
Parte 5
Nos dias seguintes, o hospital continuou funcionando como sempre, e talvez isso tenha sido o mais estranho. Pessoas eram internadas, cirurgias eram marcadas, exames chegavam, famílias esperavam notícias nos corredores. A minha vida parecia estar se desmontando, mas o mundo não demonstrava qualquer obrigação de parar por causa disso. Aos poucos, aquela normalidade começou a me fazer bem.
Eu concentrei minha energia naquilo que ainda dependia de mim. Finalizei relatórios, conversei com os profissionais que assumiriam meus casos e respondi às dúvidas necessárias. Algumas pessoas perguntaram para onde eu iria. Eu dizia apenas que voltaria para São Paulo. Não mencionei minha família, não corrigi rumores e não usei meu sobrenome para provar nada.
Quanto menos eu explicava, mais os comentários cresciam.
Havia quem dissesse que eu estava saindo porque Rafael finalmente havia escolhido alguém “do nível dele”. Outros afirmavam que eu nunca suportaria ver o casamento acontecer. Uma enfermeira que trabalhava comigo havia anos chegou a perguntar, constrangida, se eu tinha sido demitida para evitar problemas com a filha do diretor.
— Pedi demissão — respondi.
Ela arregalou os olhos.
— Por vontade própria?
— Sim.
A pergunta me fez perceber até onde algumas pessoas haviam reduzido minha presença ali. Mesmo depois de anos de trabalho, parecia mais fácil acreditar que meu destino dependia de Rafael do que aceitar que eu pudesse escolher ir embora. Em outro momento, aquilo teria me irritado profundamente. Agora servia apenas como mais uma confirmação de que eu precisava sair.
Na quinta-feira, eu terminava a transferência de um caso quando Isabela entrou no setor. Ela vinha acompanhada de uma funcionária administrativa e parecia estar resolvendo alguma questão relacionada à cerimônia. Rafael apareceu alguns minutos depois. Conversaram em voz baixa perto da entrada.
Eu não prestei atenção até ouvir meu nome.
Levantei os olhos.
Rafael se aproximou de mim com um documento na mão. — Preciso que você confirme uma informação deste paciente. Ele se inclinou sobre a mesa e indicou um campo no relatório. Enquanto eu verificava, sua mão pousou brevemente no encosto da minha cadeira de um jeito automático, íntimo demais para alguém que pretendia convencer o mundo de que nosso relacionamento pertencia ao passado distante.
Quando terminei, percebi Isabela nos observando.
Ela não disse nada.
Mais tarde, quando fui ao pequeno café do térreo, encontrei-a sozinha perto de uma das janelas. Pensei em seguir adiante, mas ela me chamou.
— Posso falar com você?
Sentei-me à mesa diante dela.
Isabela não parecia agressiva. Parecia desconfortável.
— Você e Rafael tiveram um relacionamento?
Eu poderia ter mentido para evitar confusão. Poderia dizer que aquilo dizia respeito a ele e sair dali. Mas a pergunta era direta e eu já havia passado tempo demais protegendo o conforto de Rafael.
— Tivemos.
Ela juntou as mãos sobre a mesa.
— Há quanto tempo terminou?
— Esta semana.
O rosto dela mudou.
— Esta semana?
Assenti.
— Ficamos juntos por cinco anos.
Isabela levou alguns segundos para responder.
— Rafael me disse que tinha tido uma relação, mas que havia terminado fazia meses. Disse que não era algo sério e que vocês já estavam afastados.
A informação não me surpreendeu tanto quanto deveria. Depois da lista de convidados, eu já não conseguia imaginar que Rafael tivesse sido totalmente honesto com ninguém.
— Morávamos juntos até segunda-feira — falei.
Isabela desviou os olhos para a janela.
Não chorou.
Não criou uma cena.
Apenas respirou fundo e perguntou:
— Você sabia do noivado?
— Descobri por acaso na mesa dele.
— Ele contou?
— Não.
A resposta pareceu completar alguma coisa dentro dela.
— Entendi.
Levantei-me.
— Não estou dizendo isso para interferir na sua decisão. Você perguntou e eu respondi.
Isabela também se levantou.
— Eu sei.
Não havia amizade entre nós. Tampouco havia motivo para existir. Mas, naquele momento, uma coisa ficou clara: Rafael havia construído versões diferentes da realidade para nós duas.
No mesmo dia, ele entrou furioso na sala onde eu estava terminando meu relatório.
— O que você falou para Isabela?
— A verdade.
— Você tinha alguma necessidade de contar detalhes?
— Ela perguntou quando terminamos.
— E você precisava dizer que morávamos juntos?
— Morávamos juntos.
Rafael fechou a porta.
— Você está tentando destruir o noivado.
— Se a verdade sobre o que você fez é suficiente para destruir seu noivado, o problema não começou comigo.
Ele caminhou de um lado para o outro.
— Você não entende o que está em jogo.
— Essa frase está ficando repetitiva.
— Meu pai já soube. O diretor também. Todo mundo está me pressionando.
— E o que você esperava? Que Isabela jamais descobrisse?
Rafael parou diante de mim.
— Eu esperava ter tempo para resolver.
— Resolver o quê? Contar uma versão em que eu deixasse de existir no momento conveniente?
Ele não respondeu.
Naquela noite, minha mãe ligou para confirmar minha volta. Disse que ela e meu pai queriam me buscar pessoalmente no sábado depois do trabalho, em vez de esperar até domingo. Eu hesitei.
Não queria transformar minha saída em espetáculo.
Meu pai riu quando expliquei.
— Somos seus pais. Buscar nossa filha não deveria ser um espetáculo.
Acabei concordando.
— Sem comitiva.
— Só nós dois — minha mãe prometeu.
Quando desliguei, senti algo próximo de paz.
No hospital, Rafael ainda acreditava que eu estava tentando arrancar alguma coisa dele.
Na verdade, eu já estava organizando uma vida em que não precisaria arrancar nada de ninguém.
Na manhã seguinte, ele me interceptou no corredor.
— Você não faz ideia do que acabou de provocar.
Parei.
— Não, Rafael. Desta vez, o problema é seu.
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