
Parte 9
Meu pai não cumprimentou o diretor primeiro.
Não parou para explicar por que estava ali.
Atravessou o saguão e me abraçou.
— Finalmente — disse, apertando meus ombros depois de me soltar. — Sua mãe contou as horas desde ontem.
Minha mãe chegou logo atrás e me envolveu num abraço ainda mais forte.
— Você está magra.
Quase sorri.
Era exatamente o tipo de coisa que ela diria depois de passar cinco anos me vendo menos do que gostaria.
Ao redor de nós, o saguão havia ficado estranhamente quieto.
Não completamente silencioso, mas com aquela mudança de volume que acontece quando muitas pessoas percebem ao mesmo tempo que algo inesperado está acontecendo.
O diretor se aproximou.
— Senhor Tavares, que surpresa. Não sabíamos que visitaria Curitiba.
Meu pai finalmente se virou para ele.
— Não é uma visita profissional. Vim buscar minha filha.
O diretor olhou para mim.
Depois para ele.
E voltou a olhar para mim.
— Sua filha?
Minha mãe segurou minha mão.
— Nossa única filha.
Não houve anúncio.
Ninguém pegou um microfone.
Não foi necessário.
O sobrenome Tavares, associado ao rosto do meu pai e à forma como meus pais me tratavam, fez o restante.
Vi algumas pessoas da equipe se entreolharem. A médica que havia perguntado se eu fora demitida abriu a boca sem dizer nada. Uma enfermeira levou a mão aos lábios.
Mais distante, Rafael estava imóvel.
Seu pai, que havia acabado de chegar com outros integrantes da família Montenegro, perguntou alguma coisa em voz baixa. Rafael não respondeu.
O diretor parecia estar reorganizando mentalmente todas as informações que tinha sobre mim.
— Eu não fazia ideia de que a doutora era sua filha.
Meu pai olhou para mim antes de responder.
— Era exatamente assim que ela queria.
Eu apertei a mão dele de leve.
Não queria que aquilo se transformasse numa demonstração de poder.
— Pai, já terminei tudo.
Ele entendeu.
— Então podemos ir quando você quiser.
Minha mãe percebeu minha pasta.
— Entregou todos os documentos?
— Tudo.
Ela sorriu com orgulho.
— Ótimo.
Foi nesse momento que Rafael finalmente veio até nós.
Caminhou devagar, como se ainda tentasse compreender o que estava vendo.
— Você é filha de Augusto Tavares?
A pergunta saiu quase como uma acusação.
Olhei para ele.
— Sou.
— Por que nunca me contou?
Meu pai mudou de expressão, mas eu toquei seu braço antes que dissesse alguma coisa.
Aquela conversa era minha.
— Eu ia contar.
Rafael franziu a testa.
— Quando?
— No dia em que encontrei a lista do seu noivado.
O rosto dele perdeu a cor.
Isabela estava a poucos metros dali.
O diretor também ouviu.
Alguns convidados próximos provavelmente ouviram.
Mas eu não aumentei a voz.
Não precisava.
Rafael se aproximou um pouco.
— Então você ia me contar que era uma Tavares e simplesmente desistiu?
— Não desisti de contar. Descobri que a informação já não tinha importância para o nosso relacionamento.
Ele pareceu genuinamente confuso.
— Claro que teria importância.
A resposta saiu tão rápido que ele mesmo percebeu tarde demais.
Isabela virou o rosto na direção dele.
Eu senti uma calma quase triste.
— É exatamente esse o problema, Rafael.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Se eu soubesse quem você era, as coisas teriam sido diferentes.
A frase ficou entre nós.
Durante cinco anos, eu havia acreditado que o maior obstáculo entre nós era o preconceito da família dele.
Naquele momento, Rafael deixou claro que também havia calculado meu valor com base na posição que pensava que eu ocupava.
Se tivesse sabido que eu vinha de uma família mais poderosa, talvez tivesse enfrentado os Montenegro.
Talvez tivesse recusado Isabela.
Talvez tivesse me apresentado orgulhosamente desde o início.
E justamente por isso já não havia volta.
— Eu não precisava que você me escolhesse porque sou uma Tavares — falei. — Eu precisava saber se você me escolheria quando acreditava que eu não tinha nada para te oferecer além de quem eu era.
Ele ficou em silêncio.
Dessa vez, aquele silêncio não me machucou.
Atrás dele, Isabela deu alguns passos em nossa direção.
— Rafael.
Ele se virou.
A expressão dela era firme.
— Precisamos terminar a conversa que começamos ontem.
Rafael olhou para os convidados.
— Agora?
— Sim. Agora.
Ele baixou a voz.
— Isabela, não aqui.
— Você passou dias decidindo o que cada pessoa deveria saber e quando deveria saber. Eu não vou continuar seguindo o seu roteiro.
O pai dela tentou intervir.
— Filha, podemos conversar em particular.
Isabela olhou para ele.
— Podemos. Mas minha decisão não muda.
Rafael ficou tenso.
Eu não queria participar daquela conversa.
Peguei minha pasta.
— Mãe, pai, vamos.
Rafael virou-se imediatamente.
— Espera.
Parei, mas não me aproximei.
— Por favor — disse ele. — Não vai embora assim.
Por um momento, vi o homem por quem eu havia me apaixonado cinco anos antes.
Não o chefe respeitado.
Não o herdeiro da família Montenegro.
Não o noivo da filha do diretor.
Apenas Rafael.
E isso tornou tudo mais difícil.
Mas dificuldade não era motivo suficiente para voltar atrás.
— Eu já esperei tempo demais, Rafael.
Virei-me.
Meu pai abriu a porta para minha mãe e para mim.
Antes de sair, ouvi Isabela falar atrás de nós:
— O noivado acabou.
Não me virei para ver a reação dele.
Aquela consequência pertencia a Rafael, a Isabela e às escolhas que ambos fariam dali em diante.
A minha decisão já estava tomada.
Atravessei a porta principal do Hospital Santa Aurora do mesmo jeito que havia prometido.
Sem me esconder.
Sem fugir.
E sem deixar Rafael decidir novamente para onde eu deveria ir.
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