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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

A venda da participação levou semanas.

Houve avaliações, propostas, ajustes e aprovação interna. Nada aconteceu com a velocidade dramática daquela primeira noite.

E eu gostei disso.

A vida real era feita desses processos lentos que ninguém aplaudia.

Passo a passo.

Documento por documento.

Até que um vínculo deixava de existir.

Quando Valter finalmente me entregou a confirmação da operação, li a primeira página e depois fechei a pasta.

— Acabou?

— Do ponto de vista econômico entre você e o Grupo Guimarães, sim.

A palavra trouxe um silêncio sereno.

Acabou.

Ainda restavam procedimentos do caso da agressão, mas não havia mais sociedade indireta, garantia, imóvel compartilhado, conta conjunta ou casamento.

Pela primeira vez em três anos, nenhuma decisão minha precisava considerar Gustavo.

Naquela mesma semana, recebi uma mensagem dele.

“Preciso entregar uma coisa que ficou comigo. Posso mandar por alguém.”

Perguntei o que era.

“A aliança da sua mãe.”

Meu corpo enrijeceu.

Eu a havia procurado por meses.

Era uma joia pequena, antiga, sem grande valor comercial, que minha mãe me dera antes do casamento. Eu a tirava algumas vezes para não danificar e devia tê-la deixado no cofre da antiga casa.

Respondi:

“Pode deixar com a Marina.”

Ele escreveu:

“Tudo bem.”

Não pediu encontro.

Não acrescentou nada.

Dois dias depois, Marina me entregou uma caixa pequena.

Dentro estava a aliança.

Junto dela, um papel dobrado.

Olhei para Marina.

— Você leu?

— Não.

Abri.

Havia apenas três linhas.

“Eu encontrei isso quando esvaziei o cofre. Sei que pertence a você. Não estou usando a devolução como desculpa para entrar na sua vida. Cuide-se.”

Nada mais.

Fechei o papel.

Foi, estranhamente, uma das primeiras atitudes dele que respeitavam exatamente o limite que eu havia pedido.

Não precisava responder.

E não respondi.

O processo relacionado à agressão chegou a uma etapa decisiva algumas semanas depois. Fui informada de que haveria uma audiência para formalizar depoimentos e avaliar os encaminhamentos cabíveis.

Na véspera, dormi mal.

Não por medo de Gustavo.

Por medo de voltar mentalmente àquele escritório.

Passei anos acreditando que força significava não demonstrar impacto.

Agora entendia que reconhecer o impacto também era uma forma de não ser controlada por ele.

Na audiência, Gustavo estava sentado do outro lado.

Não trocamos palavras antes de começar.

Quando chegou minha vez, descrevi o que aconteceu.

A ordem.

Os seguranças.

Os golpes.

A forma como fui impedida de me defender.

O sangue.

A ligação.

Não transformei meu depoimento em acerto de contas.

A pessoa responsável pela condução fez perguntas específicas.

Respondi apenas o que sabia.

Quando Gustavo falou, não negou.

Isso mudou o clima da sala.

— Eu dei a ordem — disse.

Sua voz parecia menor do que eu lembrava.

— Eu estava com raiva e usei minha posição para fazer uma coisa que não tinha direito de fazer.

Não olhei para ele.

— Eu não deveria ter feito isso independentemente do que eu acreditava que tinha acontecido antes.

A frase encerrou uma questão que, durante meses, parecera sempre cercada por justificativas.

O procedimento continuaria conforme as regras aplicáveis.

Não houve sentença instantânea.

Não houve martelo cinematográfico.

Mas Gustavo já não contestava o fato central.

Ao sairmos, ele pediu para falar comigo no corredor.

Olhei para Marina.

Ela permaneceu alguns metros atrás.

Gustavo parou diante de mim.

— Acho que esta é a última vez que precisamos nos ver por causa disso.

— Talvez.

— Eu queria agradecer por uma coisa.

Franzi a testa.

— Pelo quê?

— Por não ter usado tudo o que você tinha para acabar com cada parte da minha vida.

— Não fiz isso por você.

Ele assentiu.

— Eu sei.

— Fiz porque eu não queria me tornar alguém que precisasse destruir outra pessoa para conseguir seguir em frente.

Ele respirou fundo.

— Eu também sei que pedir desculpas não muda nada.

— Não muda o passado.

— Mas talvez mude o que eu faço daqui pra frente.

— Isso depende de você.

Ele me olhou por alguns segundos.

— Eu ainda sinto falta de você.

A honestidade doeu.

Mas já não me confundia.

— E eu ainda sinto falta de algumas coisas que tivemos.

Ele pareceu surpreso.

— Isso significa…

— Não.

Fui firme.

— Sentir falta não significa que devemos voltar. Significa apenas que existiram coisas boas dentro de uma relação que também me fez mal.

Gustavo abaixou a cabeça.

— Entendi.

Dessa vez, acreditei que tivesse entendido mesmo.

Quando saí do prédio, o céu estava limpo.

Marina caminhou ao meu lado até o estacionamento.

— Você está bem?

— Estou.

E estava.

Não porque tudo tivesse se tornado fácil.

Mas porque nenhuma conversa pendente era mais capaz de mudar minha decisão.

Na manhã seguinte, recebi a notícia de que o conselho do Grupo Guimarães convocaria uma assembleia para definir a estrutura permanente de gestão.

O nome de Gustavo não estava entre os indicados à presidência.

Ele sabia disso.

Eu também.

A última consequência importante daquela noite já não dependia de mim.

Dependia do que a própria empresa escolheria fazer com um homem que confundira autoridade com permissão.

E, pela primeira vez, eu podia assistir de longe.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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