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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

Henrique não começou pedindo perdão.

Talvez finalmente tivesse entendido que aquelas duas palavras, sozinhas, já não serviam para nada.

Sentou-se diante de mim em uma sala reservada do escritório onde eu administrava meus investimentos e deixou as mãos sobre a mesa.

— Eu me envolvi com ela.

Não senti a explosão que imaginara sentir.

Meu corpo ficou quieto.

Talvez porque a parte mais dolorosa tivesse acontecido antes, quando ele a abraçou diante de todos e me tratou como inimiga.

— O que significa “se envolveu”?

Henrique respirou fundo.

— Começou com conversas fora do trabalho. Almoços. Mensagens. Depois passou do limite.

Não perguntei quantas vezes.

Não perguntei onde.

Não perguntei se ele dizia a ela as mesmas coisas que dizia a mim.

Essas respostas não mudariam a decisão que eu já havia tomado.

— E ontem, quando ela me acusou?

Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu quis acreditar nela.

— Por quê?

— Porque admitir que ela estava mentindo significava admitir que eu tinha colocado minha confiança na pessoa errada.

— Então você preferiu transformar a pessoa errada em mim.

Ele não respondeu.

A simplicidade daquela frase pareceu atingi-lo mais do que qualquer acusação longa.

Henrique continuou:

— Eu não sabia que ela tinha alterado o arquivo.

— Mas sabia que podia verificar.

— Sim.

— E não verificou.

— Não.

Pela primeira vez, ele não tentou acrescentar uma justificativa.

Aquilo não apagava nada.

Mas ao menos era uma resposta verdadeira.

Entreguei a ele a proposta de separação que minha equipe jurídica havia preparado. Nada extraordinário: organização patrimonial, encerramento das despesas compartilhadas, definição dos bens que precisavam ser avaliados e um caminho para um divórcio consensual caso ele aceitasse.

Henrique passou os olhos pela primeira página.

— Você já preparou tudo.

— Eu disse que estava falando sério.

— E se eu não assinar?

— Então resolveremos pelo caminho adequado. Eu prefiro evitar uma disputa, mas não vou continuar casada só porque você se recusa a aceitar o fim.

Ele fechou a pasta.

— Você consegue separar casamento e empresa com essa facilidade?

Olhei para ele.

— Não consigo. É justamente por não conseguir que estou saindo dos dois lugares.

Henrique se levantou.

— A empresa precisa de você.

— A empresa precisa de gestão.

— Os funcionários confiam em você.

— Então proteja os funcionários.

— Como?

Foi a primeira pergunta prática que me fez desde o começo da crise.

Expliquei que a retirada completa do capital levaria tempo. Os contratos permitiam uma saída programada e, dentro desse período, o Grupo Horizonte poderia reduzir projetos de expansão, renegociar obrigações e buscar novas fontes de financiamento.

Eu estava disposta a manter, até o prazo previsto, as linhas ligadas à folha de pagamento e a compromissos operacionais já assumidos.

Não era um favor para Henrique.

Era uma escolha minha para não transformar funcionários em vítimas de uma briga que não tinham criado.

— Em troca de quê? — perguntou.

— De nada.

Ele franziu a testa.

— Ninguém movimenta esse tipo de dinheiro sem querer alguma coisa.

— Quero que o cronograma seja respeitado. Só isso.

— E depois?

— Depois, o Grupo Horizonte terá que sobreviver com a estrutura que conseguir construir.

Henrique percebeu então algo que durante anos não precisara perceber: eu não estava tentando tomar sua empresa.

Eu realmente estava indo embora.

Naquela tarde, ele voltou para a sede e participou de uma nova reunião com o conselho. O comitê interno já havia iniciado entrevistas sobre a alteração da planilha e sobre a forma como minha demissão fora conduzida.

Manuela ainda estava afastada.

Sem acesso ao sistema e sem Henrique podendo protegê-la de perguntas, sua versão começou a se fragmentar.

Primeiro disse que alterara apenas algumas projeções por orientação verbal.

Quando pediram que dissesse quem dera a orientação, não apresentou nome.

Depois afirmou que poderia ter entendido errado uma conversa comigo.

O problema era que outras pessoas tinham participado da mesma conversa.

Nenhuma lembrava de eu ter solicitado aquelas alterações.

Henrique me ligou naquela noite.

— Ela está mudando a história.

— Eu imaginei.

— Você não parece surpresa.

— Porque olhei a planilha antes de você me mandar pedir desculpas.

Do outro lado, ele respirou fundo.

— Por que ela faria isso?

— Pergunte a ela.

— Clara…

— Eu não conheço a relação de vocês melhor do que você.

A frase foi suficiente para encerrar o assunto.

No dia seguinte, o presidente do conselho entrou em contato comigo.

— Gostaríamos que você participasse de uma conversa sobre a transição dos projetos que coordenava.

Aceitei.

Não como funcionária.

Como alguém que não queria abandonar equipes no meio de compromissos que eu mesma havia ajudado a criar.

Passei dois dias entregando informações, documentando processos e indicando quem dentro da própria empresa tinha capacidade para assumir cada projeto.

Nenhum salvador externo.

Nenhum substituto milagroso.

As pessoas já estavam lá.

Só nunca tinham recebido autoridade suficiente enquanto Henrique concentrava quase tudo em torno de si.

No fim do segundo dia, uma das coordenadoras que trabalhava comigo havia anos me acompanhou até a saída.

— Achei que você fosse voltar.

Sorri.

— Eu também achei, durante algumas horas.

— E agora?

Olhei para o crachá provisório de visitante preso à minha roupa.

— Agora eu sei que voltar seria apenas uma maneira diferente de continuar presa ao mesmo lugar.

Ela me abraçou.

Foi a primeira vez que chorei desde a reunião em que fui demitida.

Não chorei por Henrique.

Chorei pelo que estava deixando para trás.

À noite, recebi a conclusão preliminar da investigação interna.

As alterações no arquivo haviam sido feitas por Manuela.

Não havia prova de que eu tivesse solicitado nenhuma delas.

E ela finalmente admitira que modificara os números para criar uma situação em que minha competência fosse questionada.

A justificativa que deu foi simples e cruel: acreditava que, enquanto eu permanecesse dentro da empresa, Henrique nunca teria coragem de se afastar completamente de mim.

Fechei o relatório.

Na manhã seguinte, o conselho se reuniria novamente.

Dessa vez, não para decidir se Manuela tinha cometido um erro.

Mas para decidir o que fazer com duas pessoas que haviam permitido que uma relação pessoal contaminasse uma decisão corporativa.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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