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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Eu não estendi a mão para a prancheta. Em vez disso, perguntei ao entregador de onde vinha a encomenda e pedi alguns segundos para olhar a etiqueta sem abrir a caixa. O nome do destinatário era o meu, mas o endereço era o do meu avô.

Meu avô percebeu que havia alguma coisa errada e parou de sorrir. Expliquei ao entregador que eu não tinha feito aquela compra e perguntei se ele poderia registrar que eu não reconhecia o pedido. Ele respondeu que podia anotar a ocorrência e levar a encomenda de volta caso eu recusasse o recebimento.

Por alguns segundos, olhei para a caixa e pensei no meu avô sem conseguir decidir. Ele realmente precisava de um aparelho novo, mas aceitar aquilo significava continuar tratando como presente algo que já começava a me assustar. No fim, tirei uma foto da etiqueta e recusei a entrega.

— Você não comprou? — meu avô perguntou assim que fechamos a porta. Balancei a cabeça e, como ele continuava sem entender, sentei ao lado dele e contei desde o vestido até as flores. Quanto mais eu explicava, mais séria ficava a expressão dele.

Meu avô não romantizou a situação nem por um segundo. Disse apenas que alguém que dava presentes sem se identificar e sabia onde ele morava estava ultrapassando um limite. Aquela frase simples fez uma coisa que nenhum dos comentários dos meus colegas tinha conseguido fazer: transformou meu desconforto em preocupação concreta.

Peguei o celular e revi tudo. O vestido correspondia a algo que eu havia dito perto de Camila, os batons também, as flores tinham aparecido depois de uma conversa no escritório e agora o aparelho auditivo surgira poucas horas depois de uma pesquisa que eu fizera na casa do meu avô. Pela primeira vez, deixei de perguntar “quem gosta de mim?” e passei a perguntar “quem está acompanhando o que eu faço?”.

Naquela manhã, alterei as senhas do meu e-mail, das redes sociais e das principais contas de compras. Ativei verificação em duas etapas onde ainda não usava e encerrei sessões abertas em aparelhos que não reconheci de imediato. Não encontrei nenhuma resposta pronta, mas percebi que tinha deixado minha conta pessoal conectada no navegador do computador que usava no trabalho.

Aquilo não provava nada. Eu mesma sabia que uma sessão aberta não significava automaticamente que alguém estivesse espionando minha vida. Ainda assim, encerrei o acesso remotamente e decidi que, a partir daquele momento, minhas contas pessoais não ficariam conectadas em equipamento da empresa.

Antes de voltar para casa, liguei para Camila. Disse que precisava conversar com ela pessoalmente no dia seguinte e pedi que não comentasse com ninguém. Ela percebeu pela minha voz que não se tratava de uma brincadeira e concordou sem fazer perguntas.

Na manhã seguinte, chegamos mais cedo ao escritório e fomos para uma sala vazia. Respirei fundo e contei a verdade: eu não tinha marido, nunca tivera e havia inventado aquele personagem porque achava mais fácil colocar a responsabilidade das minhas recusas sobre um homem imaginário. Camila levou alguns segundos para entender.

Depois veio a incredulidade. Depois, o riso curto de quem não sabia se ria ou ficava preocupada. Por fim, ela olhou para mim e perguntou por que eu não tinha contado isso antes, principalmente depois do primeiro presente.

Admiti que cheguei a desconfiar dela. Camila perdeu o sorriso, claramente magoada, mas não levantou a voz. Disse que entendia por que eu tinha pensado nela, já que estava comigo na loja, porém jurou que não havia enviado nada.

Em vez de continuarmos discutindo sobre confiança, começamos a reconstruir os acontecimentos. Camila tentou lembrar quem estava por perto quando conversávamos sobre os batons e quem tinha ouvido as brincadeiras sobre meu suposto marido. Anotamos nomes, horários aproximados e lugares, sem transformar suspeitas em acusações.

No mesmo dia, fui até a recepção e pedi que nenhuma nova encomenda pessoal fosse aceita em meu nome sem que me chamassem antes. Também pedi que guardassem, se possível, os registros das entregas anteriores. Pela primeira vez desde que o vestido tinha chegado, eu sentia que estava fazendo alguma coisa além de reagir.

Quando voltei à minha mesa, Camila aproximou a cadeira e falou baixo. Ela havia percebido um detalhe que nós duas ignoráramos até então: quem enviava os presentes não estava apenas escolhendo coisas de que eu gostava. Estava respondendo às frases que eu dizia quase como se participasse das conversas.

Olhei para o computador à minha frente. Depois, para o celular. O problema já não parecia ser um admirador escondido, e eu decidi que não trataria mais aquilo como uma história engraçada sobre um “marido generoso”.

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