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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Eu não queria transformar os quatro imóveis em um teste secreto. Meu pai havia me pedido discrição por prudência, não para que eu passasse a vida observando Lucas como se cada atitude dele precisasse receber uma nota. Ainda assim, eu precisava chegar a um ponto em que contar a verdade não parecesse colocar gasolina sobre um problema que mal começava a ser controlado.

Enquanto eu pensava nisso, outra situação mostrou até onde os novos limites realmente chegariam.

Numa tarde de terça-feira, eu estava no ateliê trabalhando numa pintura quando Lucas me mandou uma mensagem dizendo que Regina havia aparecido em nosso apartamento sem avisar. Ela queria falar comigo e decidira esperar minha volta.

Quando cheguei, encontrei os dois na sala.

Regina estava sentada no sofá com a bolsa no colo. Lucas permanecia numa poltrona diante dela.

Percebi imediatamente que já tinham discutido.

— Finalmente — ela disse quando me viu. — Precisamos encerrar esse assunto.

Eu deixei minhas coisas perto da porta.

— Que assunto?

— O apartamento.

Quase três meses haviam se passado desde o cartório.

— Para mim, esse assunto já terminou.

Regina respirou fundo.

— Marcelo está trabalhando. A Lívia continua com ele. Agora você não pode dizer que ele não está tentando.

— Eu nunca disse que ele não poderia morar no imóvel por um período. O que recusei foi dar a propriedade para ele.

Ela balançou a cabeça.

— Você tem uma maneira muito fria de falar dessas coisas. Numa família, tudo deveria circular.

Perguntei:

— Se tudo circula, o que Marcelo pretende colocar no meu nome?

Regina me encarou, ofendida.

— Ele não tem nada.

— Então não é “circular”. É sair de uma pessoa e ficar com outra.

Lucas virou o rosto para esconder um sorriso curto, mas Regina percebeu.

— Você acha graça, Lucas?

— Não, mãe. Só acho que a Helena tem razão nessa parte.

Regina levantou-se.

O tom dela mudou.

— Antes de se casar, você não era assim.

Foi a frase que mais atingiu Lucas.

Vi em seu rosto que aquilo doía porque tocava diretamente na culpa que ele carregava.

Mas ele não recuou.

— Antes de me casar, eu não precisava dividir minhas decisões com uma esposa. Agora preciso.

Regina apontou para mim.

— Então ela manda em você?

Eu me preparei para responder, mas Lucas falou primeiro.

— Não. É exatamente isso que você ainda não entendeu. Ela não manda em mim, e você também não.

O silêncio que veio depois foi pesado.

Regina pegou a bolsa.

Antes de sair, disse que eu estava afastando Lucas da própria família.

Foi a primeira vez que senti vontade de responder com raiva.

Mesmo assim, controlei a voz.

— Dona Regina, se a senhora quiser vir aqui, telefone antes. Esta também é minha casa. Eu não aceito que alguém apareça sem avisar para me pressionar a entregar patrimônio.

Ela olhou para Lucas esperando que ele me corrigisse.

Ele apenas disse:

— Por favor, avise antes de vir, mãe.

A porta se fechou alguns segundos depois.

Lucas ficou parado na sala.

— Isso foi horrível.

— Foi.

— Mas acho que precisava acontecer.

Concordei.

Naquela noite, porém, não tratei sua atitude como prova de que tudo estava resolvido.

Sentei ao lado dele e disse que eu precisava saber se ele estava estabelecendo limites porque realmente acreditava neles ou apenas porque tinha medo de me perder.

— Talvez no começo tenha sido medo — ele respondeu. — Agora eu acho que estou percebendo coisas que sempre estiveram diante de mim.

Eu gostei da sinceridade.

— E eu também tenho uma responsabilidade — falei. — Não quero que sua mãe vire a explicação para qualquer problema entre nós. Se um dia nós dois fracassarmos, precisa ser pelas escolhas que nós fizemos, não porque passamos anos apontando para ela.

Lucas ficou quieto e depois concordou.

Nos meses seguintes, a rotina começou a se reorganizar.

Marcelo completou o quarto mês no emprego.

Lívia parou de falar em apartamento no nome dele e começou a discutir com ele quanto os dois poderiam gastar num aluguel sem depender das famílias.

Regina se mostrou menos presente.

Não porque tivesse aceitado tudo, mas porque percebeu que as pressões já não produziam o mesmo resultado.

Eu voltei a pintar com regularidade.

Uma das coisas que mais me incomodavam desde o casamento era a sensação de ter deixado minha própria vida em segundo plano no meio de discussões familiares.

Por isso, comecei a passar algumas horas por semana em um dos imóveis comerciais que meus pais haviam me dado. O espaço estava vazio e tinha boa iluminação.

Ainda não era um projeto.

Eu simplesmente gostava de trabalhar ali.

Lucas sabia que eu estava usando um espaço da família Almeida, mas não perguntou detalhes.

Certa noite, ele apareceu com jantar para nós dois enquanto eu terminava uma tela.

Sentou-se no chão, encostado na parede, exatamente como fazia na época da universidade.

Por algumas horas, nenhuma das nossas famílias existiu.

Éramos apenas nós dois.

Quando terminei, mostrei o quadro.

Ele ficou observando.

— Ainda tem luz — disse.

Eu sorri.

Foi a primeira vez, desde o casamento, que aquela lembrança não doeu.

No caminho para casa, percebi que não estava mais me perguntando apenas se Lucas merecia conhecer a verdade sobre os outros imóveis.

Eu estava começando a me perguntar se esconder aquilo por muito mais tempo poderia se transformar em outro tipo de distância entre nós.

Meu pai tinha dito: espere até conhecer melhor as pessoas.

Eu estava conhecendo.

E, pela primeira vez, também estava conhecendo meu marido depois que ele aprendera a dizer não.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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