
PARTE 10
Marcelo já estava no cartório quando cheguei.
Vestia uma camisa azul que eu conhecia bem. Durante anos, fui eu quem a separava depois de passar roupa. A lembrança surgiu sem aviso, mas desapareceu quase tão rápido quanto veio.
Renata me esperava perto da entrada.
O advogado de Marcelo também estava ali.
Cumprimentamo-nos com educação.
Marcelo olhou para mim durante alguns segundos.
— Você está bem?
— Estou.
Dessa vez, a resposta não era automática.
Nós nos sentamos enquanto conferiam os documentos.
O procedimento era simples porque o acordo já estava pronto, mas nada naquele momento parecia pequeno.
Cada assinatura encerrava formalmente uma parte da vida que construí durante décadas.
Renata revisou comigo mais uma vez os pontos principais.
Bens.
Valores.
Responsabilidades.
Eu acompanhei tudo.
Quando o tabelião colocou a escritura diante de mim, li antes de assinar.
Marcelo observava em silêncio.
Peguei a caneta.
Minha mão não tremeu.
Assinei.
Depois empurrei o documento para o lado.
Marcelo recebeu a caneta.
Ficou alguns segundos olhando para o espaço onde deveria colocar o nome.
Então assinou também.
Foi só isso.
Nenhum trovão.
Nenhuma música.
Nenhuma sensação cinematográfica.
Apenas tinta sobre papel.
Mais de vinte anos transformados, juridicamente, em um casamento que existiu e terminou.
Quando saímos da sala, os advogados se afastaram por alguns minutos para resolver cópias.
Marcelo e eu ficamos perto de uma janela.
Ele parecia querer dizer alguma coisa.
Esperei.
— Então acabou.
— Sim.
— Eu achei que sentiria diferente.
— Diferente como?
Ele deu um sorriso triste.
— Não sei. Talvez eu esperasse que, no último segundo, alguma coisa mudasse.
Olhei para ele.
— Alguma coisa mudou.
Marcelo ergueu os olhos.
— Eu mudei de decisão muitas vezes durante nossa vida. Mudei de emprego, mudei planos, voltei atrás em discussões. Mas desta vez não.
Ele assentiu lentamente.
— Você está diferente.
— Talvez eu apenas esteja mais presente na minha própria vida.
Marcelo desviou o olhar para a rua.
Depois disse:
— Eu queria te pedir desculpas sem tentar conseguir nada em troca.
Esperei.
— Pelo caso. Pela mentira. Pelo dinheiro. Pelo hospital.
Sua voz falhou.
— Principalmente pelo hospital.
Senti meu peito apertar.
Ele continuou:
— Você estava com medo e eu devia ter ficado do seu lado. Em vez disso, pensei em como aquela situação afetava tudo que eu escondia. Eu nunca vou conseguir mudar isso.
— Não.
— Eu sei.
Respirou fundo.
— Mas sinto muito.
Olhei para aquele homem.
Durante meses, imaginei essa conversa de dezenas de maneiras. Em algumas, eu gritava. Em outras, ele se ajoelhava. Às vezes eu sonhava que conseguia dizer uma frase perfeita capaz de fazê-lo sentir exatamente a dor que provocara.
Na realidade, não havia frase perfeita.
— Eu acredito que você sente muito — respondi.
Marcelo me encarou.
— Isso significa que você me perdoa?
Pensei.
— Significa apenas que acredito que você sente muito.
Ele aceitou.
Talvez aquela fosse a primeira vez em muito tempo que não tentou transformar meus sentimentos em uma solução para os problemas dele.
Perguntou se eu pretendia continuar no apartamento.
— Ainda estou decidindo.
— Luiza falou que você viu outros lugares.
Sorri.
— Claro que falou.
Marcelo sorriu também.
Por alguns segundos, éramos duas pessoas que conheciam a mesma filha teimosa.
Depois o sorriso desapareceu.
— Ela ainda está distante comigo.
— Dê tempo a ela.
— Você acha que ela vai me perdoar?
— Isso é entre vocês.
Ele assentiu.
— Você sempre dizia que eu devia conversar mais com ela.
— Talvez agora você comece.
Os advogados voltaram.
Recebemos nossas cópias.
Renata me perguntou se eu queria ir embora.
Antes de sair, Marcelo chamou meu nome.
Virei.
— Helena.
— Oi.
Ele hesitou.
— Obrigado pelos anos bons.
A frase me pegou desprevenida.
Respirei.
— Também tivemos muitos.
Não acrescentei “apesar de tudo”.
Não precisava.
Saí do cartório.
Renata caminhou comigo até a calçada.
— Quer tomar um café?
Olhei para o relógio.
— Hoje não.
— Algum compromisso?
Pensei no apartamento de varanda pequena que eu visitaria novamente naquela tarde.
— Tenho.
Ela sorriu e se despediu.
Chamei um carro.
No caminho, Luiza ligou.
— E aí?
— Acabou.
Ela ficou quieta.
Depois perguntou:
— Você está chorando?
Toquei o rosto.
Só então percebi que havia lágrimas.
— Um pouco.
— Quer que eu vá para São Paulo?
Comecei a rir.
— Não.
— Mãe…
— Eu estou bem, Luiza.
Dessa vez, ela não insistiu.
— Tenho orgulho de você.
Fechei os olhos.
— Eu também tenho orgulho de mim.
Nunca tinha dito aquilo em voz alta.
Naquela tarde, voltei ao apartamento que havia visitado.
A corretora abriu a porta da varanda.
O lugar não era luxuoso. Era menor que minha casa atual, e eu precisaria vender ou doar alguns móveis.
Mas havia luz.
Fiquei olhando as árvores.
Imaginei minhas fotografias numa parede.
Livros em outra.
Uma mesa para Luiza quando viesse me visitar.
Talvez eu comprasse aquele apartamento.
Talvez escolhesse outro.
O importante era que eu não precisava decidir pensando no que Marcelo preferiria.
Algumas semanas depois, optei por colocarmos o antigo apartamento à venda conforme as condições previstas no acordo. A decisão não foi fácil, mas era minha.
Até a conclusão da venda, continuei morando ali.
Certa manhã, encontrei novamente o recibo da LoveBaby entre os papéis que havia guardado.
R$ 1.480.
Fraldas.
Fórmula.
Chupeta.
Aquele pedaço de papel parecera, meses antes, capaz de destruir tudo.
Segurei-o por alguns instantes.
Depois o coloquei junto aos documentos antigos do divórcio.
Não precisava queimá-lo.
Também não precisava mantê-lo à vista.
Era apenas prova de uma história que já não comandava meus dias.
Meu acompanhamento médico continuou normal.
Luiza passou a visitar o pai de vez em quando. Ainda havia mágoa entre eles, mas já não existia a fúria dos primeiros dias.
Marcelo assumiu as responsabilidades com o novo filho.
Eu não perguntava sobre a vida dele.
E ele finalmente parou de perguntar sobre cada detalhe da minha.
Meses depois, mudei para o apartamento com a varanda.
No primeiro fim de semana, Luiza veio me ajudar a organizar as caixas.
Encontrou meu caderno.
“Coisas que decido sozinha.”
Abriu e começou a ler em voz alta.
— “Minha consulta. Meu dinheiro. Meu tempo. Quem entra na minha casa…”
Tentei pegar o caderno.
— Me dá isso.
Ela riu e afastou.
— Tem outra página.
Leu:
— “Onde quero morar. O que quero aprender. Para onde quero viajar.”
Fechou o caderno.
— Está faltando uma coisa.
— O quê?
Luiza pegou uma caneta e escreveu alguma coisa.
Entregou para mim.
Na última linha, estava escrito:
“Que vida eu quero viver daqui para frente.”
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Depois fui até a varanda.
O fim de tarde atravessava as folhas das árvores e entrava pela sala.
Durante muito tempo, eu havia pensado que recomeçar significava apagar tudo que veio antes.
Agora entendia que não.
Meu casamento fizera parte da minha vida.
Meu amor por Marcelo existira.
A traição também.
A dor também.
Nada precisava ser apagado para que eu continuasse.
O que precisava mudar era outra coisa.
Durante anos, eu havia permitido que alguém decidisse por mim em momentos pequenos e grandes.
No hospital.
No dinheiro.
Na rotina.
Na forma de evitar conflitos.
Até que um dia meu próprio corpo me obrigou a parar.
O sangramento que mais me assustou acabou não sendo câncer.
Mas foi o começo de uma verdade que eu não conseguiria mais desver.
Olhei para Luiza, que ainda estava cercada de caixas.
— Quer café?
— Quero.
Entrei na cozinha.
Preparei duas xícaras.
Quando voltei para a varanda, coloquei uma diante dela e fiquei observando a cidade.
Eu não sabia exatamente como seriam os próximos dez anos.
E, pela primeira vez, não precisava saber.
Bastava uma certeza: dali em diante, quem decidiria o rumo da minha vida seria eu.
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