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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

As semanas seguintes foram menos barulhentas e, justamente por isso, mais difíceis.

A crise deixara de produzir reuniões emergenciais todos os dias. O Grupo Horizonte começava a operar dentro de uma realidade nova, e eu já não precisava acompanhar cada movimento.

Henrique iniciou a transição da presidência para uma executiva que trabalhava havia anos na companhia.

Nada aconteceu da noite para o dia.

Ele permaneceu por algumas semanas repassando contratos, equipes e responsabilidades.

Pela primeira vez desde que a empresa crescera, precisou ensinar alguém a fazer o trabalho sem se colocar no centro de tudo.

Eu soube pelos relatórios.

Não fui assistir.

Minha participação nos projetos diminuía conforme o cronograma de transição avançava.

Em paralelo, o processo de retirada do investimento continuava.

Parte dos recursos já havia sido liquidada.

Outra parte seguiria vinculada até o vencimento de compromissos existentes.

Era muito menos dramático do que a manchete que circulava entre funcionários.

E muito mais definitivo.

Certa manhã, a nova presidente pediu uma reunião comigo.

— Não quero falar sobre Henrique — disse logo no início.

— Ótimo.

Ela abriu uma apresentação.

— Quero falar sobre o que a empresa precisa para sobreviver depois que seu capital sair.

Gostei da pergunta.

Durante duas horas, discutimos governança, concentração de clientes, dependência de poucos investidores e a necessidade de formar líderes internos.

Não dei ordens.

Não ofereci mais dinheiro.

Compartilhei apenas informações que faziam parte da transição.

Quando terminamos, ela me acompanhou até a porta.

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

— Pode.

— Você nunca quis essa cadeira?

Olhei para trás, para a mesa onde ela agora sentava.

— Houve uma época em que eu talvez aceitasse.

— O que mudou?

— Entendi que não preciso herdar o lugar de alguém que me feriu para provar que sobrevivi.

Ela assentiu.

— Faz sentido.

Do lado de fora, encontrei Henrique no corredor.

Era a primeira vez que o via desde o jantar.

Ele carregava uma caixa pequena com objetos pessoais do escritório.

Por um instante, a imagem pareceu impossível.

Durante anos, Henrique atravessara aquele corredor como se o prédio inteiro fosse extensão de seu corpo.

Agora caminhava devagar.

— Então é hoje — eu disse.

— Último dia na sala da presidência.

— Como você está?

Ele deu de ombros.

— Estranho.

Não havia motivo para ser cruel.

— Imagino.

Henrique olhou para a porta da sala onde eu estivera reunida.

— Ela vai fazer um bom trabalho.

— Vai.

— Você sempre soube que ela tinha capacidade.

— Sim.

Ele soltou um sorriso cansado.

— Eu também sabia. Só nunca quis abrir espaço suficiente.

Aquilo talvez fosse uma das poucas conclusões maduras que eu o ouvira dizer nos últimos meses.

Caminhamos juntos até o elevador.

— Soube que Manuela saiu da cidade — ele comentou.

— Não sabia.

— Recebeu as verbas correspondentes ao que a empresa reconheceu como devido e encerrou o vínculo. Não tivemos mais contato.

Assenti.

Não perguntei para onde ela tinha ido.

Manuela tivera responsabilidade pelo que fez.

Perdera o emprego e a posição que tentou conquistar manipulando outras pessoas.

Aquilo era consequência suficiente.

Eu não precisava transformar o resto da vida dela em punição.

No térreo, Henrique segurou a porta antes que eu saísse.

— Posso te pedir uma coisa?

— Depende.

— Quando o divórcio for concluído, não quero que nossa última conversa seja com representantes sentados ao lado.

Pensei.

— Tudo bem.

— Sem tentar mudar sua decisão.

— Se tentar, eu vou embora.

— Justo.

Naquela noite, revisei os documentos finais da separação.

As avaliações estavam concluídas.

Os bens comuns seriam divididos conforme o acordo.

Meus investimentos anteriores e as estruturas empresariais que não faziam parte do patrimônio compartilhado permaneceriam comigo, e Henrique manteria suas participações pessoais no Grupo Horizonte.

Nada extraordinário.

Nada teatral.

Apenas o encerramento de uma vida que havia sido misturada demais entre casamento e trabalho.

Dois dias depois, um antigo fornecedor me telefonou.

— Soube que você está saindo de vez.

— Estou.

— Pensei que fosse ficar até o último centavo deixar a empresa.

— Não preciso.

— E se eles tiverem algum problema?

Olhei para minha agenda.

Durante anos, essa pergunta faria meu corpo entrar em alerta.

Dessa vez, não.

— Eles vão resolver.

Desliguei com uma sensação estranha.

Não era indiferença.

Era limite.

Eu podia me importar com as pessoas sem assumir responsabilidade por todas elas.

Podia desejar que a empresa sobrevivesse sem me tornar responsável por sustentá-la.

Podia reconhecer que Henrique estava mudando sem transformar a mudança dele em obrigação de perdoar.

Essas ideias pareciam simples.

Levei anos para aprendê-las.

Na semana seguinte, chegou o convite formal para assinarmos os últimos documentos do divórcio.

Henrique já havia concordado com tudo.

Não haveria disputa judicial prolongada.

Com a documentação organizada e assistência jurídica, poderíamos concluir o procedimento de forma consensual.

Marquei a data.

Quando respondi confirmando, meu celular permaneceu silencioso.

Nenhuma mensagem dramática.

Nenhum pedido para reconsiderar.

Nenhuma tentativa de adiar.

Na véspera da assinatura, porém, Henrique me escreveu:

“Posso te encontrar meia hora antes?”

Olhei a mensagem por alguns segundos.

Depois respondi:

“Pode.”

Ele enviou o endereço de um café a duas quadras do tabelionato.

Na manhã seguinte, cheguei no horário.

Henrique já estava lá.

Diante dele havia duas xícaras.

Uma para ele.

Outra com o café que eu costumava pedir quando ainda éramos um casal.

Sentei.

Henrique empurrou a xícara na minha direção, mas não sorriu.

— Prometi que não tentaria mudar sua decisão.

— Eu lembro.

— E não vou.

Ele colocou sobre a mesa uma única coisa.

Não era uma carta.

Não era um presente.

Era meu antigo crachá do Grupo Horizonte.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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