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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

O problema não desapareceu quando decidimos que o apartamento não seria transferido. Na verdade, foi justamente depois daquela decisão que começaram a aparecer as consequências que antes estavam escondidas sob o pedido de Regina. Marcelo não tinha economias suficientes, não permanecia muito tempo no mesmo emprego e havia criado o hábito de esperar que alguém próximo cobrisse o que faltava.

Regina também parecia incapaz de enxergar isso como um problema. Para ela, o filho mais novo apenas tivera menos oportunidades. Sempre que Marcelo abandonava um trabalho, havia uma explicação: o chefe era injusto, o salário era baixo, o ambiente era ruim ou o trajeto era cansativo.

Lucas conhecia todas aquelas histórias desde sempre. Pela primeira vez, porém, começou a escutá-las de outra maneira. Alguns dias depois, sua mãe pediu que ele fizesse um empréstimo para ajudar Marcelo com os gastos que teria caso o casamento voltasse a ser marcado.

Eu estava na sala quando a ligação aconteceu, mas Lucas não colocou o telefone no viva-voz. Mesmo assim, pela expressão dele, percebi o momento exato em que a conversa ficou tensa.

— Mãe, eu não vou fazer empréstimo para isso.

Ele ouviu alguma coisa e respirou fundo.

— Porque eu também tenho uma casa e uma vida para organizar agora. Não é porque me casei que deixei de ser seu filho, mas eu não posso continuar resolvendo tudo.

Quando desligou, ficou alguns minutos em silêncio.

Eu não comemorei.

Colocar limites na própria família pode parecer simples quando observado de fora, mas eu sabia que, para Lucas, aquilo significava contrariar uma mulher que havia criado os filhos sozinha e repetido durante anos que eles precisavam cuidar uns dos outros.

Mais tarde, tivemos uma conversa mais difícil.

Lucas disse que entendia minha posição sobre o apartamento, mas soltou uma frase que me feriu.

— Às vezes eu acho que tudo isso ficou maior porque, para a sua família, um apartamento não representa o mesmo sacrifício que representaria para a minha.

Eu o encarei.

— Então, porque meus pais trabalharam e conseguiram construir mais patrimônio, ficou mais fácil pedir que eu entregue parte dele?

Ele percebeu imediatamente o problema.

Tentou explicar que não queria dizer aquilo, mas eu não deixei a conversa desaparecer numa correção de palavras.

— Essa é exatamente a lógica que me preocupa, Lucas. Você pode não querer tomar nada de mim. Mas, se no fundo acredita que eu tenho mais e por isso devo ceder mais, um dia qualquer limite meu vai parecer egoísmo para você.

Ele permaneceu calado.

Naquela noite, dormimos virados para lados opostos da cama.

Eu comecei a pensar seriamente no conselho do meu pai. Não sobre dinheiro, mas sobre tempo. Ele havia dito que casamento mostrava lados das pessoas que o namoro dificilmente conseguia revelar.

Lucas continuava sendo o homem que lembrava dos meus gostos, que me acompanhara durante noites inteiras de pintura e que economizara durante dois anos para realizar um sonho meu. Nada daquilo havia desaparecido.

Mas também existia um Lucas que havia aprendido desde pequeno que suas necessidades vinham depois das de Regina e Marcelo.

O que eu ainda não sabia era qual dessas forças seria maior quando surgissem novos conflitos.

Decidi não tomar nenhuma decisão definitiva enquanto estivesse magoada. Continuei trabalhando, voltei a passar mais tempo no ateliê e tentei recuperar a rotina que eu tinha antes dos preparativos do casamento.

Pintar sempre fora meu jeito de organizar pensamentos.

Lucas percebeu que eu estava mais distante. Em vez de insistir em conversas todas as noites, começou a mudar pequenas atitudes.

Quando Regina ligava para reclamar de mim, ele não levava cada comentário para dentro de casa.

Quando Marcelo perguntava se havia alguma possibilidade de eu reconsiderar o apartamento, Lucas respondia sozinho que o assunto estava encerrado.

Essas atitudes não apagavam o que havia acontecido, mas eram novas.

Algumas semanas depois, Marcelo conseguiu trabalho em um centro de distribuição. Não era o emprego que sonhava ter e o salário não resolveria sua vida de imediato, mas pela primeira vez em muito tempo ele parecia entender que, se quisesse convencer Lívia de que estava preparado para casar, precisaria permanecer em algum lugar por mais de poucas semanas.

Regina, porém, encarou aquilo como uma humilhação.

Ela telefonou para Lucas dizendo que o irmão não deveria precisar “se matar de trabalhar” quando havia uma solução tão simples dentro da família.

Lucas respondeu:

— A solução simples era pegar o apartamento da Helena. Simples para quem recebia, mãe.

Eu estava perto o suficiente para ouvir.

Regina aumentou a voz do outro lado da linha.

— Desde quando você fala comigo desse jeito?

Lucas fechou os olhos por um instante.

— Desde que eu comecei a perceber que dizer não não significa desrespeitar você.

Aquela frase marcou outra mudança.

Pela primeira vez, o conflito já não era apenas entre mim e a família dele.

Lucas havia começado a assumir a própria posição.

Mesmo assim, eu não estava pronta para fingir que tudo tinha voltado ao normal.

Certa noite, ele me perguntou se eu ainda me arrependia de ter me casado.

Pensei antes de responder.

— Eu me arrependo de ter acreditado que amar alguém seria suficiente para evitar todos os problemas que meus pais tentaram me mostrar.

Ele abaixou a cabeça.

Aproximei-me um pouco.

— Mas ainda não sei se me arrependo de ter escolhido você. Isso vai depender do que nós dois fizermos daqui para frente.

Ele não pediu que eu prometesse ficar.

Talvez, naquele momento, finalmente tivesse entendido que meu casamento não precisava ser mantido a qualquer custo.

Precisava merecer continuar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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