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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

Na sexta-feira, a tensão ao redor de Rafael era impossível de esconder. Ele continuava realizando seu trabalho, participando das visitas e tomando decisões clínicas como sempre, mas qualquer pessoa que o conhecesse percebia a mudança. Falava menos, verificava o celular com frequência e saía do setor para atender ligações que claramente não eram relacionadas aos pacientes.

Eu não perguntei nada.

Perto do meio-dia, ele pediu que eu entrasse em seu consultório. Recusei de início, dizendo que qualquer questão de trabalho poderia ser tratada no corredor. Rafael respondeu que não era sobre trabalho. Pensei por alguns segundos antes de entrar. Não porque devesse uma conversa a ele, mas porque queria encerrar qualquer assunto que pudesse voltar a aparecer depois.

Rafael fechou a porta.

— Preciso que você fale com Isabela.

Quase ri, mas não havia nada engraçado.

— Sobre o quê?

— Diga que nosso relacionamento já estava acabando.

— Não estava.

— Não estou pedindo que você diga que terminamos há meses. Só que as coisas entre nós já não eram como antes.

— Também não é verdade.

Ele respirou fundo.

— Você sabe que eu passava muitas noites fora.

— Sei. Noventa e nove.

Rafael me encarou, surpreso por eu ter contado.

— Então você sabe que estávamos afastados.

— Eu sabia que meu namorado não voltava para casa. Não sabia que ele estava preparando um noivado.

A diferença pareceu irritá-lo.

— Você está escolhendo a versão mais cruel possível.

— Não existe “versão” em saber se duas pessoas moravam juntas. Nós morávamos. Não existe interpretação sobre quando terminamos. Terminamos esta semana.

Rafael abaixou a voz.

— Isabela está considerando cancelar tudo.

Aquilo era uma consequência nova, mas não me trouxe satisfação.

— É uma decisão dela.

— Se ela cancelar agora, minha família vai me culpar. O pai dela vai me culpar. Todo mundo vai acreditar que eu enganei a própria filha do diretor.

— Você enganou.

Ele bateu a palma da mão sobre a mesa, não com força suficiente para assustar, mas com frustração.

— Eu não tinha escolha simples.

— Ter escolhas difíceis não significa não ter escolha.

A frase o calou.

Pouco depois, Isabela me procurou novamente. Dessa vez, não estávamos sozinhas por acaso. Ela mandou uma mensagem pelo ramal interno pedindo alguns minutos. Encontrei-a em uma sala de reuniões vazia.

— Quero confirmar só uma coisa — disse. — Rafael dormia no apartamento de vocês normalmente até pouco tempo?

Pensei antes de responder.

— Sim. Nem todas as noites. Mas continuávamos oficialmente juntos e dividíamos a casa.

Ela assentiu.

— Obrigada.

— Não precisa me contar o que pretende fazer.

— Eu sei.

Isabela levantou-se, mas permaneceu parada por um instante.

— Minha família não organizou isso ontem. Nossos pais falam sobre a possibilidade desse casamento há anos. Eu aceitei o noivado porque Rafael me garantiu que não havia outra relação em andamento.

Não havia orgulho naquela explicação.

Havia raiva.

Naquele momento, percebi que eu não era a única pessoa a quem Rafael negara o direito de tomar uma decisão com todas as informações. Nossas situações eram diferentes, mas a raiz era a mesma. Ele tentara administrar as duas vidas contando a cada lado apenas o que fosse conveniente.

— Então decida com o que você sabe agora — respondi.

Isabela concordou.

Antes de sair, acrescentou:

— A recepção de amanhã continua marcada. Há familiares viajando para cá, reservas feitas e gente chegando de outros estados. Mas isso não significa que tudo continuará como ele espera.

Não perguntei mais nada.

O noivado já não era meu problema.

Durante a tarde, finalizei o último grande bloco de documentação. Assinei a entrega dos meus casos, conferi meus registros e recebi do setor administrativo a confirmação de que meu desligamento seria efetivo ao meio-dia do sábado, depois do procedimento programado.

A informação me trouxe um tipo concreto de liberdade.

Restava apenas uma manhã.

Quando Rafael soube, apareceu novamente.

— Então você realmente vai embora amanhã?

— Sim.

— Para São Paulo.

— Sim.

— E vai fazer o quê lá?

Pensei na pergunta.

Durante cinco anos, ele soubera onde eu estudara, o que eu gostava de comer, como eu dormia quando estava cansada e o nome de professores que marcaram minha formação. Mesmo assim, percebi que Rafael sabia muito pouco sobre a parte de mim que existia antes dele.

— Voltar para minha família.

— Você nunca fala sobre eles.

— Nunca pareceu importante para você perguntar muito.

Ele franziu a testa.

— Isso é injusto.

Talvez fosse.

Talvez eu também tivesse escolhido esconder minha origem por tempo demais.

Eu pretendia contar a verdade justamente antes de descobrir o noivado. Poderia reconhecer minha parcela nessa distância sem transformar isso em desculpa para a traição dele.

— Eu escondi coisas sobre a minha origem — admiti. — Mas nunca usei isso para manter outra relação paralela ou tirar de você o direito de decidir se queria estar comigo.

Rafael ficou parado.

Pela primeira vez, não tentou responder imediatamente.

No fim do expediente, voltei ao apartamento pela última vez. Peguei os poucos objetos restantes, limpei a gaveta que usava no banheiro e retirei um porta-retrato nosso da estante. Fiquei olhando a foto por alguns segundos.

Não levei.

Coloquei-a virada para baixo dentro de uma gaveta.

Depois deixei minha chave sobre a mesa.

Quando fechei a porta, soube que não voltaria.

Já no hotel, recebi uma mensagem de Rafael.

“Se Isabela falar com você amanhã, por favor, não transforme isso em algo maior.”

Li duas vezes.

Então bloqueei o número pessoal dele.

Se precisasse falar comigo durante o procedimento da manhã, havia os canais profissionais.

Naquela noite, meus pais confirmaram que chegariam a Curitiba pouco depois do meio-dia.

Pela primeira vez em cinco anos, eu não tinha apartamento com Rafael, não tinha relacionamento com Rafael e, depois da manhã seguinte, também não teria vínculo profissional com ele.

As perdas eram reais.

Mas cada uma delas também retirava das mãos dele uma parte do controle que eu mesma havia permitido que tivesse.

Antes de dormir, revisei mentalmente o procedimento do dia seguinte.

Não pensei na cerimônia.

Não pensei em Isabela.

Não pensei nos Montenegro.

Minha última obrigação no Hospital Santa Aurora era com um paciente.

E eu pretendia terminá-la como havia começado minha carreira ali: pelo meu próprio trabalho.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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