
Parte 4
A reunião extraordinária aconteceu na manhã seguinte.
Não voltei ao prédio como funcionária. Entrei pela recepção acompanhada apenas de uma executiva da minha equipe de investimentos e segui até o mesmo andar de onde tinha saído carregando minha bolsa menos de quarenta e oito horas antes.
As pessoas me reconheceram.
Algumas desviaram o olhar.
Outras pareceram constrangidas.
Não parei para conversar.
Quando entrei na sala de reuniões, Henrique já estava sentado à cabeceira. Manuela não estava lá.
Os demais diretores tinham diante de si relatórios financeiros, comunicações de parceiros e projeções que mostravam exatamente o tamanho do problema.
O presidente do conselho iniciou sem rodeios.
— Precisamos separar duas questões. A saída da Clara da operação e a decisão dos investidores de reduzir exposição ao Grupo Horizonte.
Olhou para mim.
— A senhora está retirando os recursos como retaliação pessoal?
— Não.
Expliquei que os investimentos possuíam critérios de governança, desempenho e confiança operacional. Minha saída não obrigava automaticamente nenhum veículo a abandonar a empresa, mas alterava o risco de continuidade porque eu era responsável por parte relevante da supervisão estratégica.
— Os fundos estão cumprindo os contratos — completei. — Não haverá retirada fora dos prazos nem bloqueio irregular de recursos.
Henrique falou pela primeira vez.
— Mas foi você quem deu a ordem para iniciar a saída.
— Sim.
— Então é pessoal.
— A decisão de não manter capital onde não tenho mais confiança na gestão é financeira. O motivo de eu ter perdido a confiança também pode ser pessoal. Uma coisa não transforma a outra em ilegal.
Um dos diretores financeiros interrompeu antes que a discussão continuasse.
— Existe outra questão.
Ele abriu um arquivo na tela.
— Ontem pedimos à tecnologia que auditasse a planilha usada na reunião do contrato.
Henrique ficou imóvel.
Eu não disse nada.
O diretor continuou:
— A versão original foi salva pela Clara às 18h42. O arquivo foi acessado novamente durante a madrugada com as credenciais de Manuela Dias. As alterações nos custos e nas receitas foram feitas nesse acesso.
Um desconforto pesado tomou conta da sala.
Henrique olhou para a tela.
— Isso prova que ela alterou o arquivo. Não prova a intenção.
— Concordo — respondi.
Ele virou o rosto para mim, talvez esperando que eu aproveitasse o momento para atacar Manuela.
Não fiz isso.
O diretor continuou explicando que não havia registro de acesso meu após o horário em que eu saíra da empresa. Também não existia evidência de que eu tivesse solicitado as modificações.
Ou seja, ao menos uma coisa já estava clara: Manuela mentira quando insinuara que eu a obrigara a produzir aquela versão.
O presidente do conselho fechou a caneta.
— E a senhora foi demitida sem que essa verificação tivesse sido feita.
Henrique não respondeu.
Outro conselheiro perguntou:
— Quem autorizou a demissão?
Todos sabiam a resposta.
Henrique respirou fundo.
— Eu.
— Com base em quê?
— Na situação apresentada naquele momento.
— Sem auditoria?
— Sim.
— E com uma relação pessoal entre o senhor e a assistente envolvida?
A pergunta mudou o ar da sala.
Henrique ergueu os olhos.
— Minha vida pessoal não é assunto desta reunião.
— Passa a ser quando influencia uma decisão executiva que coloca em risco um contrato importante e a relação com investidores.
Eu permaneci em silêncio.
Não precisava empurrar Henrique para o buraco que ele mesmo tinha cavado.
A reunião seguiu por quase duas horas. A diretoria decidiu suspender Manuela de suas funções enquanto a apuração interna fosse concluída. Também restringiu temporariamente algumas decisões financeiras da presidência até que um comitê independente revisasse a governança do grupo.
Henrique continuaria no cargo.
Mas já não teria a mesma liberdade.
Quando a reunião terminou, ele me alcançou no corredor.
— Era isso que você queria?
Parei.
— O quê?
— Me ver respondendo diante do conselho.
— Não.
— Não parece.
— Henrique, eu não pedi a ninguém que investigasse a planilha. Fui eu quem sugeriu que verificassem o histórico antes de você me demitir. Você decidiu não fazer.
Ele baixou a voz.
— Você sabia que isso aconteceria.
— Eu sabia que a verdade poderia ser verificada.
— É a mesma coisa.
Balancei a cabeça.
— Não. E você ainda não entendeu.
Continuei andando, mas ele segurou meu braço.
Não com força suficiente para me machucar, porém firme o bastante para me fazer parar.
— Os parceiros estão saindo porque confiam em você. O dinheiro está saindo porque você controla os fundos. O conselho agora está me investigando. Você realmente vai assistir a tudo desmoronar?
Soltei meu braço.
— Se tudo desmoronar apenas porque uma pessoa saiu, então vocês construíram uma empresa muito mais frágil do que acreditavam.
— Você também construiu isso.
— Sim.
Aquela palavra saiu pesada.
— E justamente por isso sei que o Grupo Horizonte pode sobreviver, desde que pare de agir como se o seu ego fosse parte indispensável do patrimônio.
Ele ficou vermelho.
— Você quer tomar meu lugar.
— Não.
Henrique riu sem humor.
— Ninguém abre mão de tanto poder.
— Eu estou abrindo mão de você. Não confunda as coisas.
Afastei-me.
No elevador, minha executiva perguntou:
— Você pretende assumir alguma posição se o conselho oferecer?
— Não.
— Mesmo se Henrique sair?
— Mesmo assim.
Ela me olhou surpresa.
Durante anos, todo mundo ao meu redor presumira que meu objetivo era tornar o Grupo Horizonte maior.
Talvez eu também tivesse pensado assim.
Mas naquele instante percebi que já não queria passar os próximos cinco anos tentando provar que eu merecia permanecer dentro de algo que tinha ajudado a construir.
À tarde, recebi o primeiro relatório sobre as operações. A empresa não estava falida. Longe disso. Mas a retirada gradual dos investimentos e a perda de confiança de alguns parceiros obrigariam a direção a cortar projetos, renegociar dívidas e abandonar expansões que dependiam de capital novo.
Seria doloroso.
Não seria instantâneo.
Nem deveria ser.
À noite, chegou uma mensagem de Henrique.
“Precisamos falar sobre Manuela.”
Não respondi.
Dez minutos depois, outra mensagem.
“Não sobre a empresa. Sobre nós.”
Dessa vez, digitei apenas:
“Amanhã. Dez horas. E sem desculpas vagas.”
Ele respondeu quase imediatamente.
“Tá bom.”
Na manhã seguinte, Henrique chegou dez minutos antes.
E quando se sentou diante de mim, não tentou negar que havia ultrapassado uma linha com Manuela.
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