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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

A reunião do conselho durou quase quatro horas.

Eu não participei.

Minha posição acionária indireta e os contratos da holding me davam influência econômica, mas a decisão sobre a presidência cabia aos órgãos do próprio Grupo Guimarães. Eu havia passado tempo demais sendo acusada de destruir a empresa para agora interferir onde não precisava.

Às cinco da tarde, Valter entrou em meu escritório improvisado.

— Gustavo foi afastado da presidência por prazo indeterminado.

Fechei o documento que estava lendo.

Eu esperava sentir vitória.

Não senti.

— Quem assume?

— O diretor de operações, interinamente. O conselho quer estabilizar caixa, renegociar os vencimentos e separar a crise de governança do restante da companhia.

— Isso é sensato.

Valter permaneceu de pé.

— A holding precisa decidir se mantém a garantia temporária por mais trinta dias.

Olhei os relatórios.

Se retirássemos tudo de uma vez, a pressão chegaria primeiro a fornecedores pequenos e empregados.

Se mantivéssemos indefinidamente, Gustavo jamais teria enfrentado o custo real da dependência que ajudara a criar.

— Trinta dias — decidi. — Exclusivamente para folha, fornecedores essenciais e encerramento ordenado das linhas mais frágeis. Sem financiar expansão. Sem cobrir bônus de executivos.

— Certo.

Naquela mesma semana, recebi uma cópia do relatório interno.

Não havia grandes revelações escondidas.

E eu agradeci por isso.

Nada de conspiração secreta.

Nada de documentos milagrosos.

O relatório apenas reconstruía o que já sabíamos: Gustavo dera a ordem. Os seguranças obedeceram. Funcionários ouviram. Ninguém tentou interromper.

Bianca também prestara depoimento.

Segundo o resumo, sustentava que se sentira ofendida e ameaçada por mim, mas reconhecia que não pedira que Gustavo ordenasse a agressão.

Aquilo não a transformava em inocente nem culpada de tudo.

A responsabilidade principal pela ordem continuava onde sempre estivera.

Em Gustavo.

Esse esclarecimento foi importante para mim.

Durante dias, parte de minha raiva havia se concentrado em Bianca porque era mais fácil odiar a mulher que sorrira ao me ver apanhar.

Mas eu não queria substituir uma verdade por uma narrativa conveniente.

Foi meu marido quem tinha autoridade.

Foi ele quem escolheu usá-la.

Também soube que os dois seguranças haviam sido dispensados por justa causa após o processo interno, enquanto a investigação oficial seguia seu curso.

Não comemorei.

Eles tinham errado.

Mas sua queda não reparava meu rosto, muito menos os anos de desprezo que haviam preparado aquela cena.

Enquanto isso, minha separação avançava.

O regime de bens deixava claro que participações familiares anteriores ao casamento continuavam fora do patrimônio comum. Os bens adquiridos conjuntamente precisariam ser apurados com cuidado.

Gustavo tentou discutir os números por intermédio dos advogados.

Isso, curiosamente, funcionava melhor do que nossas conversas pessoais.

No papel, ele já não podia interromper.

Nem aumentar a voz.

Nem transformar cada pergunta em demonstração de poder.

Certo dia, Marina colocou sobre a mesa uma proposta inicial enviada pela equipe dele.

— Ele aceita a separação de fato, mas quer negociar a divisão de alguns bens e pediu uma reunião de mediação.

Li tudo.

— Alguma coisa abusiva?

— Existem pontos discutíveis. Nada que não seja negociável.

— Então vamos negociar.

Marina sorriu de leve.

— Você parece mais tranquila.

— Estou cansada de guerras em que alguém precisa sair esmagado.

A frase me surpreendeu.

Porque, alguns dias antes, eu tinha ordenado que o Grupo Guimarães desaparecesse até o amanhecer.

Naquele momento, eu realmente quis destruir tudo que representasse Gustavo.

Mas ver os funcionários correndo no corredor, ouvir sobre folhas de pagamento e fornecedores, perceber que um conglomerado não era apenas o homem que o presidia havia mudado minha perspectiva.

Eu ainda queria consequências.

Só não queria confundi-las com devastação indiscriminada.

Na mesma tarde, Gustavo me enviou uma única mensagem.

“Fui afastado. Imagino que você já saiba.”

Não respondi.

Minutos depois, veio outra.

“Não estou pedindo ajuda.”

Continuei sem responder.

A terceira demorou quase uma hora.

“Eu só queria que você soubesse que comecei acompanhamento psicológico. Não estou dizendo isso para você voltar. Acho que tenho coisas que preciso entender.”

Fiquei olhando para a tela.

Não senti vontade de correr para ele.

Também não senti necessidade de zombar.

Respondi apenas:

“Espero que leve a sério.”

Nada mais.

Na semana seguinte, tivemos a primeira mediação da separação.

Gustavo parecia diferente.

Não melhor.

Diferente.

Mais contido.

Ele ouviu Marina explicar a divisão dos bens sem tentar dominar a conversa. Questionou valores, pediu avaliações independentes e discordou de alguns itens.

Era normal.

Quando chegou o momento de discutir o apartamento onde morávamos, ele falou:

— Helena pode ficar com ele.

Interrompi.

— Não quero.

Ele me olhou.

— Por quê?

— Porque eu não quero transformar a casa onde fui diminuída durante anos em prêmio de consolação.

Marina anotou minha decisão.

Gustavo não insistiu.

Ao final, ele pediu cinco minutos para falar comigo.

Aceitei, com Marina permanecendo perto.

— Eu sempre achei que você ficava porque precisava de mim — disse.

Esperei.

— E quando descobri que era o contrário… percebi que nem sei quando comecei a tratar você como alguém que tinha menos escolha do que eu.

Aquilo era diferente de um pedido genérico de perdão.

Era a primeira vez que ele nomeava o mecanismo.

— Você não começou naquela noite — respondi. — Aquela noite só tornou impossível continuar fingindo que não acontecia.

Ele assentiu lentamente.

— Eu sei.

Saí da sala sem lhe dar esperança de reconciliação.

Mas saí com uma certeza nova.

Eu já não precisava que Gustavo fosse um monstro para justificar minha partida.

Bastava que tivesse ultrapassado limites que eu não aceitaria novamente.

E, pela primeira vez, ele começava a entender que meu afastamento não era uma punição temporária.

Era uma decisão.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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