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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Fiquei olhando para o crachá por alguns segundos.

A fotografia era antiga.

Meu cabelo estava mais curto e eu usava o mesmo sorriso discreto que mantive durante quase todos os anos dentro do Grupo Horizonte.

— Onde encontrou isso?

Henrique passou o polegar pela borda de sua xícara.

— Na gaveta da minha antiga sala.

— Como foi parar lá?

— Depois da reunião em que te demiti, a gerente administrativa entregou pra mim.

Eu não lembrava disso.

Naquele dia, eu só tinha saído.

— Guardei sem saber por quê — continuou. — Talvez porque uma parte de mim soubesse que tinha feito uma coisa que não conseguiria desfazer.

Peguei o crachá.

Naquele pedaço de plástico estava escrito “Clara Ribeiro — Gerente de Operações”.

Nenhuma referência aos investimentos.

Nenhuma referência aos anos anteriores.

Nenhuma referência ao casamento.

Só um cargo.

Henrique me observou.

— Quando te dei aquele emprego, achei que estava te oferecendo um lugar importante.

Levantei os olhos.

— Você não me deu aquele lugar. Eu trabalhei por ele.

Ele assentiu.

— Eu sei agora.

Não havia amargura na voz.

Apenas constatação.

— Por muito tempo, achei que tudo que você fazia fazia parte da minha história — disse. — Como se você estivesse me ajudando a construir minha empresa, minha carreira, meu nome. Só depois que você saiu percebi que eu tinha transformado sua vida num papel de apoio da minha.

Ouvir aquilo não apagava nada.

Mas encerrava uma pergunta que durante meses tinha voltado à minha cabeça.

Ele algum dia entenderia o que havia feito?

Talvez sim.

Entender não era o mesmo que merecer outra chance.

— Por que Manuela? — perguntei.

Era a primeira vez que fazia aquela pergunta daquele jeito.

Henrique demorou para responder.

— Porque ela me admirava sem me conhecer.

A sinceridade me surpreendeu.

— Isso era mais confortável?

— Muito.

Ele olhou para a rua.

— Você sabia quando eu tinha medo. Sabia quando eu errava. Discordava de mim. Manuela me fazia sentir que eu era exatamente o homem que eu fingia ser na frente dos outros.

— E você gostou mais da versão falsa.

— Sim.

Não havia nada para acrescentar.

Bebi um pouco do café.

Estava exatamente como eu gostava.

— Ela sabia que eu controlava os investimentos?

— Não.

— Sabia quanto eu fazia pela empresa?

— Sabia que você era importante. Acho que por isso quis te tirar de lá.

— E você ajudou.

Henrique fechou os olhos.

— Ajudei.

Aquela era a diferença entre aquela conversa e todas as anteriores.

Ele já não dizia que fora manipulado como se isso eliminasse sua responsabilidade.

Manuela tinha mentido.

Manuela tinha manipulado a planilha.

Mas Henrique escolhera não verificar.

Escolhera protegê-la.

Escolhera me humilhar.

Escolhera nossa distância antes que eu escolhesse o divórcio.

— O conselho me ofereceu uma posição consultiva — disse ele depois.

— Você vai aceitar?

— Não.

— Por quê?

— Porque acho que preciso aprender a trabalhar em algum lugar onde ninguém tenha medo de dizer não só porque meu nome está na porta.

Sorri de leve.

— Talvez faça bem.

— Também acho.

Ele olhou para o relógio.

Faltavam quinze minutos.

— Temos que ir.

Levantei.

Henrique apontou para o crachá em minha mão.

— Vai levar?

Pensei um pouco.

— Vou.

— Por quê?

Coloquei na bolsa.

— Porque fez parte da minha vida. Não preciso fingir que não aconteceu.

Saímos do café e caminhamos até o tabelionato.

Nossos representantes já estavam lá.

O procedimento foi menos dramático do que qualquer discussão que tivemos durante o casamento.

Conferimos informações.

Lemos os termos.

Tiramos dúvidas.

Assinamos as partes preparatórias que faltavam.

A formalização final seria concluída depois da conferência do tabelião e dos profissionais que nos acompanhavam.

Quando tudo terminou, Henrique ficou parado no corredor.

— Então é isso.

— Quase.

— Amanhã deve estar finalizado.

— Sim.

Ele respirou fundo.

— Posso perguntar uma última coisa?

— Pode.

— Se eu tivesse acreditado em você naquela sala… você teria ficado comigo?

A pergunta me pegou desprevenida.

Não porque eu quisesse voltar no tempo.

Mas porque a resposta não era simples.

— Não sei.

Henrique pareceu surpreso.

— Não sabe?

— A planilha não criou sua relação com Manuela. Só revelou o que já estava acontecendo. Talvez eu demorasse mais para descobrir. Talvez tentássemos consertar. Talvez não.

Olhei para ele.

— Mas foi você quem tornou impossível continuar quando me tratou como alguém descartável.

Ele assentiu devagar.

— Entendi.

Dessa vez acreditei.

Nos despedimos sem abraço.

Ao sair, recebi uma ligação da minha equipe.

O último bloco relevante da retirada de recursos do Grupo Horizonte havia sido confirmado para a data prevista.

A empresa já tinha substituído aquela fonte por uma combinação de capital próprio, novos investidores e redução de despesas.

O Grupo Horizonte não seria mais a potência em expansão acelerada que Henrique imaginara meses antes.

Mas não quebraria.

Os funcionários não perderiam tudo.

Os projetos viáveis continuariam.

A empresa finalmente estava aprendendo a existir sem mim.

E eu, talvez, estivesse aprendendo a mesma coisa em relação a ela.

Naquela noite, tirei o antigo crachá da bolsa.

Coloquei-o sobre minha mesa.

Ao lado dele, havia um relatório sobre um novo investimento que minha equipe estudava havia semanas.

Não tinha relação com Henrique.

Não tinha relação com o Grupo Horizonte.

Era a primeira grande decisão profissional em anos que eu poderia tomar sem pensar em como ela afetaria meu casamento.

Abri o relatório.

Li até tarde.

Quando fechei o computador, percebi que estava sorrindo.

Na manhã seguinte, meu representante ligou.

— Clara, a formalização foi concluída.

Fiquei em silêncio por um instante.

— Então acabou?

— Sim. O divórcio está concluído.

Agradeci e desliguei.

Poucos minutos depois, uma mensagem de Henrique apareceu.

“Recebi a confirmação. Não vou te pedir nada. Só queria dizer que sinto muito pelo homem que fui com você.”

Li duas vezes.

Não respondi imediatamente.

Havia uma última coisa que eu queria dizer.

Não para reabrir nossa história.

Mas para fechá-la do jeito certo.

Peguei o celular.

“Henrique, me encontre no Grupo Horizonte às cinco.”

Ele respondeu:

“Estarei lá.”

Seria a última vez que entraríamos juntos naquele prédio como duas pessoas ainda ligadas por tudo que havíamos construído.

E eu já sabia exatamente o que precisava deixar para trás.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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