
Parte 2
Coloquei o crachá sobre a mesa e empurrei devagar na direção da gerente administrativa. Depois peguei minha bolsa, fechei a pasta que ainda estava diante de mim e me virei para Henrique. — Espero que amanhã você não se arrependa.
Ele soltou uma risada curta. — Você está me ameaçando? — Não. Só estou dizendo que toda escolha tem consequência.
Manuela continuava ao lado dele, protegida pelo mesmo braço que durante anos eu tinha acreditado ser meu porto seguro. Quando passei pela porta, ninguém tentou me impedir. O silêncio dos funcionários me acompanhou pelo corredor até o elevador.
Só quando as portas se fecharam permiti que meus ombros relaxassem. Não chorei. Naquele momento, a humilhação ainda era grande demais para caber em lágrimas.
No estacionamento, sentei dentro do carro e liguei para a equipe que administrava meus investimentos. Não pedi vingança, não pedi favores e não inventei uma crise. Apenas determinei que todos os compromissos financeiros ligados ao Grupo Horizonte fossem revistos e que os mecanismos de saída previstos nos contratos fossem acionados.
Havia anos eu mantinha aqueles investimentos separados da minha vida pessoal. Henrique conhecia os fundos, conhecia os veículos financeiros e conhecia alguns representantes. O que ele nunca soubera era quem tinha a palavra final sobre aquela estrutura.
Também avisei os principais parceiros com quem eu mantinha relação direta que não responderia mais pela operação do Grupo Horizonte. Não pedi que rompessem contratos. Apenas comuniquei que eu havia sido afastada e que qualquer decisão, dali em diante, deveria ser tomada exclusivamente com a nova gestão.
As reações começaram antes mesmo de eu chegar ao meu apartamento. Dois parceiros solicitaram reuniões emergenciais. Outro informou que suspenderia uma renovação até entender quem assumiria os projetos que eu coordenava.
Henrique, naquele mesmo horário, continuava convencido de que eu voltaria atrás. Soube depois que ele terminou a reunião dizendo que a empresa não podia parar por causa de “drama doméstico”. Manuela permaneceu ao lado dele durante todo o restante da manhã.
Naquela noite, ele não me ligou. Eu também não liguei. Separei documentos pessoais, desliguei o celular corporativo e dormi pouco, mas pela primeira vez em anos não fiquei calculando como salvar um problema da empresa antes do amanhecer.
Às oito e vinte da manhã seguinte, o telefone de Henrique tocou. A diretora financeira estava do outro lado da linha e falava rápido demais. — Henrique, temos um problema muito sério. Os veículos de investimento ligados ao nosso principal aporte iniciaram a retirada programada dos recursos.
Ele teria perguntado que aporte era aquele. A resposta veio direta: tratava-se da estrutura financeira que sustentava boa parte da expansão do grupo. Considerando todos os compromissos vinculados, a exposição chegava a aproximadamente R$ 320 bilhões.
Antes que Henrique conseguisse responder, veio a segunda notícia. Parceiros responsáveis por contratos estratégicos estavam acionando cláusulas de revisão, suspendendo renovações ou pedindo encerramento negociado porque a pessoa que garantia a execução das operações havia deixado a empresa.
Foi então que meu telefone pessoal tocou. Henrique apareceu na tela pela primeira vez desde minha demissão. Atendi na terceira chamada.
— O que você fez? — ele perguntou, sem sequer dizer meu nome. Encostei-me na janela e olhei para a cidade. — Eu parei de sustentar uma empresa da qual você decidiu que eu não fazia mais parte.
Do outro lado, ouvi sua respiração mudar. — Esses investimentos… têm alguma coisa a ver com você? — Têm tudo a ver comigo. E amanhã podemos conversar sobre a segunda coisa que você decidiu destruir ontem.
Ele ficou em silêncio. — Que segunda coisa? Fechei os olhos por um instante. — Nosso casamento.
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