Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

A decisão de deixar completamente o Grupo Horizonte mudou a forma como todos passaram a lidar comigo.

Até então, alguns diretores ainda acreditavam que minha retirada de capital era uma estratégia para ganhar poder dentro da companhia. Quando perceberam que eu recusara a presidência e confirmara por escrito a saída programada do investimento, essa hipótese desapareceu.

O conselho precisou fazer o que deveria ter começado a fazer anos antes.

Criar uma empresa capaz de funcionar sem depender de um casal.

Henrique, por sua vez, começou a enfrentar as consequências mais difíceis.

Não eram apenas financeiras.

Sua autoridade havia sido construída em torno da imagem de fundador que sempre sabia o que fazer. A investigação interna mostrara que, justamente no momento em que mais precisava agir como presidente, ele deixara uma relação pessoal interferir em sua decisão.

Alguns executivos passaram a questioná-lo.

Não com rebeldia.

Com cautela.

Decisões que antes eram aceitas imediatamente agora recebiam perguntas.

— Qual é o fundamento?

— Quem revisou?

— Existe conflito de interesse?

Henrique odiava aquilo.

Mas não podia reclamar.

As perguntas eram exatamente as que ele deveria ter feito antes de me demitir.

Enquanto isso, eu me reuni com as equipes responsáveis pelos projetos mais importantes para concluir a transição.

Não fiquei para administrar.

Fiquei apenas o suficiente para entregar o que precisava ser entregue.

Em uma dessas reuniões, um gerente me perguntou:

— Você acha que a empresa vai sobreviver?

— Acho que tem condições.

— Mesmo com a saída dos investimentos?

— Sim, se diminuir o tamanho das ambições e aumentar a qualidade da gestão.

Ele riu.

— Henrique não vai gostar dessa resposta.

— Não precisa gostar.

Ao final daquele mês, o Grupo Horizonte apresentou um plano de reestruturação.

Expansões foram congeladas.

Investimentos não essenciais foram cortados.

Algumas áreas foram reorganizadas.

A diretoria também decidiu procurar capital novo no mercado, desta vez sem depender de uma única estrutura de investimento.

Era mais caro.

Era mais difícil.

Mas era saudável.

Eu concordei.

A empresa não deveria trocar dependência de mim por dependência de outra pessoa.

Na esfera pessoal, Henrique finalmente respondeu à proposta de separação.

Aceitou quase todos os termos.

Pediu apenas uma reunião presencial antes de formalizarmos o acordo.

Concordei.

Nos encontramos em um restaurante discreto onde costumávamos jantar quando o Grupo Horizonte ainda cabia em poucas salas.

Henrique chegou primeiro.

Quando me sentei, ele não pediu vinho.

Pediu água.

— Eu quase não lembrava deste lugar — disse.

— Eu lembrava.

— Foi aqui que comemoramos nosso primeiro contrato grande.

Assenti.

Ele sorriu sem alegria.

— Naquela época eu achava que estava conquistando o mundo.

— Nós dois achávamos.

Henrique mexeu no copo.

— Eu passei semanas tentando descobrir em que momento estraguei tudo.

— E descobriu?

— Não houve um momento só.

A resposta me surpreendeu.

Ele continuou:

— Fui me acostumando com você resolvendo tudo. Depois comecei a acreditar que resolver tudo era obrigação sua. Quando a empresa cresceu, comecei a gostar da forma como as pessoas me tratavam. E quando Manuela apareceu me admirando por coisas que você já conhecia há anos… eu gostei.

Não respondi.

— Ela fazia eu me sentir importante.

— E eu fazia você se sentir o quê?

Ele demorou.

— Visto.

A palavra ficou entre nós.

— Talvez esse tenha sido o problema — disse. — Você me conhecia demais. Sabia quando eu estava improvisando. Sabia quando uma decisão era ruim. Sabia quantas vezes eu tive medo.

— E você confundiu alguém que conhecia suas falhas com alguém que diminuía você.

— Sim.

Não era uma desculpa.

Henrique sabia disso.

— Por que está me contando agora? — perguntei.

— Porque você me pediu para não trazer desculpas vagas.

Respirei devagar.

— Obrigada por dizer a verdade.

Ele ergueu os olhos.

— Isso muda alguma coisa?

— Muda a forma como vou lembrar desta conversa.

— Só isso?

— Só.

A dor passou por seu rosto.

Mas ele não tentou discutir.

Assinamos os pontos restantes da proposta preliminar naquela semana.

Ainda faltavam avaliações patrimoniais e os documentos finais.

Mas, pela primeira vez, o divórcio deixou de ser uma ameaça que Henrique esperava que desaparecesse.

Virou um processo real.

No mesmo período, o conselho convocou outra reunião.

O plano de reestruturação estava funcionando melhor do que os cenários mais pessimistas. A empresa seria menor, perderia projetos e teria de abandonar a expansão agressiva.

Mas sobreviveria.

Isso me trouxe um alívio que eu não esperava.

Eu nunca quis assistir centenas de pessoas perderem o emprego só para provar que meu marido tinha errado.

Quando Henrique apresentou os resultados, porém, o presidente do conselho fez uma observação.

— A empresa está estabilizando. Agora precisamos discutir liderança de longo prazo.

Henrique não reagiu.

Ele já sabia o que aquilo significava.

O conselho havia concluído que, mesmo sem necessidade de uma ruptura imediata, a permanência dele na presidência não seria sustentável depois da reestruturação.

Ele poderia permanecer como acionista e fundador.

Mas deveria deixar o comando executivo.

Dessa vez, ninguém colocou a decisão nas minhas mãos.

Não fui consultada.

Não pressionei.

Não votei.

Henrique enfrentou a consequência diretamente com as pessoas a quem devia explicações.

Naquela noite, ele me ligou.

— Vou deixar a presidência.

Fechei os olhos por um instante.

— Quando?

— Assim que o sucessor interno estiver preparado.

— Entendi.

— Você não vai dizer que eu mereci?

— Não preciso.

Ele ficou quieto.

— Clara…

— Sim?

— Durante anos eu achei que perder o cargo seria a pior coisa que podia acontecer comigo.

Olhei para a cidade pela janela.

— E agora?

— Agora sei que perdi outra coisa antes.

Não respondi.

Henrique também não pediu resposta.

Quando desligamos, percebi que pela primeira vez ele não estava tentando me convencer a voltar.

Estava começando a entender que algumas perdas não existem para ser revertidas.

Existem para ser assumidas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1