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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Marcelo olhou para mim por alguns segundos, como se tentasse decidir se deveria me deixar sozinha. Eu mantive a expressão abatida e repeti que era a primeira coisa que realmente tinha vontade de comer desde o dia anterior. Depois de insistir para que eu prometesse não sair de casa, ele pegou as chaves do carro. Quando ouvi a porta do apartamento se fechar, esperei até o elevador descer antes de me levantar.

Eu já estava vestida por baixo do roupão. Peguei meus documentos, o celular, os exames que tinham colocado na minha bolsa e chamei um carro por aplicativo. No caminho para o hospital, avisei Luiza do que estava fazendo. Ela já tinha comprado passagem e chegaria a São Paulo naquela noite. Pedi que não procurasse o pai antes de conversar comigo.

No hospital, fui diretamente ao setor onde havia sido atendida e pedi acesso aos meus próprios resultados. A funcionária confirmou meus dados, imprimiu os laudos disponíveis e explicou que algumas conclusões ainda dependeriam de avaliação ginecológica. Quando comecei a ler, senti as mãos esfriarem outra vez. Em nenhum lugar apareciam as palavras “simples alteração hormonal”.

O ultrassom apontava um espessamento do endométrio que, considerando minha idade e o fato de eu estar havia três anos sem menstruar, precisava ser investigado. Havia também indicação de histeroscopia e possível biópsia para esclarecer a causa do sangramento. Não era um diagnóstico de câncer, mas também não era algo que pudesse ser resolvido com repouso e sopa. Marcelo havia escondido de mim justamente a parte que eu tinha o direito de saber.

Pedi para falar com uma médica. Quem me recebeu foi outra ginecologista, que leu os exames e explicou com calma que sangramento depois da menopausa sempre merecia investigação, embora existissem várias causas benignas. Ela repetiu que ninguém podia afirmar naquele momento que eu tinha câncer. O passo correto era fazer os exames complementares. Pela primeira vez desde o dia anterior, senti medo e alívio ao mesmo tempo.

Perguntei por que meu marido havia saído da sala com a médica. A ginecologista não tentou justificar a conversa de outra profissional e apenas disse que todas as decisões sobre minha saúde deveriam ser explicadas diretamente a mim. Aquela frase simples me atingiu com força. Eu tinha passado mais de vinte anos deixando Marcelo resolver documentos, consultas, contas e problemas práticos. Naquele dia, percebi o quanto eu havia me acostumado a entregar decisões que eram minhas.

Marquei o retorno e recebi orientações para agendar a histeroscopia. Fotografei todos os documentos e enviei cópias para meu e-mail. Depois coloquei os papéis na bolsa e fiquei alguns minutos sentada no corredor do hospital, respirando devagar. Ainda havia medo do resultado. Mas agora era um medo meu, não uma história filtrada por Marcelo.

Luiza me ligou enquanto eu voltava para casa. Contei o que havia descoberto e pedi que trouxesse consigo apenas uma coisa: calma. Ela queria enfrentar o pai assim que desembarcasse, mas concordou em esperar. Eu também contei que não pretendia mais procurar uma “prova perfeita”. A conversa, o recibo e a ligação já diziam o suficiente para eu parar de fingir que nada estava acontecendo.

Cheguei ao prédio pouco antes de Marcelo. Coloquei os documentos numa pasta dentro de uma mala antiga e vesti novamente o roupão. Quando ele entrou carregando duas embalagens de sopa, parecia aliviado ao me encontrar no sofá. Perguntou se eu tinha passado mal, se precisava voltar ao hospital, se queria que ele chamasse alguém. Respondi apenas que estava cansada.

Ele colocou a sopa diante de mim e ficou observando enquanto eu comia algumas colheradas. Pela primeira vez, notei que sua preocupação parecia misturada a outra coisa: medo de que eu descobrisse algo que ele não conseguia mais controlar. Não perguntei sobre Marina. Também não perguntei sobre o bebê. Eu queria escolher o momento em que aquela conversa aconteceria, e não ser empurrada para ela pela raiva.

Mais tarde, Marcelo voltou para o escritório de casa. Aproveitei para separar meu passaporte, documentos pessoais, comprovantes bancários e papéis do apartamento que eu sabia onde estavam. Não levei nada que fosse dele e não mexi em contas. Apenas reuni o que me pertencia e o que eu precisaria entender caso nossa vida realmente se separasse. A cada documento colocado na pasta, minha cabeça parecia ficar um pouco mais clara.

À noite, Luiza desembarcou em São Paulo. Quando ouvi a chave reserva girar na porta, Marcelo saiu do escritório surpreso e abriu um sorriso, perguntando por que ela não havia avisado que viria. Minha filha olhou primeiro para ele e depois para mim. Eu me levantei do sofá e, antes que qualquer um dissesse mais alguma coisa, percebi que o equilíbrio daquela casa acabara de mudar.

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