
Parte 4
Rafael permaneceu diante de mim com uma expressão que eu conhecia bem. Era a mesma que usava quando uma cirurgia tomava um rumo inesperado: concentração, irritação e a certeza de que, se controlasse todas as variáveis, encontraria uma solução. Durante muito tempo, eu havia admirado essa característica. Naquele momento, percebi que ele estava tentando tratar nosso relacionamento como mais um problema técnico.
— Não é justo resumir cinco anos ao que aconteceu agora — disse.
— Eu não estou resumindo nada. Estou olhando para o que você fez durante esses cinco anos, especialmente nos últimos meses.
Ele abriu a boca, mas a porta se abriu antes que pudesse responder. Uma funcionária da direção me pediu que comparecesse à sala do diretor assim que terminasse o prontuário. Rafael imediatamente percebeu o motivo. Minha demissão havia chegado ao último nível administrativo.
O diretor do Hospital Santa Aurora, pai de Isabela, me recebeu de maneira cordial. Não havia hostilidade aberta em sua voz. Ele falou sobre minha avaliação profissional, destacou que eu não tinha advertências e perguntou por que uma médica com bom desempenho queria sair de forma tão repentina. Eu respondi que se tratava de uma decisão pessoal e que minha intenção era concluir corretamente a transição.
Ele apoiou as mãos sobre a mesa.
— Imagino que você saiba que o hospital está vivendo um momento delicado de exposição social.
Eu sabia exatamente a que ele se referia, embora ele evitasse mencionar o nome da filha.
— Meu pedido de demissão não contém nenhuma acusação contra o hospital.
— Não estou dizendo que contém. Só gostaria de evitar rumores desnecessários.
Foi naquele instante que compreendi que ele provavelmente sabia da minha relação com Rafael ou, no mínimo, tinha ouvido os mesmos comentários que circulavam entre os corredores. Mesmo assim, sua prioridade era clara: impedir que qualquer desconforto atingisse o noivado da filha ou a imagem da instituição.
— Eu também não tenho interesse em criar um escândalo — respondi. — Quero apenas que meu desligamento seja conduzido corretamente.
O diretor pareceu relaxar um pouco. Disse que a administração aceitaria minha saída ao fim daquela semana desde que todos os casos fossem formalmente transferidos. Em seguida, garantiu que meus registros profissionais seriam preservados e que receberia uma declaração adequada sobre meu período no hospital.
Saí dali com uma sensação inesperada.
Minha demissão estava aceita.
Não era mais ameaça, reação ou possibilidade.
Eu realmente estava indo embora.
Naquela tarde, solicitei por escrito a confirmação da escala restante e comecei a assinar os termos de transferência dos pacientes. Rafael apareceu duas vezes tentando discutir alterações, mas eu pedi que qualquer mudança fosse enviada por meio dos canais internos. Não queria mais conversas particulares disfarçadas de ordens profissionais.
A mudança o deixou visivelmente desconfortável.
Por anos, nossa vida pessoal e nossa rotina de trabalho haviam se misturado. Rafael podia me pedir para trocar um horário e, minutos depois, perguntar o que eu queria jantar. Podia criticar uma conduta diante da equipe e, à noite, aparecer com meu doce preferido como se nada tivesse acontecido. Agora cada espaço tinha uma fronteira.
Ele não gostava dela.
No fim do dia, me encontrou perto dos elevadores.
— Você falou alguma coisa com o diretor?
— Sobre o quê?
— Sobre nós.
— Não.
— E sobre o noivado?
— Também não.
Rafael pareceu aliviado.
Aquele alívio me atingiu de uma forma estranha. Não porque eu quisesse vê-lo punido, mas porque mostrou que ele ainda estava mais preocupado com o que os outros poderiam descobrir do que com a razão de eu estar indo embora.
— Você acha que eu quero destruir sua cerimônia? — perguntei.
— Eu não sei mais o que você quer.
— Quero sair daqui.
Ele abaixou a voz.
— Eu ainda amo você.
A frase que durante anos havia sido suficiente para me acalmar já não fazia o mesmo efeito.
— Amor que precisa me esconder durante cinco anos e depois me encaixar ao lado de um casamento com outra pessoa não é o tipo de amor que eu quero.
Rafael fechou a expressão.
— Você está ignorando o peso da minha família.
— Não. Eu finalmente estou entendendo o peso que você decidiu colocar sobre mim para não ter de enfrentá-los.
Aquilo o deixou sem resposta.
Na manhã seguinte, recebi minha escala definitiva. Havia um procedimento importante já previsto para sábado cedo. Era um caso que eu acompanhava desde a internação e em que minha presença havia sido combinada antes de qualquer coisa acontecer entre mim e Rafael. Depois dele, eu entregaria meu crachá e estaria oficialmente desligada.
A cerimônia de noivado aconteceria no fim da tarde.
Por alguns minutos, considerei pedir substituição.
Não por medo de Rafael.
Eu simplesmente não queria passar meu último dia no hospital cercada pela preparação de uma festa que representava tudo o que ele havia escondido.
Então pensei no paciente.
Ele não tinha nada a ver com meu relacionamento.
Decidi cumprir o compromisso.
Quando confirmei minha presença no procedimento, Rafael apareceu na porta poucos minutos depois. Provavelmente recebera a atualização da escala.
— Você vai trabalhar no sábado?
— Até concluir meu caso.
— A cerimônia começa mais tarde.
— Eu sei.
Ele hesitou.
— Talvez seja melhor você sair antes de os convidados chegarem.
Fiquei olhando para ele.
Rafael percebeu tarde demais o que aquela frase significava.
Não era preocupação comigo.
Era preocupação com a possibilidade de minha presença atrapalhar a imagem perfeita que ele havia construído.
— Não se preocupe — falei. — Não pretendo ficar para o seu noivado.
Passei por ele e acrescentei:
— Mas também não vou desaparecer pelos fundos para facilitar a sua vida.
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Parte 5
Nos dias seguintes, o hospital continuou funcionando como sempre, e talvez isso tenha sido o mais estranho. Pessoas eram internadas, cirurgias eram marcadas, exames chegavam, famílias esperavam notícias nos corredores. A minha vida parecia estar se desmontando, mas o mundo não demonstrava qualquer obrigação de parar por causa disso. Aos poucos, aquela normalidade começou a me fazer bem.
Eu concentrei minha energia naquilo que ainda dependia de mim. Finalizei relatórios, conversei com os profissionais que assumiriam meus casos e respondi às dúvidas necessárias. Algumas pessoas perguntaram para onde eu iria. Eu dizia apenas que voltaria para São Paulo. Não mencionei minha família, não corrigi rumores e não usei meu sobrenome para provar nada.
Quanto menos eu explicava, mais os comentários cresciam.
Havia quem dissesse que eu estava saindo porque Rafael finalmente havia escolhido alguém “do nível dele”. Outros afirmavam que eu nunca suportaria ver o casamento acontecer. Uma enfermeira que trabalhava comigo havia anos chegou a perguntar, constrangida, se eu tinha sido demitida para evitar problemas com a filha do diretor.
— Pedi demissão — respondi.
Ela arregalou os olhos.
— Por vontade própria?
— Sim.
A pergunta me fez perceber até onde algumas pessoas haviam reduzido minha presença ali. Mesmo depois de anos de trabalho, parecia mais fácil acreditar que meu destino dependia de Rafael do que aceitar que eu pudesse escolher ir embora. Em outro momento, aquilo teria me irritado profundamente. Agora servia apenas como mais uma confirmação de que eu precisava sair.
Na quinta-feira, eu terminava a transferência de um caso quando Isabela entrou no setor. Ela vinha acompanhada de uma funcionária administrativa e parecia estar resolvendo alguma questão relacionada à cerimônia. Rafael apareceu alguns minutos depois. Conversaram em voz baixa perto da entrada.
Eu não prestei atenção até ouvir meu nome.
Levantei os olhos.
Rafael se aproximou de mim com um documento na mão. — Preciso que você confirme uma informação deste paciente. Ele se inclinou sobre a mesa e indicou um campo no relatório. Enquanto eu verificava, sua mão pousou brevemente no encosto da minha cadeira de um jeito automático, íntimo demais para alguém que pretendia convencer o mundo de que nosso relacionamento pertencia ao passado distante.
Quando terminei, percebi Isabela nos observando.
Ela não disse nada.
Mais tarde, quando fui ao pequeno café do térreo, encontrei-a sozinha perto de uma das janelas. Pensei em seguir adiante, mas ela me chamou.
— Posso falar com você?
Sentei-me à mesa diante dela.
Isabela não parecia agressiva. Parecia desconfortável.
— Você e Rafael tiveram um relacionamento?
Eu poderia ter mentido para evitar confusão. Poderia dizer que aquilo dizia respeito a ele e sair dali. Mas a pergunta era direta e eu já havia passado tempo demais protegendo o conforto de Rafael.
— Tivemos.
Ela juntou as mãos sobre a mesa.
— Há quanto tempo terminou?
— Esta semana.
O rosto dela mudou.
— Esta semana?
Assenti.
— Ficamos juntos por cinco anos.
Isabela levou alguns segundos para responder.
— Rafael me disse que tinha tido uma relação, mas que havia terminado fazia meses. Disse que não era algo sério e que vocês já estavam afastados.
A informação não me surpreendeu tanto quanto deveria. Depois da lista de convidados, eu já não conseguia imaginar que Rafael tivesse sido totalmente honesto com ninguém.
— Morávamos juntos até segunda-feira — falei.
Isabela desviou os olhos para a janela.
Não chorou.
Não criou uma cena.
Apenas respirou fundo e perguntou:
— Você sabia do noivado?
— Descobri por acaso na mesa dele.
— Ele contou?
— Não.
A resposta pareceu completar alguma coisa dentro dela.
— Entendi.
Levantei-me.
— Não estou dizendo isso para interferir na sua decisão. Você perguntou e eu respondi.
Isabela também se levantou.
— Eu sei.
Não havia amizade entre nós. Tampouco havia motivo para existir. Mas, naquele momento, uma coisa ficou clara: Rafael havia construído versões diferentes da realidade para nós duas.
No mesmo dia, ele entrou furioso na sala onde eu estava terminando meu relatório.
— O que você falou para Isabela?
— A verdade.
— Você tinha alguma necessidade de contar detalhes?
— Ela perguntou quando terminamos.
— E você precisava dizer que morávamos juntos?
— Morávamos juntos.
Rafael fechou a porta.
— Você está tentando destruir o noivado.
— Se a verdade sobre o que você fez é suficiente para destruir seu noivado, o problema não começou comigo.
Ele caminhou de um lado para o outro.
— Você não entende o que está em jogo.
— Essa frase está ficando repetitiva.
— Meu pai já soube. O diretor também. Todo mundo está me pressionando.
— E o que você esperava? Que Isabela jamais descobrisse?
Rafael parou diante de mim.
— Eu esperava ter tempo para resolver.
— Resolver o quê? Contar uma versão em que eu deixasse de existir no momento conveniente?
Ele não respondeu.
Naquela noite, minha mãe ligou para confirmar minha volta. Disse que ela e meu pai queriam me buscar pessoalmente no sábado depois do trabalho, em vez de esperar até domingo. Eu hesitei.
Não queria transformar minha saída em espetáculo.
Meu pai riu quando expliquei.
— Somos seus pais. Buscar nossa filha não deveria ser um espetáculo.
Acabei concordando.
— Sem comitiva.
— Só nós dois — minha mãe prometeu.
Quando desliguei, senti algo próximo de paz.
No hospital, Rafael ainda acreditava que eu estava tentando arrancar alguma coisa dele.
Na verdade, eu já estava organizando uma vida em que não precisaria arrancar nada de ninguém.
Na manhã seguinte, ele me interceptou no corredor.
— Você não faz ideia do que acabou de provocar.
Parei.
— Não, Rafael. Desta vez, o problema é seu.
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