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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Quando a minuta final do acordo chegou ao meu e-mail, li tudo duas vezes antes de enviar para Renata. Meses antes, eu teria encaminhado o documento para Marcelo e perguntado se estava certo. Agora eu sabia exatamente o que significavam os valores, quais bens permaneceriam comigo, quais seriam vendidos e como seria feita a compensação entre nós.

Não consegui deixar de pensar no contraste.

Eu havia começado aquela história sentada num hospital, esperando que meu marido me dissesse o que estava acontecendo com meu próprio corpo.

Agora ninguém assinava nada em meu nome.

A data do cartório foi marcada para duas semanas depois.

Quando recebi a confirmação, fechei o computador e fiquei imóvel.

Era isso.

Depois de mais de vinte anos, nosso casamento terminaria oficialmente numa manhã de terça-feira.

Não chorei naquele momento.

O choro veio à noite, enquanto eu arrumava uma gaveta e encontrei uma pulseira que Marcelo me dera no nascimento de Luiza.

Sentei no chão do quarto.

Segurei a pulseira nas mãos.

Chorei pela jovem que fui.

Pelo homem que ele foi.

Pela família que construímos.

E também pela mulher que demorou tanto para aceitar que uma história pode ter sido verdadeira e ainda assim chegar ao fim.

No dia seguinte, liguei para Luiza.

Ela perguntou se eu queria que viesse ao cartório.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Posso ficar esperando do lado de fora.

Ri.

— Você parece segurança de celebridade.

Ela riu também.

Depois ficou séria.

— Mãe, eu só não quero que você passe por isso sozinha.

— Eu não vou estar sozinha.

— A doutora Renata não conta.

— Conta, sim.

Fiz uma pausa.

— Mas, além disso, existe uma diferença entre estar sozinha e estar desamparada.

Luiza ficou quieta.

— Eu não estou desamparada.

Ela entendeu.

Naquela mesma semana, comecei a pensar no apartamento.

Pelo acordo, eu poderia permanecer ali.

Durante muito tempo, achei que isso seria importante. Era a casa onde Luiza crescera, onde meus móveis estavam, onde cada parede guardava uma lembrança.

Mas comecei a perceber que não queria permanecer ali apenas por medo de mudar.

Passei uma tarde visitando dois apartamentos menores.

Não tomei decisão imediata.

Apenas quis saber que havia outras opções.

Um deles tinha uma varanda pequena voltada para árvores.

Fiquei ali por alguns minutos imaginando uma mesa, duas cadeiras e vasos de plantas.

Não era uma fuga.

Era possibilidade.

Quando contei a Renata, ela perguntou:

— Você quer vender o apartamento atual?

— Talvez.

— Não precisa decidir agora.

Sorri.

— Eu sei.

Era uma das frases mais libertadoras que eu havia aprendido.

Não preciso decidir agora.

Durante o casamento, eu sempre sentia que escolhas importantes precisavam ser fechadas rapidamente para evitar conflito.

Agora eu podia pensar.

O nascimento do filho de Marcelo aconteceu poucos dias antes da data do divórcio.

Luiza me contou.

Não me mostrou fotografias.

Não perguntei.

Ela apenas disse:

— Nasceu saudável.

Respirei fundo.

— Que bom.

Minha filha me observou pela chamada de vídeo.

— Você está bem?

— Estou.

E estava.

Não senti a facada que imaginara.

Talvez porque aquele bebê já existisse na minha cabeça havia meses.

Talvez porque, para mim, o fim não começara no nascimento dele.

Começara no recibo caindo do bolso de Marcelo.

Dois dias depois, recebi uma mensagem do meu marido.

Ainda era estranho chamá-lo assim.

“Ele nasceu. Está tudo bem.”

Pensei antes de responder.

“Espero que seja saudável e que você seja um bom pai.”

Marcelo digitou por muito tempo.

Depois apareceu apenas:

“Obrigado.”

Nada mais.

Foi suficiente.

Na véspera do cartório, ele pediu para falar comigo uma última vez.

Aceitei uma ligação.

Marcelo disse que não queria discutir o acordo.

Queria apenas me perguntar se minha decisão era definitiva.

— É.

— Mesmo agora?

— Especialmente agora.

Houve silêncio.

— Eu continuo pensando em tudo que devia ter feito diferente.

— Espero que pense.

— Isso parece cruel.

— Não estou dizendo para você sofrer.

Respirei.

— Estou dizendo para aprender.

Marcelo ficou calado.

Depois perguntou:

— Você acha que eu destruí nossa família?

A pergunta me incomodou porque exigia uma resposta simples para algo complexo.

— Você destruiu nosso casamento como ele existia.

— Não é a mesma coisa?

— Não.

Olhei para uma fotografia de Luiza sobre a estante.

— Nós continuamos sendo pais dela. Você continuará sendo pai dela. Eu continuarei sendo mãe. A forma mudou.

Marcelo chorou do outro lado da linha.

— Eu perdi você.

— Perdeu a possibilidade de continuar casado comigo.

A diferença importava.

— Sua vida não acabou, Marcelo.

Ele respirou fundo.

— A sua também não.

Sorri.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

Depois de desligar, caminhei pela casa apagando as luzes.

No corredor, parei diante do quarto de hóspedes onde Marcelo passara aquelas últimas noites antes de sair.

A porta estava aberta.

O quarto vazio.

Não senti triunfo.

Apenas encerramento.

Na manhã seguinte, escolhi uma roupa simples, coloquei os documentos na bolsa e saí.

Do lado de fora, o céu de São Paulo estava cinza.

Entrei no carro por aplicativo e disse o endereço do cartório.

Enquanto atravessávamos a cidade, percebi que minhas mãos estavam completamente firmes.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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