição justificava o pedido.
Eu recolhi meus documentos. — Então vamos parar por aqui hoje. Regina ficou indignada e lembrou que eu havia dito “tudo bem” na noite anterior. — E eu vim — respondi. — Mas antes de passar um imóvel para alguém, eu tenho o direito de entender exatamente o que estou fazendo.
No caminho para casa, Lucas tentou explicar que a mãe falava daquele jeito porque passara dificuldades demais na vida. Eu não discuti isso. Apenas disse que nossas decisões, dali em diante, precisariam começar entre nós dois, e não em uma conversa que a família dele preparasse antes de me colocar diante de uma mesa cheia de gente.
Ele assentiu, mas eu ainda não sabia se tinha entendido de verdade. Por isso, antes de entrarmos no apartamento, deixei uma coisa clara: não haveria nenhuma assinatura enquanto nós dois não conversássemos sobre o que significava ser marido e mulher quando os interesses das nossas famílias entrassem em conflito.
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