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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Seis meses depois do casamento, Marcelo ainda trabalhava no mesmo centro de distribuição. Aquilo, para alguém que raramente permanecera três meses num emprego, era uma mudança significativa. Ele e Lívia tinham alugado um apartamento pequeno, bem mais simples do que aquele que Regina imaginara para eles, e estavam pagando as despesas juntos.

Não havia sido fácil.

Marcelo reclamara do horário, do transporte e do pouco dinheiro que sobrava no fim do mês. Algumas vezes, telefonou para Lucas querendo saber como ele conseguia suportar uma rotina tão rígida havia tantos anos.

Lucas respondia sem dar dinheiro.

Dava conselhos.

Era uma diferença enorme.

Lívia também mudou sua postura. Quando nos encontramos em um café, ela reconheceu que no começo havia tratado meu apartamento quase como parte natural das condições para o casamento.

— Eu estava com medo — disse. — Olhava para o Marcelo e não via estabilidade nenhuma.

— Seu medo fazia sentido.

Ela pareceu surpresa.

— Então você entende?

— Entendo querer segurança. Só não entendia por que ela precisava vir de mim.

Lívia assentiu.

Não viramos amigas íntimas depois disso, mas a tensão entre nós diminuiu.

Com Regina, as coisas continuavam mais frias.

Ela falava comigo com educação quando nos encontrávamos, mas evitava o assunto do apartamento.

Eu também não insistia.

Não precisava que ela reconhecesse publicamente que havia errado para seguir com minha vida.

Naquele período, Lucas cumpriu tudo o que tínhamos combinado sobre dinheiro. Quando a mãe precisava de ajuda, ele avaliava o que podia oferecer sem comprometer nossas responsabilidades. Quando o pedido envolvia Marcelo, perguntava primeiro por que o próprio irmão não podia resolver.

Aos poucos, deixei de sentir que precisava observar cada movimento dele.

Foi então que decidi contar a verdade.

Escolhi uma noite comum.

Sem jantar especial, sem discurso preparado.

Coloquei a antiga pasta de documentos sobre a mesa da sala.

Lucas reconheceu o tipo de papel, mas não entendeu.

— O que é isso?

Sentei diante dele.

— Antes do casamento, meu pai me pediu para esconder uma coisa de você.

Seu rosto mudou imediatamente.

— O quê?

Abri a pasta.

Mostrei os documentos um a um.

— O apartamento que sua mãe pediu não era o único imóvel que meus pais separaram para mim.

Lucas contou em silêncio.

Um.

Dois.

Três.

Quatro.

Cinco.

Ele ficou olhando para os papéis durante alguns segundos.

— Cinco?

— Cinco.

Ele encostou as costas na cadeira.

Não sorriu.

Não perguntou valores.

Não quis saber endereços.

A primeira pergunta foi outra.

— Por que você não confiou em mim?

Eu já esperava por aquilo.

— Porque meus pais pediram que eu esperasse. Eles tinham medo de que dinheiro mudasse a forma como sua família me enxergaria.

Lucas soltou uma risada curta, sem humor.

— Pelo visto, seu pai não estava completamente errado.

— Não.

A resposta saiu dolorosa.

— Mas eu também não acho justo usar o que sua mãe fez para fingir que esconder isso de você não teria impacto.

Ele ficou em silêncio.

Então perguntei se estava com raiva.

— Um pouco.

— De mim?

— Também.

Pela primeira vez em meses, meu coração apertou.

Lucas continuou:

— Mas acho que, se você tivesse me contado antes do casamento, eu teria contado para minha mãe.

Eu não esperava aquela admissão.

— E depois do que aconteceu com um apartamento, eu não consigo dizer que quatro outros teriam tornado as coisas mais fáceis.

Olhei para ele.

Lucas empurrou a pasta de volta na minha direção.

— Eu não quero saber quanto valem. Não quero saber qual rende aluguel, qual está vazio ou onde ficam, a menos que você queira me contar.

— Lucas…

— Só quero entender uma coisa. Você está me contando porque voltou a confiar em mim?

Demorei alguns segundos.

— Estou contando porque quero tentar reconstruir essa confiança de forma completa. E não consigo fazer isso guardando uma parte tão grande da minha vida como se estivéssemos esperando o próximo desastre.

Ele assentiu devagar.

— Então obrigado por contar.

Não houve a reação que Regina teria imaginado.

Não houve cálculo.

Não houve pergunta sobre quanto poderia ser vendido.

Não houve sugestão de que um dos imóveis resolveria os problemas da família Rocha.

Mais tarde, já deitados, Lucas disse:

— Seu pai me deu uma chance sem eu saber.

— Como assim?

— Ele deixou você descobrir quem eu era antes de eu saber o que você tinha.

Virei o rosto para ele.

— E gostou do resultado?

Lucas olhou para o teto.

— Em algumas partes, não.

Eu quase sorri.

— Nem eu.

Ele segurou minha mão.

— Mas quero melhorar as próximas.

No fim daquela semana, contei aos meus pais que Lucas agora sabia.

Meu pai não perguntou qual tinha sido a reação dele.

Apenas quis saber como eu me sentia.

— Mais leve.

Meu pai assentiu.

— Então talvez tenha chegado a hora certa.

Eu percebi que era exatamente isso.

Os imóveis nunca tinham sido um prêmio esperando que Lucas passasse num teste.

Eram apenas uma proteção enquanto eu ainda não conhecia a realidade do meu casamento.

Agora eu conhecia tanto as falhas quanto as mudanças.

E, pela primeira vez desde o jantar do terceiro dia, eu estava escolhendo continuar sem ignorar nenhuma das duas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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