
Parte 5
A advogada se chamava Dra. Marina e não começou nossa conversa perguntando quanto Gustavo possuía.
Perguntou o que eu queria.
A simplicidade da pergunta me desmontou mais do que qualquer discurso.
Durante três anos, quase todas as minhas decisões tinham passado pelo filtro da mesma dúvida: o que eu precisava fazer para preservar meu casamento?
Naquela manhã, a pergunta era outra.
O que eu queria preservar de mim?
— Quero me separar — respondi.
Dizer em voz alta tornou a decisão concreta.
Marina explicou os próximos passos sem prometer milagres. Precisávamos verificar o regime de bens, documentos patrimoniais, contratos firmados durante o casamento e eventuais obrigações comuns. A agressão seria tratada em via própria. A separação patrimonial não transformaria tudo em uma batalha instantânea.
Eu agradeci justamente por isso.
Já havia vivido drama suficiente.
Não queria uma justiça de novela.
Queria uma saída sólida.
Quando saí do escritório, Valter me informou que o Grupo Guimarães havia aberto a investigação interna e que Gustavo passara a manhã pressionando diretores para descobrir quem apoiara a decisão.
— Ele está procurando traidores — disse Valter.
— Então ainda não entendeu nada.
— Provavelmente não.
A holding, por minha orientação, manteve apenas as estruturas necessárias para evitar que trabalhadores ficassem sem salário enquanto o conselho reorganizava o caixa. Todo novo aporte dependeria de aprovação independente.
Isso mudou a dinâmica dentro do grupo.
Durante anos, Gustavo havia usado crédito fácil para acelerar projetos e depois apresentar o crescimento como prova de força. Sem a mesma rede de apoio, vários projetos precisaram ser revistos.
Não faliram em uma tarde.
Não desapareceram magicamente.
Mas deixaram de parecer invulneráveis.
E Gustavo, que sempre governara pela certeza de que teria recursos para corrigir qualquer excesso depois, passou a enfrentar limites reais.
Na terceira noite após a agressão, ele apareceu no prédio onde eu estava.
A portaria me ligou.
— Dona Helena, o Sr. Gustavo Guimarães está aqui. Disse que precisa falar com a senhora.
Pensei por alguns segundos.
— Pode subir até a sala de visitas do térreo. Eu encontro com ele lá.
Não queria recebê-lo no apartamento.
Também não queria fugir.
Quando cheguei, Gustavo estava andando de um lado para o outro.
Parecia não dormir havia dias.
— Você pediu separação?
— Pedi para minha advogada preparar tudo.
Ele parou.
— Então é isso? Três anos acabam assim?
— Não acabaram hoje.
— Helena…
— Acabaram aos poucos. Só que eu demorei para aceitar.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu errei.
Foi a primeira vez que ouvi aquelas duas palavras.
Esperei.
Ele continuou:
— Eu estava com raiva. Bianca estava chorando. Eu achei que você tinha passado dos limites.
— E por isso mandou me bater.
— Eu não pensei direito.
— Dez vezes.
Ele fechou os olhos.
— Eu sei.
— Não. Você sabe contar. Saber o que fez é outra coisa.
Gustavo abriu os olhos.
Havia raiva ali, mas também cansaço.
— O que você quer que eu faça? Quer que eu me ajoelhe?
— Não.
— Quer dinheiro?
Eu o encarei.
Aquilo me mostrou o quanto ele ainda estava preso ao antigo modo de pensar.
— É justamente por achar que tudo pode ser convertido em dinheiro ou poder que você chegou até aqui.
— Então me diga.
— Eu não quero nada de você agora. Quero distância e quero que o processo siga.
Ele ficou imóvel.
Depois soltou uma risada amarga.
— Você está satisfeita? Minha empresa está sangrando.
— Sua empresa está sendo obrigada a lidar com riscos que já existiam. Eu só parei de protegê-la desses riscos.
— É a mesma coisa.
— Não é.
Ele se aproximou da mesa.
— Você sabe quantas pessoas dependem do grupo?
— Sei. Por isso mantive suporte temporário para folha e contratos operacionais.
Gustavo ficou em silêncio.
Dessa vez, o silêncio tinha conteúdo.
Ele não sabia disso.
— Você fez isso?
— Fiz.
— Por quê?
— Porque meus problemas com você não transformam todos os funcionários em culpados.
Algo em seu rosto mudou.
Talvez ele tivesse esperado vingança total.
Talvez fosse mais fácil me odiar se eu tivesse agido como a caricatura que ele tentava construir.
— A investigação interna vai concluir que eu dei a ordem — disse.
— Porque você deu.
— E os seguranças vão confirmar.
— Provavelmente.
— Meu conselho pode me afastar.
— É uma consequência possível.
Ele puxou uma cadeira e sentou.
Foi a primeira vez, em muitos anos, que o vi parecer menor do que a posição que ocupava.
— Bianca disse que você a atacou.
— E você decidiu a sentença antes de perguntar qualquer coisa.
— Ela estava chorando.
— Eu também poderia ter chorado.
— Você nunca chora na minha frente.
A frase saiu quase como uma acusação.
— Talvez porque toda vez que eu estava ferida, você me tratava como se eu estivesse criando problema.
Ele baixou os olhos.
Ali aconteceu a primeira inversão real entre nós.
Gustavo não tinha resposta pronta.
Nem ameaça.
Nem ordem.
Quando se levantou para ir embora, falou:
— Eu ainda não aceito o divórcio.
— Você não precisa aceitar para eu querer sair.
Ele parou na porta.
— E se eu mudar?
Respirei fundo.
— Mude porque finalmente entendeu quem você se tornou. Não para me obrigar a voltar.
Gustavo foi embora sem responder.
Dois dias depois, o relatório preliminar da investigação interna confirmou que ele havia ordenado a agressão e que os seguranças haviam obedecido diante de funcionários.
O conselho convocou nova reunião.
Desta vez, o item principal da pauta não era liquidez.
Era a permanência de Gustavo na presidência.
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