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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

A abertura do ateliê aconteceu numa tarde de sábado.

Meus pais chegaram cedo.

Lucas passou a manhã comigo organizando os últimos detalhes, embora eu tivesse dito várias vezes que não precisava. Ele respondeu que sabia disso e que estava ali porque queria.

Marcelo e Lívia apareceram juntos pouco depois.

Regina foi a última da família Rocha a chegar.

Ela parou na entrada, observou o espaço e ficou claramente impressionada.

Nas paredes, estavam algumas das minhas pinturas mais recentes. No fundo, deixei uma área reservada para trabalhar. Perto das janelas, coloquei a primeira tela que eu ainda guardava da época da universidade — não a mesma diante da qual Lucas havia me pedido em casamento, mas uma daquele período em que tudo entre nós parecia simples.

Regina caminhou devagar pelo lugar.

— Você fez tudo isso aqui?

— Fiz.

Ela tocou de leve a borda de uma bancada.

— E o imóvel é da sua família?

Eu poderia ter respondido apenas que sim.

Durante quase um ano, porém, aprendi que evitar uma conversa por medo da reação de alguém era outra forma de permitir que essa pessoa controlasse minhas decisões.

— É meu.

Regina voltou o rosto.

— Seu?

— Meus pais colocaram esse imóvel no meu nome antes do casamento.

Ela ficou alguns segundos sem falar.

Então olhou para Lucas.

Ele não demonstrou surpresa.

Foi aí que Regina entendeu.

— Você já sabia?

— Sabia — ele respondeu.

Ela voltou os olhos para mim.

— Então aquele apartamento que eu pedi para o Marcelo não era…

— Não era o único.

Silêncio.

Marcelo também nos observava, mas parecia mais curioso do que qualquer outra coisa.

Regina perguntou:

— Quantos existem?

Eu poderia ter evitado a resposta.

Não havia mais motivo.

— Cinco no total.

A expressão dela foi quase a mesma que eu tinha visto no jantar do terceiro dia de casamento.

Por um instante, voltamos todos àquela mesa.

A mesma mulher diante de uma informação que não esperava.

A diferença era que, dessa vez, eu não estava avaliando se deveria ceder alguma coisa.

Regina abriu a boca, fechou e depois soltou:

— Cinco imóveis?

— Cinco.

— E você nunca contou?

— Meus pais me pediram para falar apenas de um no começo.

— Nem para o Lucas?

— Nem para ele.

Ela ficou em silêncio.

Então perguntou:

— E por que eles fizeram isso?

Meu pai estava a poucos metros, conversando com alguns convidados. Não precisei olhar para ele para me lembrar das palavras que havia ouvido no escritório.

— Porque queriam que eu tivesse tempo para conhecer as pessoas sem que meu patrimônio mudasse a forma como elas me tratavam.

Regina baixou os olhos.

Nenhuma acusação seria necessária.

A história falava sozinha.

Depois de alguns segundos, ela disse:

— Se eu soubesse…

Eu a interrompi antes que terminasse.

— Se soubesse, teria pedido mais?

A pergunta saiu calma.

Não havia ironia.

Talvez por isso tenha sido ainda mais difícil de responder.

Regina ficou vermelha.

— Não sei.

Eu assenti.

— Pelo menos é uma resposta sincera.

Lucas se aproximou.

— Mãe, isso não muda mais nada. Um imóvel ou cinco, nenhum deles fazia parte das coisas que a gente podia decidir pelo Marcelo.

Ela olhou para o filho.

Dessa vez, não discutiu.

Marcelo foi quem quebrou o silêncio.

— Ainda bem que vocês não me deram aquele apartamento.

Todos olharam para ele.

Lívia sorriu.

Marcelo colocou as mãos nos bolsos.

— Na época eu ia achar ótimo. Provavelmente ia continuar largando emprego porque, no fundo, eu saberia que alguém resolveria. Hoje ainda não tenho quase nada, mas pelo menos sei que consigo pagar meu aluguel.

Regina pareceu abalada.

Talvez aquela fosse a consequência que mais doía nela.

O filho que ela tentara proteger estava dizendo que a proteção tinha sido parte do problema.

Lívia segurou o braço dele.

— E um dia a gente compra alguma coisa nossa.

— Um dia — Marcelo respondeu.

Sem pressa.

Sem olhar para mim.

A conversa terminou ali.

Eu não fiz nenhum discurso sobre independência.

Não disse que meu pai estava certo em tudo.

Não tratei os cinco imóveis como vitória sobre a família Rocha.

Eles nunca haviam sido isso.

Eram patrimônio.

Ferramentas.

Segurança.

O que realmente mudara minha vida durante aquele ano não tinha escritura.

Era a capacidade de dizer sim quando eu queria dizer sim e não quando eu queria dizer não.

Era a certeza de que generosidade só tinha valor quando nascia de escolha, nunca de pressão.

Mais tarde, depois que os convidados foram embora, sentei no chão do ateliê, cansada.

Lucas trouxe duas garrafas de água e se sentou ao meu lado.

Por alguns segundos, ficamos apenas olhando para o espaço.

— Seu pai ainda me assusta um pouco — ele comentou.

Eu ri.

— Por quê?

— Porque ele percebeu em cinco minutos uma coisa que eu levei meses para entender.

— Qual?

Lucas olhou para mim.

— Que você nunca precisou de alguém que garantisse sua sobrevivência. Precisava de alguém que respeitasse sua liberdade.

Pensei sobre a frase.

— Acho que nem eu entendia isso completamente.

Ele encostou a cabeça na parede.

— E agora?

Olhei ao redor.

Para as telas.

Para as janelas.

Para o imóvel que um dia tinha sido apenas um documento dentro de uma pasta.

— Agora eu entendo.

Lucas segurou minha mão.

— Eu não posso prometer que nunca vou errar de novo.

— Ainda bem.

Ele riu.

— Ainda bem?

— Se prometesse, eu já começaria a desconfiar.

Nós dois rimos.

Eu não tinha esquecido o que aconteceu no terceiro dia do casamento.

Também não precisava esquecer.

Algumas experiências não servem para ser apagadas.

Servem para mudar a maneira como escolhemos depois delas.

Regina nunca voltou a pedir nenhum dos meus imóveis.

Nossa relação permaneceu respeitosa, mas com limites claros.

Marcelo continuou trabalhando e construindo a vida ao lado de Lívia sem depender de um patrimônio recebido de presente.

Lucas continuou ajudando a mãe dentro do que podia, mas já não tratava cada dificuldade da família como uma responsabilidade que precisava carregar sozinho.

E eu transformei aquele imóvel comercial num lugar onde finalmente pude trabalhar como sempre quis.

Os outros bens continuaram sendo meus.

Alguns geravam renda.

Outros permaneceram reservados para decisões futuras.

Nenhum deles se tornou moeda para comprar paz familiar.

Quando fechei o ateliê naquela noite, Lucas me esperava do lado de fora.

Por alguns segundos, lembrei-me do rapaz que passava horas diante da sala de pintura na universidade só para caminhar comigo até em casa.

Muita coisa havia mudado desde então.

Nós também.

Mas agora eu sabia que amar alguém não significava entregar a essa pessoa o poder de decidir o que eu deveria suportar, ceder ou abandonar.

Meu pai tinha me dado cinco imóveis como proteção.

A vida me ensinou que a proteção mais importante era outra: saber que eu podia escolher.

E, daquela vez, eu não estava esperando que alguém colocasse um mundo inteiro nas minhas mãos — eu mesma estava escolhendo o mundo em que queria viver.

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