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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Saí daquela sala sem olhar para trás. Não havia alívio, pelo menos não naquele momento. Havia uma dor pesada, concreta, mas pela primeira vez ela não vinha acompanhada da ansiedade de imaginar onde Rafael estava ou de tentar descobrir o que eu precisava fazer para que ele me escolhesse. O que aconteceria dali em diante dependeria das minhas decisões, e essa diferença parecia pequena apenas para quem nunca havia passado anos esperando que outra pessoa definisse seu lugar.

Naquela tarde, pedi a uma colega que assumisse os dois pacientes que continuariam internados depois da minha saída e comecei a organizar a transferência dos demais casos. Fiz listas detalhadas, revisei exames pendentes e deixei observações para quem assumiria os acompanhamentos. Eu não queria que minha saída repentina se tornasse argumento para alguém dizer que eu era irresponsável. Se fosse embora, seria com o trabalho concluído.

Quando meu plantão terminou, não voltei diretamente para o apartamento. Passei primeiro em um hotel próximo e reservei um quarto por uma semana. Depois fui até a casa que havia dividido com Rafael por anos e comecei a colocar minhas coisas em malas. Não dramatizei cada objeto. Separei roupas, livros, documentos e alguns presentes que eram meus antes dele. O restante ficou onde estava.

Rafael chegou quando eu fechava a segunda mala. Parou na entrada do quarto e observou a cena sem dizer nada durante alguns instantes. — Você está mesmo indo embora daqui? — perguntou. — Estou. — Para um hotel? — Por alguns dias. Depois volto para São Paulo.

Ele franziu a testa. Até então, Rafael sempre acreditara que eu não tinha laços importantes esperando por mim. — Por que São Paulo? — Minha família está lá. A resposta era verdadeira e suficiente. Ele tentou perguntar mais, mas eu fechei a mala e passei por ele.

Na sala, Rafael voltou ao assunto do noivado. Disse que seus pais consideravam a união com Isabela uma escolha natural, que o diretor do hospital apoiava a aproximação e que recusar tudo naquele momento provocaria uma crise familiar. Escutei sem interromper. Quanto mais ele explicava, mais claro ficava que todas aquelas circunstâncias já existiam havia muito tempo. O único elemento novo era eu ter descoberto.

— Você poderia ter me contado quando começaram a pressionar — falei. — Poderia ter me dito quando aceitou conversar sobre casamento. Poderia ter me dito antes de escolherem uma data. Havia dezenas de momentos em que você podia ter sido honesto.

— Eu tinha medo de perder você.

— E por isso decidiu me enganar.

Ele não respondeu.

Peguei a última bolsa e caminhei até a porta. Não devolvi a chave naquela noite porque ainda precisava buscar algumas coisas pequenas, mas deixei claro que não voltaria a dormir ali. Rafael tentou se aproximar. Eu recuei antes que ele me tocasse.

No hotel, liguei para meus pais. Minha mãe quis vir imediatamente para Curitiba, mas pedi que não viesse. Meu pai também perguntou se eu queria que alguém cuidasse da minha mudança ou entrasse em contato com o hospital. Recusei as duas coisas. Eu havia passado cinco anos resolvendo minha vida sem usar o nome Tavares. Queria terminar aquela etapa da mesma maneira.

— Então nos diga apenas quando devemos esperar você — meu pai falou.

Olhei para o calendário. A semana terminaria no domingo.

— Eu volto no domingo.

Dizer aquilo transformou uma intenção em data.

Na manhã seguinte, o hospital parecia igual, mas a sensação era diferente. Quando passei pela sala dos médicos, vi um comunicado simples no mural interno parabenizando Rafael Montenegro e Isabela Vasconcelos pelo noivado que seria celebrado no sábado. Não precisei perguntar quando aconteceria. A data estava ali, impressa em letras discretas.

Meu último dia de trabalho seria justamente na véspera da cerimônia, caso a administração aceitasse minha proposta inicial.

A coincidência me incomodou menos do que eu esperava. Talvez porque, naquele momento, eu já não estivesse tentando impedir o noivado. Ele podia acontecer ou não. A questão principal havia deixado de ser com quem Rafael se casaria. Era quem eu permitiria que Rafael continuasse sendo na minha vida.

Durante a manhã, ele me tratou com uma formalidade exagerada diante da equipe. Quando ficamos sozinhos, porém, voltou a pressionar. Disse que havia falado com o setor administrativo e que minha saída ainda podia ser suspensa. Bastava eu retirar o pedido. Pela primeira vez, percebi como durante anos eu havia confundido insistência com cuidado.

— Não vou retirar.

— Você vai abandonar tudo o que construiu aqui?

— Não. Vou levar comigo o que construí. Experiência, trabalho, competência. O hospital é só o lugar onde isso aconteceu.

A resposta o irritou.

— Você está falando como se nada daqui importasse.

— Importou muito. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para perceber quando deixou de me fazer bem.

No fim do plantão, Isabela apareceu no setor para falar rapidamente com o pai sobre alguns preparativos. Eu já a conhecia de vista. Era educada com a equipe, mantinha certa distância e nunca havia demonstrado qualquer intimidade comigo. Naquele dia, passou por Rafael e tocou de leve no braço dele. Um gesto simples, mas suficientemente natural para mostrar que aquela relação não havia surgido na véspera.

Rafael percebeu que eu havia visto.

Meu rosto não mudou.

Continuei preenchendo o prontuário.

Pouco depois, ele entrou atrás de mim na pequena sala administrativa e fechou a porta.

— Você vai mesmo embora sem me dar uma chance de consertar isso?

Eu coloquei a caneta sobre a mesa.

— Rafael, você teve cinco anos.

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