
Parte 7
Cheguei ao Hospital Santa Aurora antes das seis da manhã. O prédio ainda estava relativamente silencioso, mas a movimentação no centro cirúrgico já havia começado. Troquei de roupa, revisei os exames mais recentes e conversei com a equipe responsável pelo procedimento. Rafael chegou pouco depois, usando a mesma postura profissional de sempre.
Dentro daquela sala, nossas questões pessoais não tinham lugar.
Foi algo que ambos compreendemos sem precisar combinar.
O procedimento havia sido programado havia dias e exigia atenção. Não era uma cirurgia excepcional, nem um caso capaz de mudar nossas carreiras. Era apenas um paciente que confiava na equipe e merecia que fizéssemos corretamente aquilo para que havíamos sido treinados.
Durante algumas horas, Rafael voltou a ser apenas meu chefe.
E eu, apenas uma médica da equipe.
Curiosamente, trabalhar ao lado dele daquele modo foi uma das coisas que mais me ajudaram a entender nossa separação. Durante anos, eu havia admirado Rafael como profissional e amado Rafael como homem. A primeira parte não precisava desaparecer para que eu reconhecesse o fracasso da segunda.
Terminamos sem intercorrências importantes.
Depois de conferir as orientações pós-operatórias e conversar com a equipe que assumiria o acompanhamento, retirei minhas luvas e fui ao vestiário. Quando saí, Rafael estava esperando no corredor.
— Foi nosso último procedimento juntos — disse.
— Foi.
Sua voz parecia diferente.
Menos agressiva.
Mais cansada.
— Eu não queria que terminasse assim.
Fechei meu armário pela última vez.
— Então você deveria ter tomado outras decisões antes.
Ele baixou os olhos.
— Se eu cancelar o noivado hoje, você fica?
A pergunta já não tinha o mesmo poder que teria dias antes.
— Não.
Rafael ergueu o rosto rapidamente.
— Nem se eu cancelar?
— O problema não é só o noivado. É o fato de você ter conseguido voltar para casa, deitar ao meu lado e agir normalmente enquanto isso estava sendo organizado.
— Eu estava tentando encontrar uma saída.
— Uma saída para você.
Ele não respondeu.
Continuei:
— Você queria manter a aprovação da sua família, a aliança com a família de Isabela e também me manter na sua vida. Em algum momento, alguém teria de pagar o preço dessa combinação. Você decidiu que seria eu.
Rafael passou a mão pelos cabelos.
— Eu não pensei dessa forma.
— Eu sei.
E talvez esse fosse justamente o problema.
Não havia sido necessário que Rafael acordasse todas as manhãs pensando em como me machucar. Bastara considerar seus próprios desejos mais importantes que meu direito de saber a verdade.
Fui ao setor administrativo pouco depois das onze. Assinei os últimos documentos, entreguei o crachá e recebi a confirmação formal do desligamento. Uma funcionária que me acompanhara desde meu primeiro ano me abraçou e desejou sorte. Outra me perguntou se eu já tinha emprego em São Paulo.
— Ainda não decidi o próximo passo — respondi.
E era verdade.
Voltar para minha família não significava abandonar a medicina, tampouco significava que eu precisava aceitar imediatamente qualquer responsabilidade que meus pais imaginassem para mim. Pela primeira vez, eu me permitia chegar em casa antes de decidir quem seria depois.
Ao sair do setor, passei pelo mural onde o comunicado do noivado continuava afixado.
Não parei.
No corredor principal, havia flores sendo levadas para uma área de recepção usada em eventos institucionais. Descobri por uma funcionária que parte dos convidados passaria primeiro pelo hospital para uma pequena recepção organizada pelo diretor antes da celebração familiar em outro local.
Aquilo explicava a movimentação.
Também explicava a mensagem que recebi pelo sistema interno poucos minutos depois.
Era de Rafael.
“Quando terminar, seria melhor usar a saída lateral. Os convidados começam a chegar depois das 13h.”
Fiquei olhando para a tela.
Eu havia trabalhado no Santa Aurora durante cinco anos.
Entrara diariamente pela porta principal.
Fizera plantões, acompanhara famílias, atravessara madrugadas e construíra uma parte inteira da minha vida naquele prédio.
Agora Rafael queria que eu saísse escondida pela lateral para que minha existência não criasse desconforto durante a celebração dele.
Não respondi pelo sistema.
Encontrei-o pessoalmente perto do elevador.
— Recebi sua mensagem.
Ele pareceu desconfortável.
— Não queria que você tivesse de passar por uma situação desagradável.
— Curioso. A mensagem parecia mais preocupada com seus convidados.
— Não começa.
— Não vou começar nada. Já terminei.
Rafael respirou fundo.
— Então faz isso por mim. Só hoje.
Olhei para ele por alguns segundos.
— Durante cinco anos eu fiz muitas coisas por você.
A porta do elevador se abriu.
Entrei.
Antes de fechar, acrescentei:
— Hoje eu saio pela porta que sempre usei.
Desci até o térreo.
Minha mãe havia enviado uma mensagem avisando que ela e meu pai estavam a cerca de vinte minutos do hospital. Eu poderia ter esperado em algum canto discreto. Poderia pedir que me buscassem na rua lateral e evitar qualquer encontro.
Mas não havia mais motivo.
Eu não pretendia interromper a cerimônia de Rafael.
Não pretendia falar diante dos convidados.
Nem sequer pretendia revelar quem eu era.
Eu apenas sairia do meu antigo local de trabalho pela entrada principal e entraria no carro dos meus pais.
Se outras pessoas estivessem ali, isso não seria responsabilidade minha.
Guardei o celular na bolsa.
Então caminhei em direção ao saguão.
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