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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Entrei na sala de reuniões às três da tarde acompanhada apenas de Valter e de uma assessora jurídica da holding. Não havia fotógrafos, seguranças extras nem qualquer cena preparada. Eu não precisava transformar aquilo num espetáculo.

Gustavo já estava lá.

Quando me viu, levantou-se depressa.

O olhar dele parou no hematoma que se espalhava pelo meu rosto.

Foi a primeira vez que percebi algum desconforto verdadeiro em sua expressão.

Mas desconforto não era arrependimento.

— Helena…

— Vamos tratar primeiro da empresa.

Ele fechou a boca.

Ao redor da mesa estavam os demais conselheiros e dois executivos financeiros. Um deles abriu a apresentação com números duros: a queda das ações havia disparado cláusulas de garantia; a volatilidade reduzira limites de crédito; fornecedores grandes exigiam pagamento mais curto; contratos importantes estavam sendo revistos.

O Grupo Guimarães ainda existia.

Mas a imagem de solidez que Gustavo cultivara havia desaparecido em poucas horas.

— Precisamos saber se a Sampaio Participações pretende retirar todo o suporte — perguntou um conselheiro mais velho.

— Pretendo retirar aquilo que depende exclusivamente da confiança na gestão atual — respondi.

Gustavo bateu a mão na mesa.

— Isso é chantagem.

Virei o rosto para ele.

— Não. Chantagem seria exigir alguma vantagem indevida em troca de não causar um dano ilegal. Estou encerrando relações financeiras que posso encerrar e recusando renovar garantias que pertencem à minha família.

— Por causa de dez tapas?

A sala inteira ficou imóvel.

A assessora jurídica ao meu lado baixou os olhos para os próprios papéis.

Eu não.

— Você ainda acha que foram “dez tapas”.

Gustavo percebeu tarde demais como aquela frase soara.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente isso que você quis dizer ontem. E continua querendo dizer hoje.

Um dos conselheiros perguntou, cauteloso:

— Houve mesmo uma agressão dentro da empresa?

Gustavo se virou.

— Isso é assunto pessoal.

— Dois seguranças da empresa executaram a ordem — respondi. — Dentro do escritório do presidente.

A expressão dos demais mudou.

A partir daquele momento, a discussão deixou de ser apenas financeira.

Passou a envolver governança.

Risco trabalhista.

Responsabilidade da administração.

Uso indevido de funcionários.

Gustavo entendeu antes de todos que o centro de poder da reunião havia mudado.

Ele tentou redirecionar.

— Bianca disse que Helena a agrediu primeiro.

Eu respirei devagar.

— Se houve qualquer crime ou agressão anterior, existem meios legais de apuração. Nada disso autorizava você a ordenar que dois funcionários me segurassem enquanto um deles me golpeava dez vezes.

Ninguém respondeu.

Porque não havia muito o que responder.

A reunião seguiu por quase duas horas.

Concordei em manter temporariamente algumas garantias que afetavam diretamente folha de pagamento, contratos operacionais e fornecedores menores. Em compensação, a holding não renovaria linhas ligadas à expansão agressiva que Gustavo havia iniciado naquele ano.

Não era salvamento.

Era contenção de dano.

No fim, um dos conselheiros propôs a abertura de uma investigação interna sobre o uso dos seguranças e sobre decisões recentes da presidência.

Gustavo se opôs.

Foi voto vencido.

Ali estava a primeira consequência que ele não podia culpar no meu dinheiro.

O próprio conselho, formado por pessoas que ele escolhera ao longo dos anos, não estava disposto a assumir pessoalmente o risco de fingir que nada tinha acontecido.

Quando a reunião terminou, Gustavo me seguiu até o corredor.

— Helena, espere.

Parei.

— Fale.

Ele olhou para Valter.

— Sozinhos.

— Não.

— Eu sou seu marido.

— Ainda é. Isso não lhe dá direito a uma conversa sem testemunhas.

A frase o atingiu.

Ele se aproximou um passo, mas parou quando viu que Valter não se mexeria.

— Eu não sabia que sua família controlava a Sampaio Participações.

— Controla.

— E você?

— Tenho poder de decisão sobre a participação patrimonial que me pertence.

— Por que nunca me contou?

A pergunta veio carregada de acusação.

Eu quase não acreditei.

— Você acabou de descobrir que seu casamento inteiro foi sustentado por uma mentira — ele continuou.

Dessa vez eu ri, sem humor.

— Qual mentira, Gustavo?

— Você fingiu ser uma mulher comum.

— Eu nunca fingi pobreza. Nunca disse que minha família não tinha recursos. Nunca escondi documentos que você tivesse direito de ver. Você simplesmente decidiu que tudo o que vinha de mim era pequeno.

Ele abriu a boca.

Fechou.

— Meu pai me disse que seu dote era modesto.

— O que entrou formalmente no casamento era modesto. O restante nunca foi seu.

Gustavo ficou pálido.

A distinção, para ele, parecia quase ofensiva.

— Então você me deixou construir tudo isso acreditando…

— Acreditando no quê? Que era a única pessoa capaz na sala?

Seus olhos endureceram.

— Você queria me testar?

— Não.

Essa acusação eu respondi imediatamente.

— Eu queria viver meu casamento sem transformar meu patrimônio no centro dele. Você transformou minha discrição em inferioridade por conta própria.

Por alguns segundos, vi alguma coisa diferente em seu rosto.

Não vergonha.

Mas a percepção dolorosa de que a versão da história que ele havia contado a si mesmo começava a desmoronar.

— E agora? — perguntou.

— Agora você responde pelo que fez na empresa.

— E nós?

Olhei para ele.

Meu rosto ainda doía.

Mas a pergunta já não doía da mesma forma.

— Nós não vamos ser resolvidos num corredor.

Saí sem esperar resposta.

Naquela noite, mandei buscar minhas roupas e objetos pessoais da casa.

Não levei móveis.

Não levei nada que precisasse virar uma nova guerra.

Enquanto as caixas eram fechadas, sentei-me no quarto de hóspedes do apartamento e percebi que meu casamento cabia em menos volumes do que eu imaginava.

Pouco antes da meia-noite, recebi a informação de que o conselho havia afastado provisoriamente os dois seguranças até o fim da investigação interna.

Gustavo continuava presidente.

Mas já não decidia sozinho.

E, pela primeira vez, eu também já não estava esperando que ele mudasse para decidir o que fazer com a minha vida.

Na manhã seguinte, marquei uma consulta com uma advogada de família.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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