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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Passei o restante daquela manhã reunindo tudo o que ainda tinha. Fotografei os cartões, os códigos das embalagens, os registros das conversas com as lojas e a etiqueta do aparelho auditivo que eu havia recusado. O vestido continuava guardado, os batons permaneciam fechados na gaveta e as flores já tinham sido descartadas, mas eu ainda tinha fotos suficientes para estabelecer uma sequência clara.

Camila me ajudou a colocar as datas em ordem. O vestido havia sido comprado depois de nossa ida ao shopping; os batons correspondiam a uma conversa ocorrida dias antes; as flores tinham chegado pouco depois da brincadeira sobre uma suposta briga; o aparelho auditivo fora despachado para a casa do meu avô depois da minha pesquisa daquela noite. Quanto mais olhávamos para a sequência, menos aquilo parecia coincidência.

Fui procurar o setor responsável pela segurança interna da empresa, mas tive cuidado com a forma como expliquei o problema. Não disse que “alguém da empresa estava me perseguindo”, porque eu ainda não sabia disso. Disse apenas que estava recebendo encomendas anônimas ligadas a conversas ocorridas no escritório e que minha conta pessoal havia ficado conectada no computador de trabalho.

A responsável ouviu tudo sem fazer piada. Perguntou se eu havia recebido ameaças, mensagens agressivas ou tentativas de contato direto. Respondi que não, e ela deixou claro que isso não tornava a situação irrelevante: presentes insistentes, enviados sem consentimento e associados à rotina de alguém, podiam justificar medidas preventivas.

Ela pediu que eu formalizasse o relato por escrito para que a empresa pudesse preservar registros de acesso e verificar se tinha ocorrido algum uso irregular do meu computador. Também me orientou a não confrontar colegas com base apenas em suspeitas. Saí dali aliviada por não ter sido tratada como exagerada.

Quando voltei para a mesa, encontrei Camila inquieta. Ela me contou que, pensando nas últimas semanas, lembrara de várias ocasiões em que falávamos sobre minha vida pessoal sem baixar a voz. Nosso setor era aberto, e gente de outras equipes passava o tempo inteiro pelo corredor.

A constatação não resolvia nada, mas corrigia uma ideia que eu tinha tratado como certeza: Camila não era necessariamente a única pessoa que podia saber de algumas conversas. No shopping, sim, ela era a única colega comigo. No escritório, porém, havia muitos ouvidos possíveis.

— E o vestido continua sendo o ponto mais estranho — ela disse.

Concordei. Se o remetente não fosse Camila, como poderia saber exatamente qual vestido eu tinha escolhido?

Liguei novamente para a loja, desta vez sem pedir a identidade do comprador. Perguntei apenas se o pedido tinha sido feito pelo site ou diretamente por alguma unidade física. A atendente explicou que não podia fornecer dados pessoais, mas confirmou que o vestido fora comprado pela internet e enviado para o endereço da empresa.

Aquilo eliminava uma hipótese simples: ninguém tinha precisado voltar à loja e perguntar sobre mim. O comprador já sabia marca, modelo, tamanho e provavelmente o código exato da peça.

Abri meu celular e procurei alguma coisa relacionada ao vestido. No histórico comum não havia pesquisa alguma. Então lembrei que, enquanto estávamos na loja, eu havia tirado uma foto da etiqueta para comparar o preço depois.

A foto ainda estava na galeria.

Meu estômago apertou.

Camila olhou para a tela.

— Você mandou isso para alguém?

— Não.

Verificamos nossas conversas e confirmamos que eu nem sequer tinha enviado a foto para ela. Aquela imagem havia ficado apenas no meu celular e, por causa do backup automático que eu usava, na minha conta de armazenamento em nuvem.

Isso ainda não provava que alguém tivesse acessado minhas fotos. Mas, pela primeira vez, tínhamos uma explicação possível para um detalhe que antes parecia inexplicável.

Entrei na página de segurança da conta e revisei os dispositivos conectados com mais cuidado. Havia meu celular, meu computador de casa e o navegador que eu usava no trabalho. Também aparecia um acesso recente associado ao computador da empresa em um horário em que eu tinha certeza de que já havia saído do escritório.

Senti um frio na barriga.

Camila imediatamente perguntou se aquilo era prova de que alguém usara meu computador. Respondi que não sabia. O horário podia estar relacionado à sincronização automática, a alguma atualização ou a outra explicação técnica.

Em vez de tirar conclusões, tirei capturas de tela e acrescentei ao arquivo que estava montando. Depois enviei a informação ao setor responsável pela apuração interna.

Naquele mesmo dia, a recepção me ligou.

Por um instante, achei que outra encomenda tivesse chegado.

Mas a funcionária disse apenas:

— Lívia, veio um entregador perguntar se você estava aqui. Como você pediu para não aceitarmos nada sem confirmar, nós não recebemos.

Meu coração acelerou.

— Ele deixou alguma coisa?

— Não. Levou de volta.

Perguntei se havia nome do remetente. Não havia.

A diferença, porém, era enorme.

Desta vez, o presente não tinha chegado até minha mesa.

A primeira barreira que eu havia colocado funcionara.

No fim do expediente, Camila comentou que eu parecia diferente.

— Diferente como?

— Antes você parecia estar tentando descobrir quem era seu “marido”. Agora parece estar tentando impedir que essa pessoa decida o que entra na sua vida.

Pensei naquela frase durante todo o caminho para casa.

Ela tinha razão.

E eu percebi outra coisa desconfortável: durante anos, eu havia inventado um marido justamente para evitar precisar dizer “não” em meu próprio nome. Agora alguém usava aquele marido imaginário para invadir meus limites.

Naquela noite, peguei uma caixa grande e coloquei dentro dela o vestido e os batons. Eu ainda não sabia se conseguiria devolvê-los sem a participação do comprador, mas decidi que não usaria nenhum dos presentes.

Eles deixaram de parecer luxo.

Para mim, eram apenas objetos que alguém havia colocado na minha vida sem pedir permissão.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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