
Eu inventava um marido para evitar problemas no trabalho, até ele começar a mandar presentes que eu nunca pedi
PARTE 1
Para evitar certas situações inconvenientes, eu tinha adquirido o hábito de dizer que era casada.
Funcionava bem. Ninguém insistia demais, ninguém fazia perguntas inconvenientes, e sempre que eu não queria fazer alguma coisa, bastava usar a mesma desculpa:
— Meu marido não deixa.
Até que, certo dia, fui fazer compras com minha colega Camila e me apaixonei por um vestido.
Era lindo.
O problema era o preço.
Enquanto a vendedora continuava tentando me convencer, olhei mais uma vez para a etiqueta e desisti.
— Melhor não. Meu marido não vai concordar. Se eu comprar, ele vai acabar me fazendo voltar aqui para devolver.
Falei aquilo como sempre falava: sem pensar.
No dia seguinte, porém, uma encomenda chegou para mim no escritório.
Quando abri a caixa, fiquei paralisada.
Era exatamente aquele vestido.
Camila arregalou os olhos e pegou o cartão que estava dentro da embalagem.
— “Esposa, se você gostou, então deve ter. Você merece todas as coisas boas.”
Ela virou o cartão e continuou:
— “Assinado: seu marido que ama você!”
Meu cérebro simplesmente parou.
Que marido?
Eu tinha inventado aquele homem.
Nunca tinha namorado seriamente ninguém na vida. Como poderia ter um marido?
Achei que Camila estivesse improvisando alguma brincadeira e arranquei o cartão da mão dela.
Mas as palavras estavam realmente escritas ali.
— Lívia, então você passa o tempo todo se exibindo de um jeito disfarçado? — Camila riu. — Vive dizendo que seu marido não deixa você fazer isso, não deixa comprar aquilo…
Ela apontou para o vestido.
— E isso aqui é o quê? Um vestido de quase trinta mil reais! Ele compra sem nem pensar!
Os outros colegas começaram a se aproximar.
— Então o marido da Lívia é rico desse jeito?
— Nunca imaginei!
O canto da minha boca endureceu.
Eu não fazia ideia do que responder.
Estava naquela empresa havia apenas três meses, mas a imagem de “mulher casada” já estava firmemente estabelecida.
Sempre que aparecia alguma coisa que eu não queria fazer, eu dizia:
— Meu marido não gosta.
Funcionava maravilhosamente.
A única pequena questão era que eu estava solteira desde que nasci.
Eu nunca sequer tinha andado de mãos dadas com um homem.
Então de onde tinha surgido aquele marido?
Olhei discretamente para o vestido.
Até o tamanho estava correto.
Quem tinha enviado aquilo?
Por um instante, minha autoestima exagerada tentou formular uma explicação.
Será que alguém gostava de mim em segredo?
Mas eu só tinha visto aquele vestido enquanto fazia compras com Camila.
A única pessoa que sabia que eu tinha gostado dele era ela.
Observei o rosto dela sem chamar atenção.
Nada parecia estranho.
Passei o resto daquele dia inquieta.
Quando saí do trabalho, liguei para a loja.
O vestido era caro demais. Certamente eles teriam alguma informação sobre o comprador.
A atendente ficou alguns segundos em silêncio antes de responder:
— Desculpe, senhora. Esse pedido foi feito de forma anônima. O cliente solicitou proteção dos dados pessoais, então não podemos fornecer as informações.
Anônimo?
Aquilo só tornava tudo mais estranho.
Fiquei muito tempo olhando para o vestido naquela noite.
Depois o enfiei no fundo do guarda-roupa.
Na manhã seguinte, Camila me perguntou:
— Lívia, por que você não veio com aquele vestido? Eu estava querendo descobrir como fica no corpo uma roupa de quase trinta mil reais.
Sorri sem graça.
— Uma coisa tão cara assim para vir trabalhar? Seria desperdício.
Na verdade, eu simplesmente não tinha coragem de vestir algo enviado por uma pessoa cuja identidade eu desconhecia.
Camila não insistiu.
Tentei me concentrar no trabalho.
Não demorou muito para a recepção me ligar.
— Lívia, chegou uma encomenda para você!
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Tive imediatamente uma sensação ruim.
Quando a caixa chegou à minha mesa e eu a abri, encontrei uma coleção completa de batons.
Ao lado, havia outro cartão.
A assinatura continuava a mesma:
“Seu marido que ama você.”
Camila soltou uma exclamação.
— Essa não é a coleção nova? Semana passada nós estávamos falando dela! Você disse que tinha gostado de várias cores!
Era verdade.
Naquela ocasião eu ainda tinha brincado:
— Minha vontade é comprar a coleção inteira, mas meu marido jamais deixaria. Ele vive dizendo que eu já tenho batom demais.
Camila balançou a cabeça, impressionada.
— Não deixaria? O homem acabou de comprar a coleção inteira! Lívia, afinal, quem é esse seu marido?
Quem era?
Eu também gostaria muito de saber.
Será que havia realmente alguém apaixonado por mim?
Se fosse isso, por que não aparecia e falava comigo diretamente?
Por que mandar presentes escondido?
E, principalmente, por que se apresentar como meu marido?
Minha cabeça estava uma confusão.
Guardei a caixa de batons na gaveta.
Camila percebeu.
— O que aconteceu? Você recebe um presente desses e nem fica feliz. Brigou com seu marido?
Sorri constrangida.
Camila interpretou meu silêncio como confirmação.
— Agora entendi por que ele está mandando tantos presentes nesses últimos dias. Meu Deus, com um marido generoso desses, por que vocês foram brigar?
Não respondi.
Anotei discretamente o código de rastreamento da encomenda.
Depois encontrei a loja na internet e entrei em contato com o atendimento.
A resposta chegou pouco depois:
“Olá! Esse pedido foi realizado de forma anônima e não temos autorização para fornecer informações sobre o comprador.”
Até compras pela internet podiam ser feitas daquele jeito?
Eu ainda estava pensando nisso quando a recepção ligou outra vez.
— Lívia, venha buscar suas flores!
Flores?
Que flores?
Levantei confusa.
Ao chegar à recepção, encontrei um entregador segurando um enorme buquê.
— A senhora é Lívia? Estas flores foram enviadas pelo seu marido.
Fiquei imóvel.
Quando finalmente consegui reagir, o entregador já estava indo embora.
Corri atrás dele.
— Com licença!
Ele parou.
— Posso perguntar quem fez o pedido?
O homem me olhou de um jeito estranho.
— Seu marido.
Balancei a cabeça depressa.
— Quero dizer… posso ver a conta da pessoa que comprou as flores?
Ele pareceu não entender muito bem a pergunta, mas acabou pegando o celular e mostrando a conversa referente ao pedido.
Como eu já esperava, o perfil do comprador estava praticamente vazio.
— Esse buquê custou quase mil e quinhentos reais — comentou o entregador. — E, além da corrida, seu marido ainda me deu uma ótima gorjeta.
Ele sorriu.
— A senhora tem sorte. Seu marido trata a senhora muito bem.
Devolvi o celular quase mecanicamente.
Forcei um sorriso.
Quando entrei novamente no escritório, meus colegas imediatamente me cercaram.
— Um buquê desse tamanho deve ter custado uma fortuna.
— Isso não é nada. O marido da Lívia comprou aquele vestido sem nem pensar!
— Tem um cartão aí. O que está escrito?
Só então percebi o pequeno cartão preso entre as flores.
Peguei-o.
“Esposa, não fique mais brava comigo.”
Quando li aquilo, minha mão tremeu.
Por pouco não deixei o buquê cair.
Meus colegas começaram a brincar.
— Lívia, com um marido desses, como você consegue brigar com ele?
— Eu queria um marido assim!
— Ele já está pedindo desculpas. Perdoa logo o homem.
As vozes se misturavam ao meu redor.
Eu mal conseguia ouvi-las.
Olhei apenas para Camila.
O vestido.
Os batons.
As frases que eu costumava dizer.
Camila sabia de tudo aquilo.
E, poucos minutos antes, ela tinha acabado de dizer que eu provavelmente havia brigado com meu “marido”.
Logo depois surgira um buquê dizendo exatamente:
“Não fique mais brava comigo.”
Será que Camila tinha descoberto que eu não era casada e estava fazendo uma brincadeira comigo?
Mas aqueles presentes custavam caro demais.
Quem gastaria tanto dinheiro apenas para pregar uma peça?
Pensei e repensei.
Não encontrei resposta alguma.
Depois do trabalho, fui para a casa do meu avô.
Eu precisava espairecer.
Ele havia preparado uma mesa cheia de comida.
Sentei perto dele e, como fazia desde pequena, fiquei segurando seu braço enquanto conversávamos.
Foi então que percebi uma coisa.
Ele não estava usando o aparelho auditivo.
— Vô, cadê seu aparelho?
Como sua audição era muito ruim, precisei repetir a pergunta.
Finalmente ele entendeu.
— Aquilo? Ontem fui pescar e acabei deixando cair no rio.
Ele fez um gesto despreocupado.
— Não tem problema, não.
Como não tinha problema?
Peguei o celular imediatamente e comecei a pesquisar aparelhos auditivos.
Passei bastante tempo comparando modelos e tentando descobrir quais eram os melhores.
Meu avô ficou ao meu lado reclamando:
— Compra qualquer um baratinho. Não precisa gastar dinheiro comigo.
Naquela noite, decidi não voltar para casa.
Dormi ali mesmo.
Na manhã seguinte, uma sequência de batidas na porta me acordou.
Saí do quarto ainda sonolenta.
Meu avô já estava abrindo a porta.
Do outro lado havia um entregador com uma caixa nas mãos.
— Bom dia. Preciso de uma assinatura para confirmar o recebimento.
Meu avô olhou para a embalagem e ficou surpreso.
— Minha neta, onde você comprou isso para chegar tão rápido?
Meu sono desapareceu imediatamente.
Caminhei depressa até a porta.
Olhei para a caixa.
Era um aparelho auditivo.
Exatamente o tipo de produto que eu estivera pesquisando na noite anterior.
Mas eu ainda não tinha comprado nada.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
O entregador ergueu a prancheta.
— Quem vai assinar o recebimento?
Obrigado por acompanhar até aqui 🙌📖 Isso é só o começo… A próxima parte já está nos comentários 👇🔥 Se você não encontrar, toque em “Ver todos os comentários” 💬✨














