Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

A funcionária do setor administrativo leu meu pedido duas vezes antes de levantar os olhos. Eu havia solicitado uma semana para concluir meus casos, entregar prontuários e organizar a transição dos pacientes que ainda estavam sob meus cuidados. Ela pareceu surpresa, mas não tentou me convencer a voltar atrás. Apenas disse que o pedido seria encaminhado à direção e ao meu chefe imediato.
Eu já sabia o que aquela última parte significava. Menos de uma hora depois, Rafael apareceu na porta da sala onde eu revisava exames. Seu rosto estava tenso e ele segurava uma cópia da minha carta. — O que é isso? — perguntou, fechando a porta atrás de si.
Continuei olhando para a tela por alguns segundos antes de me virar. — Exatamente o que está escrito. Estou pedindo demissão. Rafael soltou uma risada curta, sem humor, como se estivesse diante de uma reação infantil. — Você não pode tomar uma decisão dessas sem conversar comigo.
— Minha carreira não precisa da sua autorização. — Não foi isso que eu quis dizer. Ele se aproximou da mesa. — Aconteceu alguma coisa? Eu estava esperando aquela pergunta desde que encontrara a lista, mas, ao ouvi-la, percebi que Rafael realmente acreditava que eu ainda não sabia de nada.
Abri a gaveta, tirei uma cópia que havia feito da página e coloquei diante dele. Pela primeira vez naquela manhã, Rafael perdeu a expressão controlada. Seus olhos passaram pelo papel e voltaram imediatamente para mim. — Onde você conseguiu isso?
— Na sua mesa. No seu consultório. Enquanto eu procurava meu namorado que não voltava para casa. Ele respirou fundo e passou a mão pelo rosto. Não negou o conteúdo. Não perguntou se eu havia entendido errado. E isso doeu mais do que qualquer desculpa teria doído.
— Eu ia te contar. — Quando? Depois da cerimônia? Rafael apertou os lábios. — Não é tão simples. Minha família pressiona por esse casamento há anos. Isabela é filha do diretor, nossas famílias têm uma relação antiga, existem expectativas…
— E eu? — interrompi. — Em qual parte dessas expectativas você pretendia mencionar a mulher que mora com você há cinco anos?
Ele desviou os olhos por um instante. — O que existe entre nós é diferente. Eu amo você. O noivado não muda isso. Fiquei olhando para ele, esperando que viesse alguma frase capaz de desfazer o absurdo do que acabara de ouvir. Não veio.
— Você pretende ficar noivo dela e continuar comigo? Rafael demorou a responder. Aquele silêncio foi suficiente. — Eu precisava de tempo para organizar as coisas — disse por fim. — Você sabe como minha família funciona.
Por um momento, senti uma estranha calma. Durante cinco anos, eu imaginara dezenas de motivos para ele não me apresentar aos Montenegro. Pensei em diferenças sociais, tradição, medo de conflito, preconceito dos pais. Nunca considerei que Rafael simplesmente pudesse estar disposto a manter duas vidas desde que cada uma ocupasse o lugar conveniente para ele.
— Então era isso — falei. — Eu servia para a sua vida privada, mas não para a vida que você queria mostrar à sua família. — Não distorce minhas palavras. — Não preciso. Você acabou de explicá-las muito bem sozinho.
Rafael puxou uma cadeira, como se ainda acreditasse que aquilo poderia ser negociado. — Posso conversar com meus pais. Talvez eu consiga adiar o noivado. Só não faça nada precipitado agora. Retire a demissão e me dê alguns dias. A antiga versão de mim teria agarrado aquela possibilidade com as duas mãos.
Mas havia uma diferença importante. Na noite anterior, eu ainda estava tentando descobrir se ele me escolheria. Naquela manhã, entendi que eu não queria mais ser escolhida depois de cinco anos escondida. — Não vou retirar a demissão.
— Você está jogando cinco anos fora por causa de uma situação que pode ser resolvida. — Não fui eu quem preparou uma lista de noivado com outra mulher. Rafael se levantou bruscamente. — Você está reagindo com emoção. — E você está chamando de emoção a consequência das suas próprias escolhas.
Ele me encarou durante alguns segundos. Então sua voz mudou, mais baixa. — Se eu cancelar tudo, você fica? A pergunta me atingiu onde ele esperava. Por uma fração de segundo, todas as lembranças boas tentaram ocupar espaço outra vez.
Mas eu pensei na folha sobre a mesa. Pensei nas noventa e nove noites em que dormira sozinha. Pensei em quantas vezes ele havia olhado para mim sabendo exatamente o que estava preparando. — Não sei se você cancelaria por mim ou porque foi descoberto. E eu não quero passar o resto da vida tentando descobrir.
Rafael ficou imóvel. Eu peguei o prontuário que estava revisando e me levantei. — Durante esta semana, falaremos apenas do trabalho. Vou entregar meus pacientes, concluir o que está sob minha responsabilidade e sair daqui sem prejudicar ninguém.
Quando passei por ele, Rafael segurou meu braço. Não com força, mas o suficiente para me fazer parar. — Você não pode terminar tudo assim. Cinco anos não acabam em uma manhã.
Soltei meu braço devagar. — Não acabaram hoje, Rafael. Você começou a acabar com eles muito antes de eu encontrar aquela lista. Dei um passo em direção à porta. — Para mim, acabou agora.

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