
Parte 8
O saguão principal já não parecia o mesmo lugar pelo qual eu passava todos os dias. Arranjos discretos haviam sido colocados perto da área reservada para a recepção, funcionários circulavam com bandejas e alguns convidados começavam a chegar. Nada era exagerado, mas estava claro que a direção queria transformar o noivado da filha do diretor e do chefe de cirurgia em um acontecimento social importante.
Eu carregava apenas minha bolsa e uma pequena pasta com documentos.
Minhas malas estavam no hotel e seriam recolhidas mais tarde.
Algumas pessoas da equipe me viram atravessar o saguão e vieram se despedir. Houve abraços sinceros. Também houve olhares curiosos. Eu sabia que muitos tentavam entender por que eu estava tão calma no mesmo dia em que Rafael celebraria o noivado.
Uma médica com quem eu trabalhara durante anos se aproximou.
— Você está bem?
— Vou ficar.
Ela olhou para a movimentação atrás de nós.
— Eu ouvi algumas coisas. Sinto muito.
— Obrigada.
Não havia necessidade de contar o resto.
Enquanto conversávamos, vi Isabela surgir ao lado do pai. Estava elegantemente vestida, mas ainda não com roupa de festa completa. Pela expressão dela, percebi que as conversas da noite anterior não haviam sido tranquilas.
Nossos olhares se encontraram.
Isabela pediu licença ao pai e veio na minha direção.
— Você já terminou?
— Acabei de entregar o crachá.
Ela assentiu.
— Então está indo embora.
— Sim.
Por alguns segundos, nenhuma das duas disse nada.
Depois Isabela falou:
— Conversei com Rafael ontem à noite. Ele admitiu que vocês continuavam juntos quando aceitou oficialmente o noivado.
Aquilo não era mais uma revelação para mim.
Mas era importante para ela.
— Sinto muito que você tenha descoberto dessa forma.
Isabela deu um sorriso amargo.
— Eu também.
Não havia ressentimento direcionado a mim em sua voz.
— Ainda vai haver recepção? — perguntei, mais por perceber a movimentação do que por interesse.
— Vai. Nossas famílias já estão aqui. Mas o fato de as pessoas terem viajado não significa que eu seja obrigada a tomar a mesma decisão que tomaria antes de saber de tudo.
Não perguntei qual decisão seria.
Era dela.
— Espero que faça o que considera certo para você.
Isabela me encarou por um instante.
— Você também.
Ela voltou para junto do pai.
Foi uma conversa curta, mas encerrou algo importante. Durante dias, Rafael havia tratado a situação como uma disputa entre duas mulheres. Não era. Eu não queria o lugar de Isabela, e ela não precisava arrancar de mim qualquer direito sobre Rafael.
O problema estava nas escolhas dele.
Pouco depois, Rafael apareceu no saguão.
Quando percebeu que eu havia falado com Isabela, veio imediatamente até mim.
— O que ela disse?
— Pergunte a ela.
— Você contou mais alguma coisa?
— Não.
Ele olhou ao redor, preocupado com a aproximação dos convidados.
— Você realmente vai ficar aqui?
— Estou esperando meus pais.
— Achei que você fosse embora amanhã.
— Os planos mudaram.
Rafael respirou fundo.
— Escuta. Eu falei sério de manhã. Se eu disser agora que não vou continuar com isso, ainda existe alguma chance?
Dessa vez, não senti raiva.
Apenas uma espécie de tristeza.
— Rafael, se eu dissesse sim, o que aconteceria na próxima vez em que sua família desaprovasse alguma coisa sobre mim? E na seguinte? Quantas vezes eu teria de esperar você decidir se vale a pena me defender?
— Eu faria diferente.
— Porque está perdendo o controle agora.
Ele tentou responder.
Eu continuei:
— Durante cinco anos, você acreditou que eu era uma mulher sem dinheiro, sem contatos e sem uma família capaz de te oferecer prestígio. E mesmo dizendo que me amava, decidiu que eu não era adequada para ser apresentada aos Montenegro. Isso já me diz o que eu precisava saber.
A frase o atingiu.
— Você fala como se eu tivesse vergonha de você.
— Você nunca me levou para conhecer sua família.
— Eles são difíceis.
— E eu paguei o preço da dificuldade deles.
Rafael olhou para o relógio.
— Meus pais estão chegando.
— Então vá recebê-los.
Ele não saiu.
— Quem são seus pais?
A pergunta me surpreendeu.
Talvez pela primeira vez estivesse realmente interessado.
Mas era tarde demais para que a curiosidade dele tivesse algum significado.
— Pessoas que estão vindo buscar a filha.
Passei por Rafael.
Fui até a área próxima à porta principal e parei ao lado de uma das grandes janelas.
Meu celular tocou.
Era minha mãe.
— Chegamos.
Olhei para fora.
Dois carros escuros acabavam de parar diante da entrada.
Eu havia pedido discrição e meus pais realmente não tinham trazido uma comitiva. Um dos carros era deles; o segundo vinha com o motorista e algumas malas que seriam recolhidas no hotel antes de seguirmos para São Paulo.
Meu pai saiu primeiro.
Depois minha mãe.
Mesmo depois de anos evitando eventos públicos da família, eu sabia que o rosto deles era conhecido em certos círculos empresariais e institucionais.
Só não imaginei que alguém no Hospital Santa Aurora os reconheceria tão rapidamente.
O diretor, que conversava com alguns convidados, olhou para a entrada.
Seu rosto mudou.
Ele deu dois passos para a frente.
— Augusto Tavares?
Algumas pessoas se viraram.
Meu pai percebeu a movimentação, mas não respondeu imediatamente.
Porque naquele mesmo instante me viu.
Seu rosto se abriu num sorriso.
E ele caminhou direto na minha direção.
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