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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

Um mês depois, o Grupo Guimarães ainda existia.

Menor.

Mais cauteloso.

E, sobretudo, sem Gustavo no comando.

A nova gestão vendeu ativos não essenciais, renegociou contratos, suspendeu dois projetos de expansão e apresentou um plano de recuperação de liquidez ao mercado. A holding da minha família reduziu gradualmente suas garantias conforme a empresa encontrava alternativas próprias.

Não era o fim cinematográfico que Gustavo temera naquela noite.

Era algo pior para o orgulho dele.

A empresa estava aprendendo a sobreviver sem depender da imagem de homem indispensável que ele passara anos construindo.

Meu divórcio, por outro lado, avançava com menos ruído.

Chegamos a acordo sobre a maior parte dos bens comuns. Algumas participações precisaram de avaliação. O apartamento seria vendido, e o valor líquido dividido conforme o regime aplicável.

Eu preferia assim.

Não queria conservar paredes como troféu.

Queria encerrar vínculos.

Foi então que tomei uma decisão que surpreendeu até Valter.

— Quero sair da administração direta da parte financeira da holding por alguns meses.

Ele me olhou com atenção.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Depois de tudo que aconteceu?

— Justamente por isso.

Passei a mão pelos documentos espalhados sobre a mesa.

— Eu usei o poder que tinha para interromper uma situação que se tornou intolerável. Mas não quero que minha vida vire uma reação permanente a Gustavo. Preciso descobrir o que quero construir quando não estou me defendendo dele.

Valter demorou alguns segundos para responder.

— Seu pai diria que essa é a primeira decisão realmente difícil que você tomou.

Sorri.

— Ele provavelmente reclamaria antes.

— Sem dúvida.

Afastar-me temporariamente não significava abrir mão do patrimônio.

Significava parar de organizar meus dias em torno da queda do Grupo Guimarães.

Comecei a acompanhar um projeto antigo da família voltado à revitalização de imóveis comerciais menores. Nada gigantesco. Nada que rendesse manchetes.

Gostei justamente por isso.

As decisões tinham consequência concreta.

Um prédio recuperado.

Uma loja que reabria.

Uma equipe que voltava a trabalhar.

Certa tarde, ao sair de uma vistoria, encontrei Gustavo esperando na calçada.

Não gostei.

— Como você soube que eu estaria aqui?

— Marina mencionou, durante a mediação, que você estava acompanhando um projeto nesta região. Não pedi endereço. Vi seu carro.

Fiquei séria.

— Não faça isso de novo.

Ele assentiu.

— Certo. Desculpe.

Não tentou justificar.

Aquilo me fez permanecer.

— O que você quer?

Gustavo segurava um envelope fino.

Meu corpo reagiu antes da razão.

Ele percebeu.

— Não é nenhuma surpresa. É uma cópia do meu pedido formal de renúncia definitiva à presidência.

Olhei para ele.

— O conselho não exigiu isso.

— Não.

— Então por quê?

— Porque passei semanas pensando em como voltar. Primeiro achei que precisava provar que ainda era capaz. Depois percebi que eu queria recuperar o cargo pelo mesmo motivo que tentei controlar você: eu não sei lidar com a ideia de deixar de ser a pessoa que decide tudo.

A honestidade me desconcertou.

— E o que vai fazer?

— Continuo acionista. Vou participar do que me cabe, sem gestão executiva por enquanto.

Ele me entregou o documento.

Não peguei.

— Isso é seu.

Gustavo baixou a mão.

— Eu queria que você soubesse.

— Agora eu sei.

Ele respirou.

— Bianca pediu demissão.

Meu olhar endureceu.

— Não precisa me contar sobre ela.

— Eu sei. Só achei que…

— Gustavo.

Ele parou.

— Nosso casamento não acabou por causa de Bianca. Ela estava no centro daquela cena, mas a decisão foi sua.

Ele assentiu.

— Estou começando a entender isso.

— Então continue.

Fiz menção de ir embora.

— Helena.

Parei.

— Eu te amei — ele disse.

A frase poderia ter me destruído meses antes.

Naquele dia, apenas doeu.

— Talvez tenha amado do jeito que sabia.

— Isso não basta, né?

— Não.

Ele baixou a cabeça.

Eu me afastei.

Naquela noite, chorei pela primeira vez desde a agressão.

Não porque queria voltar.

Chorei porque aceitar que alguém poderia ter me amado e ainda assim ter me ferido profundamente era mais difícil do que transformá-lo em um vilão simples.

Amor não anulava violência.

Arrependimento não desfazia escolha.

Mudança não criava obrigação de reconciliação.

Dois dias depois, pedi a Marina que avançasse para a etapa final do divórcio.

Ela confirmou que quase tudo estava acordado.

Restava uma última divergência: Gustavo queria manter uma participação conjunta em um imóvel comercial adquirido durante o casamento, alegando que a venda imediata causaria prejuízo.

Eu poderia insistir.

Teria respaldo para negociar outro caminho.

Mas percebi que manter qualquer ativo conjunto significaria prolongar uma relação que eu estava tentando encerrar.

— Venda minha parte a ele pelo valor da avaliação independente — decidi.

Marina me observou.

— Você abriria mão de uma possível valorização futura.

— Sim.

— Tem certeza?

— Não quero maximizar retorno. Quero finalizar.

Foi a decisão que mudou o rumo dos últimos meses.

Eu não estava mais tentando vencer Gustavo.

Estava escolhendo sair.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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