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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Luiza me abraçou com tanta força que por alguns segundos eu quase esqueci que Marcelo estava parado a poucos metros de nós. Ela havia herdado dele a altura, mas naquele momento a expressão era minha: olhos atentos, boca fechada e uma raiva tão controlada que parecia ainda mais intensa. Marcelo perguntou outra vez por que ela tinha vindo sem avisar. Antes que Luiza respondesse, eu disse que havia contado a ela sobre o sangramento e que ela decidira voltar para ficar comigo durante os exames.

A explicação era verdadeira, mas incompleta. Marcelo pareceu aceitar porque não tinha alternativa. Passou a noite tentando ser agradável, perguntou sobre o trabalho da filha, pediu comida e fez comentários banais, como se aquela fosse apenas uma visita inesperada. Luiza respondia com frases curtas. Em certo momento, quando ele se levantou para atender uma ligação na varanda, ela apertou minha mão por baixo da mesa.

No quarto, contei tudo sobre minha ida ao hospital. Mostrei os laudos e expliquei que precisaria fazer uma histeroscopia e talvez uma biópsia. Luiza ficou indignada ao saber que o pai havia reduzido aquilo a uma “alteração hormonal”, mas eu pedi que não discutisse com ele. Meu objetivo naquele momento não era puni-lo. Era cuidar da minha saúde e entender como proteger minha vida antes de tomar qualquer decisão definitiva.

Na manhã seguinte, liguei para uma advogada de família indicada por uma antiga colega. Marquei uma consulta para aquela mesma semana. Não contei a Marcelo. Eu ainda não sabia se pediria o divórcio imediatamente, mas precisava saber quais seriam as consequências práticas de uma separação depois de mais de duas décadas de casamento.

Luiza quis me acompanhar. A advogada, doutora Renata, ouviu nossa história sem transformar aquilo em espetáculo. Perguntou como tínhamos nos casado, quais bens haviam sido adquiridos durante a união, se eu tinha renda própria e como administrávamos as despesas. Expliquei que trabalhei durante muitos anos, parei por um período quando Luiza era pequena e depois retomei atividades administrativas em meio período. Grande parte das finanças da casa, porém, sempre ficara nas mãos de Marcelo.

Renata não prometeu vitórias fáceis. Disse que primeiro precisaríamos reunir documentos, entender o patrimônio construído durante o casamento e separar aquilo que era informação legítima daquilo que eu apenas suspeitava. Também me orientou a não esvaziar contas conjuntas, não esconder bens e não transformar a filha em intermediária. Eu saí dali menos vingativa e muito mais consciente.

Naquele mesmo dia, agendei os exames complementares. Pela primeira vez em muitos anos, não pedi que Marcelo telefonasse, escolhesse o médico ou organizasse minha agenda. Luiza ficou comigo enquanto eu resolvia tudo. Parecia algo pequeno, quase ridículo, mas cada ligação feita por mim tinha um significado que só eu entendia.

À noite, Marcelo percebeu que eu estava diferente. Perguntou por que Luiza continuaria na cidade até a semana seguinte e por que eu havia passado parte da tarde fora. Respondi que estava cuidando da minha saúde. Ele ficou visivelmente incomodado.

— Eu podia ter ido com você.

— Eu sei.

— Então por que não me chamou?

Olhei para ele.

— Porque eu quis ir sem você.

Marcelo ficou em silêncio.

Foi a primeira vez que estabeleci uma distância sem inventar uma desculpa.

Mais tarde, ouvi Luiza discutindo com o pai na cozinha. Ela não mencionou Marina, mas perguntou por que ele tinha mentido sobre os exames. Marcelo tentou dizer que queria me poupar, que eu estava nervosa demais e que ele pretendia explicar quando soubesse algo definitivo. Luiza respondeu que poupar alguém não significava decidir o que essa pessoa tinha direito de saber.

Fiquei do outro lado da porta, ouvindo.

Marcelo disse:

— Você não entende o que eu estava sentindo.

Luiza respondeu:

— Talvez porque ninguém saiba o que você está sentindo. Você não fala a verdade.

O silêncio que veio depois foi comprido.

Não entrei.

Aquilo era entre os dois.

No dia seguinte, Marcelo saiu cedo para trabalhar. Antes de ir, tentou beijar minha testa. Eu virei o rosto.

Ele congelou.

— Helena…

— Preciso de espaço.

— Fiz alguma coisa?

A pergunta quase me fez rir.

Em vez disso, olhei diretamente para ele.

— Você quer mesmo que eu responda agora?

Marcelo empalideceu.

Por alguns segundos, pensei que finalmente confessaria.

Mas apenas pegou a pasta e saiu.

Depois que a porta fechou, Luiza apareceu no corredor.

— Ele sabe que você sabe.

— Talvez.

— Então por que ainda está fingindo?

Respirei fundo.

— Porque ainda estou decidindo o que fazer com a minha vida. E não vou deixar seu pai escolher nem o momento da verdade.

Dois dias depois, fiz a histeroscopia diagnóstica. Encontraram uma pequena formação que precisava ser analisada e colheram material para biópsia. A médica explicou que ainda não havia motivo para concluir que fosse maligno. Eu ouvi cada palavra, fiz perguntas e anotei as orientações.

Marcelo mandou várias mensagens durante o procedimento.

“Como você está?”

“Já terminou?”

“Quer que eu vá buscar você?”

Não respondi até voltar para casa com Luiza.

Depois escrevi apenas:

“Já fui atendida. Estou bem. Quando houver resultado, eu decido como e com quem vou compartilhar.”

Ele visualizou quase imediatamente.

Não respondeu.

Naquela noite, abri o armário e comecei a separar algumas roupas dele para liberar espaço no quarto de hóspedes. Não coloquei nada em malas. Apenas transferi camisas, calças e sapatos de um cômodo para outro.

Quando Marcelo chegou, viu a porta do quarto aberta.

Parou diante das roupas.

— O que significa isso?

Eu estava sentada na cama.

Levantei os olhos.

— A partir de hoje, você dorme aqui.

O rosto dele perdeu a cor.

— Helena, por quê?

Eu me levantei.

Ainda não mencionei Marina.

— Porque eu não consigo mais dormir ao lado de você.

Pela primeira vez desde que tudo começara, Marcelo não encontrou uma mentira rápida.

E, naquela noite, ele dormiu do outro lado do corredor.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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