
PARTE 5
Naquela tarde, o setor de segurança pediu que eu fosse novamente até a sala de reuniões. Quando entrei, havia duas pessoas do RH e a responsável que já acompanhava meu relato. Elas foram cuidadosas ao explicar que ainda não havia conclusão definitiva, mas alguns fatos precisavam ser esclarecidos comigo.
O funcionário do suporte que aparecia com frequência nos registros havia participado da configuração da minha estação quando fui contratada. Durante aquele atendimento, ele tivera acesso administrativo ao computador, algo normal para determinadas tarefas técnicas. O problema era que, depois disso, não existia motivo registrado para algumas das visitas dele à minha área.
O nome dele era Daniel.
Quando ouvi, a lembrança voltou aos poucos.
Era um homem de outra equipe, alguns anos mais velho do que eu, que eu havia visto várias vezes pelos corredores. Não tínhamos amizade, não almoçávamos juntos e eu não conseguia me lembrar de uma conversa pessoal entre nós.
Isso tornava tudo ainda mais desconcertante.
— Ele admitiu usar meu computador? — perguntei.
Disseram que não.
Daniel afirmara que passava pelo setor por demandas de colegas e negara ter acessado minha conta pessoal. Por isso, a empresa não pretendia tratar a presença dele como prova.
Em vez de me decepcionar, aquela resposta reforçou minha decisão de não transformar suspeita em certeza.
Perguntei o que podia ser verificado objetivamente.
A equipe técnica explicou que minha estação mantinha registros locais de determinados acessos e que eles estavam examinando horários, contas utilizadas e alterações feitas no navegador. Algumas informações já tinham sido perdidas pelo tempo, mas outras ainda existiam.
Nos dias seguintes, trabalhei normalmente, embora “normalmente” já significasse outra coisa para mim.
Eu passei a bloquear a tela sempre que levantava, mesmo para pegar água. Não deixava o celular sobre a mesa. Parei de comentar detalhes pessoais em voz alta no escritório.
No começo, isso me pareceu liberdade.
Depois percebi que também era uma espécie de prisão.
Eu não queria que a pessoa responsável pelo que estava acontecendo definisse para sempre a forma como eu conversava, trabalhava ou me relacionava com os outros.
Conversei sobre isso com Camila.
— Então não muda sua vida inteira — ela disse. — Muda só o que você realmente acha que deve mudar.
Era uma frase simples, mas me ajudou.
Segurança não precisava significar medo permanente.
A empresa conseguiu recuperar um dado importante alguns dias depois. Em um dos horários em que eu já tinha saído, meu navegador fora aberto e uma página ligada ao armazenamento de fotos tinha sido acessada. Não era possível afirmar, apenas com aquilo, que alguém havia visto a foto do vestido, mas o acesso ocorrera na mesma semana da compra.
Além disso, havia um registro de autenticação administrativa relacionado a uma credencial técnica usada pelo suporte.
Daniel não era a única pessoa que poderia utilizar credenciais daquele tipo.
Mas o círculo diminuía.
O RH então perguntou se eu me lembrava de ele ter demonstrado interesse por mim ou feito comentários sobre meu casamento.
Pensei bastante antes de responder.
Havia uma lembrança pequena.
Pouco depois de eu entrar na empresa, Daniel havia passado perto da copa quando Camila perguntou se meu “marido” não ficava incomodado com meus horários. Eu respondi alguma coisa parecida com:
— Ele já está acostumado.
Daniel estava por perto.
Eu não tinha certeza se ouvira.
Foi tudo o que consegui oferecer.
A polícia, por sua vez, avançava por outro caminho. Com os registros das encomendas e das empresas envolvidas, começou a solicitar preservação das informações de pagamento e cadastro associadas aos pedidos. Disseram que esses dados não seriam simplesmente entregues a mim, e eu aceitei.
Eu já tinha aprendido a diferença entre querer uma resposta e ter direito a todos os dados de outra pessoa.
Enquanto a investigação seguia, nenhuma nova encomenda apareceu.
A ausência passou de alívio para informação.
Os presentes tinham parado exatamente depois que bloqueei a recepção, troquei minhas senhas e comuniquei formalmente a empresa.
Não provava quem enviava.
Mas mostrava que o comportamento podia ser interrompido quando eu colocava barreiras.
Também enfrentei outra consequência prática: o vestido e os batons continuavam comigo.
Consegui falar novamente com as lojas e expliquei que eram objetos vinculados a uma situação que estava sendo apurada. Uma delas orientou que eu preservasse o produto enquanto o caso estivesse aberto. A outra informou que qualquer devolução financeira teria de ser vinculada ao comprador original.
Então guardei tudo fechado.
Não como lembrança.
Como material relacionado ao caso.
Foi nesse período que comecei a sentir vergonha da forma como eu havia construído a personagem do “marido”.
Não porque inventar um casamento tivesse causado aquilo — a responsabilidade pelos presentes continuava sendo de quem os enviava —, mas porque eu finalmente percebia por que tinha criado aquela mentira.
Era mais fácil dizer:
“Meu marido não deixa.”
Do que:
“Eu não quero.”
Mais fácil atribuir uma decisão a um homem imaginário do que correr o risco de parecer antipática, difícil ou pouco colaborativa.
Um dia, meu chefe pediu que eu assumisse uma tarefa fora do meu horário habitual.
Minha resposta automática quase saiu.
“Meu marido…”
Parei no meio.
Respirei.
— Hoje eu não consigo ficar depois do horário. Posso terminar isso amanhã cedo ou podemos redistribuir a demanda.
Ele pensou por dois segundos.
— Amanhã cedo está bom.
Foi só isso.
Ninguém exigiu explicações sobre minha vida conjugal.
Ninguém me puniu.
Ninguém sequer pareceu achar estranho.
Voltei para minha mesa quase rindo de mim mesma.
Durante tanto tempo eu tinha criado um personagem inteiro para sustentar uma palavra que cabia em uma frase.
Naquela mesma tarde, o RH me chamou outra vez.
Desta vez, havia um desenvolvimento mais sério.
A equipe técnica encontrara registros suficientes para concluir que uma credencial associada diretamente ao perfil de Daniel fora usada em minha estação fora de uma solicitação de suporte.
Ele ainda poderia apresentar uma explicação.
Mas a situação deixara de ser apenas coincidência de presença.
A empresa decidiu afastá-lo temporariamente do acesso aos sistemas enquanto terminava a apuração.
Quando saí da sala, senti minhas pernas fracas.
Camila percebeu.
— É ele?
Olhei para ela.
— Ainda não sei se foi ele quem mandou os presentes.
E, apesar da vontade enorme de finalmente colocar um nome em tudo aquilo, mantive a frase exatamente assim.
Ainda não sei.
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