
Parte 2
— Então continue achando que eu estou blefando — respondi. Minha voz saiu baixa, mas Gustavo percebeu que não havia mais súplica nela. Pela primeira vez naquela noite, quem desviou os olhos foi ele.
O telefone voltou a tocar antes que pudesse responder. Desta vez era o diretor financeiro, falando de uma suspensão emergencial de novas operações, margens adicionais exigidas por corretoras e uma reunião imediata do conselho. Gustavo tentou interrompê-lo duas vezes, mas o homem continuou falando até a ligação cair.
Bianca segurou o braço dele. — Gustavo, você precisa fazer alguma coisa. — A delicadeza de poucos minutos antes tinha desaparecido. Agora sua voz carregava medo real. Ele soltou o braço dela sem perceber.
— Helena, espere. — Gustavo deu um passo em minha direção. Não havia arrependimento em seu rosto, apenas urgência. — O que você fez?
Olhei para os dois seguranças. — O que eu fiz aconteceu depois. O que trouxe vocês até aqui foi uma decisão sua. Dez vezes, para ser exata.
Ele apertou a mandíbula. — Não misture nosso casamento com a empresa.
Eu quase sorri. — Foi você quem misturou tudo quando usou funcionários da sua empresa para agredir sua esposa dentro do seu escritório.
Os dois seguranças se entreolharam. Pela primeira vez desde o início, pareceram compreender que a ordem que haviam obedecido não desapareceria junto com a noite.
Gustavo tentou segurar meu pulso. Afastei a mão antes que me tocasse. — Não encoste em mim de novo. A partir de agora, qualquer assunto entre nós será tratado com registro e testemunhas.
— Você vai destruir milhares de empregos por causa de uma briga conjugal? — ele disparou, tentando recuperar a autoridade.
— Não. Eu vou retirar o que nunca deveria ter sustentado uma estrutura administrada por alguém que acredita que pode mandar bater em uma pessoa e depois chamar isso de assunto conjugal. O que acontecer depois dependerá das decisões que vocês tomarem.
O rosto dele mudou. Aquela frase atingiu onde a queda das ações ainda não tinha alcançado. — Retirar o quê?
Não respondi. Abri a porta e saí do escritório. O corredor estava cheio de funcionários olhando para telas, correndo de um lado para outro, tentando entender por que contratos, limites e negociações estavam sendo revistos ao mesmo tempo.
No elevador, vi meu reflexo no espelho e quase não reconheci meu próprio rosto. Por alguns segundos, a raiva cedeu lugar a uma exaustão pesada. Eu havia passado três anos tentando salvar um casamento que Gustavo já tratava como um privilégio concedido a mim.
Quando as portas do elevador se abriram no térreo, Valter me ligou. — Senhorita Helena, a primeira etapa foi executada. Mas preciso confirmar uma coisa: mantemos a estratégia estritamente nos vínculos econômicos da holding, sem qualquer medida fora dos contratos?
— Sim. Nada além do que é nosso por direito. Nenhum funcionário comum deve pagar por isso se houver uma alternativa. Quero pressão sobre quem tomou as decisões, não vingança contra quem apenas trabalha lá.
— Entendido.
Antes de desligar, parei na entrada do prédio. — E providencie um carro para me levar ao hospital. Depois quero registrar formalmente a agressão.
Do outro lado da linha, Valter respirou fundo. — Certo.
Olhei para o edifício do Grupo Guimarães pela última vez naquela noite. O que me surpreendeu não foi a sensação de poder. Foi perceber que, depois de três anos, eu finalmente tinha parado de pedir permissão para proteger a mim mesma.
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