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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

Parte 10

Cheguei ao Grupo Horizonte alguns minutos antes das cinco.

O movimento no saguão continuava o mesmo.

Funcionários atravessavam as catracas, pessoas esperavam elevadores, telefones tocavam na recepção.

Durante anos, eu tinha acreditado que minha ausência paralisaria aquele lugar.

Não paralisou.

E isso me deixou feliz.

A nova presidente me recebeu rapidamente.

— Está tudo bem?

— Está.

— Precisa de alguma coisa?

— Só vou resolver um assunto pessoal.

Ela assentiu.

Henrique chegou logo depois.

Não usava mais o crachá de presidente.

Trazia apenas uma identificação de visitante.

Quando nossos olhos se encontraram, nós dois percebemos a ironia.

— Parece que trocamos de lugar — ele disse.

— Não.

— Não?

— Eu também sou visitante agora.

Entramos no elevador.

Subimos até o andar da antiga diretoria.

A sala onde tudo tinha começado estava vazia naquele horário.

A mesma mesa.

As mesmas janelas.

As mesmas cadeiras.

Por alguns segundos, voltei mentalmente ao dia em que Manuela chorou diante de todos e Henrique ordenou que eu pedisse desculpas.

A lembrança ainda doía.

Mas não me controlava.

Tirei o antigo crachá da bolsa.

Henrique olhou para ele.

— Você trouxe.

— Trouxe.

Coloquei-o sobre a mesa exatamente como fizera no dia da demissão.

A diferença era que, daquela vez, ninguém estava me expulsando.

Eu estava escolhendo sair.

— Queria encerrar aqui — expliquei.

Henrique permaneceu em silêncio.

— Durante muito tempo, achei que o pior daquele dia tivesse sido você me demitir. Depois percebi que não foi.

Ele esperou.

— O pior foi eu ter passado cinco anos acreditando que precisava esconder partes de mim para proteger nosso casamento. Escondi meu patrimônio, minha estrutura de investimentos, minha independência. Fiquei dentro da empresa trabalhando como se precisasse provar diariamente que merecia estar ao seu lado.

— Eu nunca pedi que você fizesse isso.

— Não com palavras.

Ele baixou os olhos.

— Mas eu aceitei cada sacrifício como se fosse natural. E isso também foi culpa minha.

Balancei a cabeça.

— Não estou aqui para dividir culpa matematicamente.

Respirei fundo.

— Estou aqui porque não quero sair desta história carregando uma guerra.

Henrique encostou as mãos na cadeira.

— Eu também não quero.

— Então preciso que entenda uma coisa.

Olhei diretamente para ele.

— Eu não retirei meu dinheiro para destruir você. Retirei porque você decidiu que eu não tinha mais lugar na empresa e porque, depois disso, eu já não confiava na sua gestão. Eu não pedi o divórcio para punir você. Pedi porque você rompeu nosso casamento antes de eu formalizar o fim.

Henrique assentiu.

— Eu entendo.

— E eu não quero que passe o resto da vida acreditando que perdeu tudo por causa da Manuela.

Ele franziu a testa.

— Não foi?

— Ela foi responsável pelo que fez. Mas você tomou suas próprias decisões.

A frase ficou entre nós.

Henrique respirou fundo.

— Você tem razão.

Não houve defesa.

Não houve “mas”.

Apenas aquilo.

— Quando ela começou a se aproximar, eu poderia ter colocado limites. Não coloquei. Quando ela apresentou aquela história da planilha, eu poderia ter verificado. Não verifiquei. Quando você pediu justiça, eu podia ter te ouvido. Preferi proteger meu orgulho.

Sua voz falhou levemente.

— Eu escolhi tudo isso.

Pela primeira vez, não senti necessidade de responder.

A responsabilidade finalmente estava com a pessoa a quem pertencia.

Henrique olhou para o crachá sobre a mesa.

— E agora?

— Agora você vive sua vida.

— E você?

— Eu também.

Ele sorriu de leve.

— Parece simples quando você fala.

— Não foi simples chegar até aqui.

Saímos da sala juntos.

No corredor, alguns funcionários nos cumprimentaram.

Ninguém parecia saber se deveria agir normalmente.

Eu agi.

Conversei rapidamente com duas pessoas da antiga equipe, perguntei sobre um projeto que havia sido concluído e desejei boa sorte à nova direção.

Não fiz discurso.

Não precisava.

Antes de entrar no elevador, Henrique chamou meu nome.

— Clara.

Virei.

— Obrigado por não destruir a empresa.

A frase me surpreendeu.

— Eu nunca quis destruir.

— Eu sei agora.

— Cuide da parte que ainda é sua, mesmo sem estar na presidência.

Ele assentiu.

— Vou tentar.

— Não tente parecer diferente. Seja diferente.

Henrique sorriu com tristeza.

— Essa frase vai ficar comigo.

— Então já valeu a conversa.

A porta do elevador abriu.

Entrei sozinha.

Quando cheguei ao térreo, não olhei para trás.

Dois meses depois, a retirada principal dos meus investimentos foi concluída.

O Grupo Horizonte permaneceu menor, mais conservador e com uma estrutura de governança mais rígida.

A nova direção conseguiu manter os principais contratos e atrair novos investidores sem prometer o crescimento impossível que Henrique perseguia antes.

Alguns projetos desapareceram.

Outros sobreviveram.

A empresa seguiu.

Henrique não voltou à presidência.

Permaneceu como acionista e, algum tempo depois, começou a trabalhar em projetos menores fora da gestão diária do grupo.

Não nos tornamos amigos.

Também não nos tornamos inimigos.

De vez em quando, algum assunto patrimonial ainda exigia uma mensagem curta entre nossos representantes.

Era só isso.

Sobre Manuela, soube apenas que havia seguido outro caminho profissional.

Não procurei detalhes.

Ela perdera o emprego por uma decisão que tomou conscientemente.

Henrique perdera o comando da empresa e o casamento por uma sequência de decisões que também foram dele.

Eu não precisava continuar acompanhando a punição de ninguém para seguir adiante.

Minha vida voltou para o lugar que eu tinha deixado de lado durante anos.

Passei a trabalhar abertamente no escritório de investimentos.

Não escondia mais minha função.

Não diminuía minha experiência para que outra pessoa parecesse maior.

Também fiz algo que deveria ter feito muito antes: deixei minha equipe tomar decisões sem depender de mim para tudo.

A história do Grupo Horizonte tinha me ensinado, entre outras coisas, que nenhuma organização saudável deveria existir em torno de uma única pessoa.

Nem uma empresa.

Nem um casamento.

Certa tarde, uma analista jovem entrou na minha sala com a proposta de um novo projeto.

Ela parecia nervosa.

— Acho que você vai discordar de uma parte.

Sorri.

— Então me mostre justamente essa parte primeiro.

Ela abriu o relatório.

Discordamos durante quase quarenta minutos.

No final, percebemos que a melhor solução estava no meio das duas ideias.

Quando ela saiu, fiquei olhando para a porta.

Durante anos eu tinha vivido ao lado de um homem que começou a interpretar discordância como ameaça.

Eu não queria repetir isso em nenhuma relação da minha vida.

Peguei uma caixa que ainda estava no canto da sala.

Dentro dela, entre documentos antigos, estava o crachá do Grupo Horizonte.

Segurei-o por alguns segundos.

Não senti raiva.

Também não senti saudade suficiente para querer voltar.

Guardei-o novamente.

Não como lembrança de uma derrota.

Como prova de uma fase que terminou.

Depois caminhei até a janela.

São Paulo se estendia diante de mim, barulhenta, enorme, indiferente aos finais que pareciam tão definitivos quando estávamos no meio deles.

Meu celular tocou.

Era minha equipe confirmando a aprovação do novo investimento que havíamos analisado.

Dessa vez, ninguém precisava esconder quem controlava os recursos.

Ninguém precisava acreditar que eu estava ali por causa do nome de um marido.

Assinei a autorização e fechei o arquivo.

Cinco anos antes, eu tinha ajudado Henrique a construir um futuro.

Agora começava a construir o meu sem precisar desaparecer dentro do sonho de outra pessoa.

E, pela primeira vez em muito tempo, a vida diante de mim não parecia uma perda.

Parecia uma escolha.

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