
Parte 8
A assinatura do acordo de divórcio foi marcada para uma manhã chuvosa de terça-feira.
Cheguei cedo.
Gustavo já estava lá.
Entre nós havia uma mesa, duas equipes jurídicas e um conjunto de documentos que resumiam três anos de casamento em cláusulas, avaliações e assinaturas.
Aquilo poderia parecer frio.
Para mim, era libertador.
Tudo o que antes dependia do humor, da culpa ou da insistência agora estava definido por escolhas claras.
Marina revisou cada ponto comigo.
O apartamento seria vendido.
O imóvel comercial ficaria com Gustavo mediante pagamento da minha parte pelo valor apurado.
Contas conjuntas seriam encerradas.
Obrigações compartilhadas seriam liquidadas.
O patrimônio anterior ao casamento permaneceria separado.
Quando chegou a hora de assinar, Gustavo pediu uma pausa.
Todos olharam para ele.
— Posso falar uma coisa antes?
Marina virou-se para mim.
Eu concordei.
Gustavo não tentou se aproximar.
— Não vou pedir que você desista — disse. — Já fiz isso vezes demais, de maneiras diferentes.
Esperei.
— Eu passei muito tempo dizendo a mim mesmo que você destruiu minha empresa por vingança. Era mais fácil acreditar nisso do que admitir que o grupo já estava vulnerável porque eu cresci mais rápido do que deveria, contando com apoio que nem me dei ao trabalho de entender.
Um dos advogados mexeu na cadeira.
Gustavo continuou:
— Também passei muito tempo culpando Bianca por ter criado aquela situação.
Meu peito ficou tenso.
— Mas fui eu quem deu a ordem.
Ninguém falou.
— Eu não sei o que aconteceu entre vocês antes de eu entrar naquela sala. E percebi que isso não muda o que eu fiz depois.
Era a formulação mais clara que eu ouvira desde aquela noite.
Não porque o absolvesse.
Mas porque, finalmente, ele parava de procurar uma porta lateral.
— Eu sinto muito — disse. — Não pelo cargo. Não pelo dinheiro. Pelo que fiz com você.
Meus olhos arderam.
Eu não chorei.
— Eu acredito que você se arrepende.
A esperança surgiu no rosto dele por um segundo.
Precisei ser precisa.
— Mas arrependimento não significa que eu volte.
A esperança desapareceu.
Ele assentiu.
— Eu sei.
Pegamos as canetas.
Assinamos.
Não houve aplauso.
Não houve sensação de triunfo.
Houve silêncio.
Um silêncio diferente daquele escritório.
Naquela noite, o silêncio tinha sido imposto pela violência.
Agora era o espaço deixado por uma coisa que terminava.
Depois da assinatura, Gustavo saiu primeiro.
Eu permaneci sentada por alguns minutos.
Marina fechou a pasta.
— Como se sente?
Pensei.
— Leve e triste ao mesmo tempo.
— Parece coerente.
Sorri.
Nos meses seguintes, a vida começou a ocupar os lugares que o conflito deixara vazios.
Voltei ao trabalho de forma gradual.
Não retomei imediatamente todas as funções na holding.
Continuei acompanhando projetos menores e descobri que gostava de estar perto das decisões concretas, não apenas dos grandes números.
O Grupo Guimarães estabilizou-se.
A nova direção renegociou parte das dívidas e encerrou projetos que só faziam sentido sob a lógica de expansão agressiva de Gustavo.
As ações permaneceram abaixo dos antigos patamares por bastante tempo.
Não porque eu estivesse atacando a empresa.
Mas porque o mercado agora enxergava riscos que antes estavam mascarados por crédito abundante e excesso de confiança.
Gustavo continuava como acionista, mas longe da operação diária.
Soube por terceiros que ele mantinha o acompanhamento psicológico.
Não procurei detalhes.
A mudança dele já não era responsabilidade minha.
Bianca deixou o grupo definitivamente.
Não tentei descobrir para onde foi.
Durante muito tempo, eu havia imaginado que precisaria vê-la perder alguma coisa para sentir justiça.
Quando isso finalmente deixou de importar, entendi que parte de mim já tinha avançado.
O processo referente à agressão seguiu seu curso próprio.
Eu compareci quando fui chamada.
Relatei os fatos.
Entreguei os registros médicos.
Não exagerei.
Não suavizei.
Os seguranças também prestaram declarações.
Gustavo assumiu que dera a ordem.
Nada disso apagava o que aconteceu.
Mas havia uma diferença enorme entre carregar uma ferida escondida e vê-la reconhecida como fato.
Um sábado, enquanto organizava caixas que ainda estavam fechadas desde a mudança, encontrei o vestido que eu pretendia usar no jantar do nosso terceiro aniversário.
Fiquei olhando para ele.
Por alguns minutos, as lembranças vieram em sequência.
O restaurante que eu tinha escolhido.
A expectativa.
O escritório.
A primeira bofetada.
A ligação.
Guardei o vestido numa sacola para doação.
Não porque estivesse tentando apagar a mulher que eu tinha sido.
Mas porque não precisava mais manter um altar para o pior dia da minha vida.
Na segunda-feira seguinte, Valter me chamou para conversar sobre uma decisão importante.
A holding pretendia vender a participação minoritária que ainda mantinha indiretamente em estruturas relacionadas ao Grupo Guimarães.
— A relação financeira entre as famílias pode terminar de vez — disse.
Olhei os papéis.
Meses atrás, isso teria parecido a última batalha.
Agora parecia apenas o próximo passo.
— Façam a avaliação.
— Você quer preservar alguma posição?
— Não.
Valter assentiu.
— Então, quando a venda for concluída, não haverá mais nenhum vínculo econômico relevante entre você e o grupo.
Fechei a pasta.
Era exatamente isso que eu queria.
Não destruir o mundo de Gustavo.
Sair dele.
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