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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Henrique apareceu no meu apartamento pouco antes do meio-dia.

Eu já imaginava que ele viria, mas não esperava vê-lo daquele jeito. O homem que na véspera tinha me demitido na frente de uma sala inteira agora segurava o celular com força, a gravata estava frouxa e o rosto parecia ter envelhecido durante a manhã.

— Precisamos conversar.

— Foi exatamente o que eu disse pelo telefone.

Ele entrou quando abri espaço, mas não se sentou. Caminhou até o meio da sala como se estivesse esperando encontrar uma equipe financeira, um advogado ou algum representante dos fundos que ele conhecia.

Só encontrou a mim.

— Quero entender uma coisa — disse. — O Grupo Atlas, o Fundo Aurora, a Horizonte Capital… você trabalha para eles?

— Não.

A testa dele se franziu.

— Então por que todos começaram a se retirar depois que você saiu?

Caminhei até a mesa, peguei uma pasta e a coloquei diante dele. Não havia nenhum segredo milagroso ali, apenas documentos empresariais que ele já poderia ter conhecido se algum dia tivesse se interessado em perguntar de onde vinha o capital que eu dizia administrar.

— Porque os veículos pertencem a uma estrutura de investimentos que eu controlo.

Henrique não tocou na pasta.

— Você está dizendo que é dona daqueles recursos?

— Estou dizendo que a decisão final sobre a alocação deles sempre foi minha.

Ele me encarou durante vários segundos.

Não havia admiração em seu rosto.

Havia medo.

— Isso é impossível.

— Não é.

— Você era gerente de operações.

— No Grupo Horizonte, sim.

— E ficou cinco anos trabalhando ao meu lado como se dependesse de um salário?

— Eu nunca dependi.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Por que escondeu isso de mim?

A pergunta quase me fez rir.

— Você me expulsou da sua empresa sem verificar um arquivo que eu mesma disse que podia ser verificado em cinco minutos, Henrique. E a primeira pergunta que faz depois de descobrir tudo é por que eu escondi meu dinheiro?

— Não estou falando só de dinheiro.

— Nem eu.

Ele finalmente se sentou.

Expliquei o que ele precisava saber, sem transformar aquilo em uma confissão emocional. Antes de conhecê-lo, eu já administrava capital por meio de uma holding privada e de fundos estruturados com gestores profissionais. Quando o Grupo Horizonte ainda era pequeno, direcionei recursos para a empresa porque acreditava no projeto e também porque acreditava nele.

Usei intermediários justamente para que o investimento fosse analisado como investimento, e não como um presente de esposa.

Com o crescimento da empresa, os aportes aumentaram.

O problema foi que Henrique passou a tratar aquela estrutura financeira como se fosse uma fonte inesgotável.

— Você poderia ter me contado.

— Poderia.

— Então por que não contou?

Olhei para ele.

— No começo, porque eu queria saber se você conseguiria crescer sem achar que tudo vinha pronto. Depois, porque cada ano que passava tornava a conversa mais difícil. E por fim… porque comecei a perceber que você gostava muito mais da ideia de ser o homem que construiu tudo sozinho do que da verdade sobre quem construiu junto com você.

Ele se levantou de novo.

— Você está tentando me humilhar.

— Não preciso.

A resposta saiu mais fria do que eu esperava.

— Ontem você fez isso sozinho.

Henrique apertou os lábios.

— Eu estava sob pressão. O contrato era importante. Manuela estava chorando, a sala inteira…

— E eu mandei verificar o histórico do arquivo.

— Eu sei.

— Você verificou?

Ele não respondeu.

Aquilo já era resposta suficiente.

— Então não foi pressão. Foi escolha.

Henrique começou a andar pela sala.

— Mesmo assim, você não pode simplesmente retirar bilhões e esperar que a empresa sobreviva.

— Eu não estou apertando um botão e fazendo o dinheiro desaparecer. Existem contratos, prazos, obrigações, liquidação de posições. Tudo será cumprido exatamente como foi assinado.

— Mas você sabe o efeito disso.

— Sei.

— Centenas de funcionários podem ser afetados.

Foi a primeira coisa que ele disse que realmente me atingiu.

Eu conhecia aquelas pessoas.

Algumas estavam lá desde os primeiros anos.

Respirei fundo.

— É por isso que dei instruções para que as linhas diretamente ligadas a salários e obrigações operacionais de curto prazo não sejam interrompidas antes das datas previstas. A saída será conduzida de forma ordenada.

Henrique me olhou como se não esperasse ouvir aquilo.

— Então você ainda pode parar.

— Posso evitar que funcionários paguem imediatamente pela irresponsabilidade da diretoria. É diferente.

Seu rosto endureceu.

— Você fala como se eu tivesse cometido algum crime.

— Eu nunca disse isso.

— Então o que você quer?

Por algum motivo, aquela pergunta doeu mais do que as anteriores.

Depois de cinco anos de casamento, ele olhava para mim diante de uma crise financeira e tentava descobrir meu preço.

— Nada da empresa.

— Clara…

— Não quero cargo. Não quero sala. Não quero que você demita alguém para me agradar. Não quero que faça uma declaração dizendo que eu estava certa porque agora descobriu que sou a principal investidora.

Henrique baixou a voz.

— Então o que você quer?

Dessa vez respondi sem hesitar.

— O divórcio.

Ele ficou imóvel.

A crise da empresa desapareceu de seu rosto por um instante.

— Você está falando sério?

— Muito.

— Por causa de uma discussão?

— Não.

Aproximei-me dele.

— Por causa do momento em que você decidiu que algumas lágrimas valiam mais do que cinco anos da minha palavra. Por causa da intimidade que vi entre você e Manuela. Por me colocar diante de todos como uma mentirosa sem sequer conferir um arquivo.

Henrique desviou o olhar.

Foi pequeno.

Mas percebi.

— Há quanto tempo? — perguntei.

— Clara…

— Não estou perguntando sobre a planilha.

Ele permaneceu calado.

O silêncio mudou tudo.

Não confirmou cada detalhe que eu temia, mas confirmou o suficiente para que eu entendesse que minha intuição não tinha surgido do nada.

Peguei a pasta que havia preparado naquela manhã.

— Amanhã você receberá uma proposta formal para iniciarmos a separação. Quero resolver isso sem espetáculo.

Henrique abriu a boca, mas eu continuei:

— Quanto à empresa, sua diretoria precisa aprender a administrá-la sem me usar como rede de segurança.

Ele pegou a pasta dos investimentos.

Antes de sair, virou-se.

— Você acha que o Grupo Horizonte vai cair sem você?

Pensei um pouco antes de responder.

— Não sei.

Henrique pareceu surpreso.

— Você não sabe?

— Não. E essa é a diferença entre nós. Eu não preciso que a empresa fracasse para provar que você errou comigo.

Abri a porta.

— Mas também não vou sacrificar minha vida para impedir que você descubra as consequências das próprias escolhas.

Ele saiu sem dizer mais nada.

Duas horas depois, a diretoria do Grupo Horizonte convocou uma reunião extraordinária.

E, pela primeira vez em cinco anos, meu nome constava na pauta não como esposa de Henrique nem como gerente.

Constava como representante da estrutura financeira que mantinha o grupo de pé.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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