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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

Nos dias seguintes, nenhuma nova encomenda apareceu na minha mesa. Isso me trouxe certo alívio, mas não tranquilidade. Eu sabia que a ausência de presentes não significava necessariamente que o problema tivesse acabado; podia significar apenas que quem os enviava havia percebido que eu começara a resistir.

A empresa iniciou a verificação do meu computador e dos registros disponíveis. Ninguém me prometeu uma resposta rápida, e isso, curiosamente, me deu mais confiança no processo. Depois de tudo o que vinha acontecendo, eu já não queria soluções milagrosas.

Enquanto isso, fui até uma delegacia registrar formalmente o que estava acontecendo. Levei as fotos, os comprovantes das tentativas de contato com as lojas, os cartões e a cronologia que Camila e eu tínhamos organizado. Expliquei que não havia ameaça explícita, mas que alguém parecia conhecer conversas, preferências e até uma pesquisa feita enquanto eu estava na casa do meu avô.

O policial que recebeu meu relato fez várias perguntas sobre pessoas próximas, antigos relacionamentos e conflitos recentes. A resposta para “ex-namorado” foi quase constrangedora: não existia. Tive de explicar novamente que o marido mencionado nos cartões também não existia.

Ele não riu.

Isso me fez perceber como aquela história mudava de aparência dependendo de quem a ouvia. Para os colegas, um marido misterioso comprando presentes caros parecia uma fantasia romântica. Quando descrita como uma pessoa anônima acompanhando hábitos privados e enviando objetos para endereços diferentes, a mesma situação ganhava outro peso.

Registrei a ocorrência e fui orientada a preservar tudo. A polícia poderia solicitar informações às empresas responsáveis pelas vendas caso houvesse base suficiente para a investigação. Eu não teria acesso imediato à identidade do comprador, mas pelo menos as compras deixavam de depender apenas da boa vontade dos atendimentos ao consumidor.

Na empresa, a análise técnica trouxe uma descoberta limitada, mas importante. Minha conta pessoal realmente ficara ativa no navegador do computador por semanas. Além disso, havia registro de uso da estação depois do meu horário de saída em pelo menos duas ocasiões.

Aquilo não dizia quem havia usado o computador.

Nosso andar tinha equipes que trabalhavam em horários diferentes, limpeza, manutenção e pessoal de suporte. A responsável pela segurança interna insistiu que ainda seria errado acusar alguém.

Eu concordei.

Meses antes, talvez eu tivesse preenchido as lacunas com qualquer explicação mais dramática. Agora eu queria fatos.

No mesmo período, Camila e eu conversamos sobre a suspeita que eu tivera dela. Ela ainda estava magoada, e tinha razão.

— Eu entendo você ter desconfiado — disse ela. — Só não gostei de perceber que você estava me observando sem falar nada.

— Eu devia ter perguntado diretamente.

— Devia.

Pedi desculpas sem tentar justificar demais.

Camila aceitou, mas nossa relação não voltou ao normal instantaneamente. Foi uma consequência que eu precisei aceitar: medo também podia ferir pessoas quando eu o transformava em suspeita silenciosa.

Na semana seguinte, a empresa informou que revisaria imagens das áreas comuns e registros de acesso físico aos setores, dentro do que era legalmente permitido. Não havia câmera apontada para minha mesa, e fiquei até aliviada com isso. Eu não queria trocar uma invasão de privacidade por outra.

O objetivo era verificar quem permanecera no andar nos horários em que minha estação aparecia ativa.

Ao mesmo tempo, troquei completamente minha rotina digital. Criei um perfil separado para trabalho, removi dados pessoais do computador da empresa e revisei permissões dos aplicativos instalados no celular. Nada disso revelava o culpado, mas reduzia a quantidade de informação disponível fora do meu controle.

Meu avô também entrou na nova rotina, embora reclamasse.

Eu mesma comprei um aparelho auditivo para ele alguns dias depois. Não escolhi o mais caro, nem o mais sofisticado que tinha pesquisado naquela primeira noite. Levei-o para uma avaliação adequada e comprei um modelo recomendado para a necessidade dele.

Quando entreguei o aparelho, meu avô sorriu.

— Esse eu posso usar?

— Esse pode.

Ele riu.

Aquela pequena compra teve um significado estranho para mim. O objeto que o remetente anônimo tentara transformar em demonstração de intimidade voltou a ser o que deveria ser: uma decisão minha para alguém que eu amava.

Na sexta-feira daquela semana, recebi uma chamada do setor de segurança.

Havia um padrão nos registros.

Nos dois horários em que minha estação aparecia ativa depois da minha saída, um funcionário de outra equipe permanecera no andar por algum tempo. Não era prova de que ele tivesse usado meu computador, porque outras pessoas também tinham acesso à área.

Mas havia mais.

O mesmo funcionário aparecia entrando no setor em outros dias nos quais não tinha uma justificativa operacional evidente.

A responsável não me deu o nome imediatamente.

Disse que a empresa ainda precisava ouvi-lo antes de associá-lo ao caso.

Meu primeiro impulso foi insistir.

Meu segundo impulso foi perceber que, durante semanas, eu havia sofrido justamente porque alguém parecia agir como se tivesse direito de ultrapassar limites.

Então aceitei esperar pelo procedimento correto.

Na segunda-feira, fui trabalhar tentando prestar atenção em todo mundo sem transformar cada rosto em suspeito.

Foi mais difícil do que imaginei.

No final da manhã, Camila voltou do café e se aproximou de mim.

— A segurança chamou um rapaz do suporte para conversar.

Olhei para ela.

— Como você sabe?

— Eu vi ele entrando na sala.

Meu peito apertou.

O suporte.

A equipe que tinha ajudado a configurar os computadores quando eu entrei na empresa três meses antes.

Pela primeira vez, uma lembrança ganhou importância.

Na minha primeira semana, eu tivera problemas para acessar algumas ferramentas. Um funcionário do suporte passara quase uma hora mexendo na minha estação.

Na época, eu não tinha dado atenção nenhuma ao rosto dele.

Agora, tentei lembrar.

Não consegui.

E isso me perturbou ainda mais.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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