
PARTE 6
O afastamento de Daniel provocou comentários no escritório, mas o RH não divulgou detalhes. Isso acabou me colocando em uma situação desconfortável: eu sabia que parte do assunto tinha relação comigo, mas também sabia que não deveria transformar corredores e grupos de mensagens em tribunal.
Camila respeitou isso.
Quando colegas perguntavam se eu sabia de alguma coisa, eu respondia apenas que não tinha informação para compartilhar.
Curiosamente, aquela foi outra ocasião em que meu antigo “marido” poderia ter servido de desculpa.
Eu poderia dizer que ele não gostava que eu falasse do assunto.
Em vez disso, passei a dizer simplesmente:
— Prefiro não comentar.
A frase funcionava.
Era quase irritante descobrir o quanto tantas coisas podiam ser simples.
Enquanto a empresa continuava sua apuração, fui chamada para complementar o registro na delegacia. Algumas das plataformas utilizadas nas compras tinham respondido aos pedidos de preservação de dados.
O investigador explicou que não podia detalhar tudo naquele momento, mas havia correspondência entre mais de uma compra e uma mesma origem de pagamento.
Não era um conjunto de admiradores.
Provavelmente era uma única pessoa.
Perguntei imediatamente se aquela pessoa era Daniel.
Ele respondeu que ainda precisava cruzar as informações de forma adequada.
Dessa vez, não insisti.
A espera continuava difícil, mas eu começava a entender que uma investigação real era construída por peças pequenas, não por uma revelação cinematográfica.
Dias depois, a empresa concluiu uma parte da análise interna.
Daniel admitiu ter acessado minha estação fora do horário de atendimento.
A justificativa dele era que havia retornado para verificar uma configuração que poderia causar problemas no dia seguinte.
O setor técnico, porém, não encontrou chamado aberto nem procedimento que sustentasse aquela versão.
Também confirmou que páginas pessoais tinham sido abertas durante o período.
Isso, por si só, já representava uma violação grave das regras internas.
Independentemente de ele ter comprado os presentes ou não, havia uma questão profissional concreta.
A empresa manteve seu afastamento enquanto avaliava as medidas disciplinares.
Ao ouvir aquilo, senti algo diferente do alívio que eu esperava.
Senti raiva.
Não uma raiva explosiva.
Uma raiva muito clara.
Aquelas semanas tinham sido cheias de gente dizendo que eu devia me sentir sortuda.
Um vestido caro.
Batons caros.
Flores enormes.
Um aparelho auditivo.
Tudo parecia generosidade quando ninguém perguntava se eu queria receber.
Mas alguém havia usado acesso que não deveria ter para olhar partes da minha vida que eu não havia oferecido.
Nenhum preço transformava isso em cuidado.
Conversei longamente com meu avô naquela noite.
Com o aparelho novo, ele me ouvia melhor e interrompia menos para pedir que eu repetisse.
Quando terminei, ele disse:
— Tem gente que acha que fazer uma coisa boa dá direito de fazer uma coisa errada.
Fiquei olhando para ele.
— E não dá?
— Se desse, todo mundo comprava o direito de invadir a vida dos outros.
Era exatamente isso.
Os presentes caros tinham confundido todo mundo porque pareciam criar uma dívida emocional.
Se alguém gastava muito, então eu deveria ficar agradecida.
Se alguém se esforçava, eu deveria achar romântico.
Se alguém dizia “esposa”, talvez eu devesse rir.
Mas eu não tinha pedido nada daquilo.
Pouco depois, surgiu um avanço que ligava as duas investigações.
Os dados associados a duas compras apontavam para um meio de pagamento cujo titular correspondia a Daniel.
A informação chegou a mim por meio do procedimento oficial, sem que ninguém me entregasse dados bancários ou documentos desnecessários.
Naquele momento, a principal dúvida deixou de existir.
Daniel estava ligado aos presentes.
Ainda havia detalhes a esclarecer, inclusive como conseguira todas as informações e se tinha acessado outros dados meus.
Mas o “marido” finalmente tinha um rosto.
Quando contei a Camila, ela ficou em silêncio por um longo tempo.
— Ele mal falava com você.
— Eu sei.
Talvez essa fosse a parte mais difícil de compreender.
Eu havia imaginado que, se existisse um admirador, seria alguém próximo.
Alguém com quem eu tivesse uma história.
Daniel parecia ter criado uma intimidade sozinho.
Mais tarde, soube que, durante a apuração interna, ele reconhecera ter ouvido repetidas vezes minhas brincadeiras sobre o marido.
Segundo o relato apresentado ao RH, aquilo começara como curiosidade.
Depois ele percebeu, a partir de informações que acessara indevidamente, que não existiam sinais de um marido em minhas contas e comunicações.
A conclusão que tirou foi absurda: decidiu “entrar na brincadeira”.
Não havia brincadeira.
Pelo menos não para mim.
O vestido fora o primeiro teste.
Como não recebeu reação direta minha, interpretou o silêncio como espaço para continuar.
Depois vieram os batons.
As flores.
E, por fim, o aparelho auditivo.
Perguntei como ele soubera do meu avô.
A resposta veio da análise técnica.
Durante os acessos indevidos, Daniel visualizara histórico sincronizado e informações associadas à minha conta. A pesquisa daquela noite apareceu pouco antes de ele fazer a compra.
Aquilo me deixou enjoada.
Não porque houvesse ali algum segredo extraordinário.
Justamente o contrário.
Era minha vida comum.
Minhas fotos.
Minhas pesquisas.
Minhas pequenas preocupações.
Coisas que pareciam insignificantes até o momento em que alguém decidia observá-las sem permissão.
A empresa informou que eu não precisaria ter qualquer contato com Daniel durante o restante do processo interno.
Aceitei.
Eu não queria uma conversa para “entender o lado dele”.
Já entendia o suficiente.
Ainda assim, havia uma decisão que eu precisava tomar.
A investigação policial podia continuar, ou eu poderia simplesmente esperar a empresa resolver a parte trabalhista e tentar esquecer tudo.
Durante uma noite inteira, pensei nisso.
Na manhã seguinte, voltei à delegacia e confirmei que queria prosseguir com o registro e com as medidas cabíveis.
Não por vingança.
Porque aquilo não era uma história sobre presentes que eu não tinha gostado.
Era uma história sobre limites que alguém decidira não respeitar.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














