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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Uma semana depois, recebi o resultado da biópsia.

Fui à consulta com Luiza.

A médica abriu o laudo diante de nós e explicou que a formação retirada era um pólipo benigno. O sangramento também estava relacionado a alterações do endométrio que continuariam sendo acompanhadas, mas não havia sinal de câncer naquele material.

Demorei alguns segundos para compreender.

— Então eu não tenho câncer?

— O exame que fizemos não mostrou malignidade — ela respondeu. — Vamos manter acompanhamento, mas esse resultado é tranquilizador.

Cobri o rosto com as mãos.

Chorei.

Luiza começou a chorar comigo.

Durante dias, eu havia carregado duas perdas possíveis: minha saúde e meu casamento. Naquele consultório, uma delas diminuiu de tamanho.

Saí do hospital sentindo o ar diferente.

Marcelo sabia que o resultado sairia naquela semana e havia enviado uma mensagem pela manhã.

“Por favor, me avisa quando souber.”

Fiquei olhando para a tela por alguns minutos.

Eu não queria usar minha saúde como forma de punição.

Mas também não queria voltar ao antigo lugar de prestar contas.

Escrevi:

“O resultado não mostrou câncer. Continuarei em acompanhamento. Estou bem.”

A resposta veio segundos depois.

“Graças a Deus.”

Depois:

“Posso te ligar?”

Respondi:

“Não hoje.”

Ele respeitou.

No fim da tarde, Luiza voltou para Belo Horizonte. Precisava retornar presencialmente ao trabalho e à própria rotina. Antes de ir, perguntou três vezes se eu ficaria bem sozinha.

Na terceira, comecei a rir.

— Você virou minha mãe agora?

Ela me abraçou.

— Só estou aprendendo com a melhor.

Quando a porta fechou, o apartamento ficou completamente silencioso.

Pela primeira vez desde que descobri tudo, eu estava realmente sozinha.

Não desmoronei.

Preparei café.

Abri as janelas.

Troquei os lençóis da cama.

Depois retirei do criado-mudo uma fotografia minha com Marcelo feita numa viagem de aniversário de casamento e guardei numa caixa.

Não rasguei.

Aquela mulher sorrindo na fotografia também tinha sido eu.

Negar o passado não me ajudaria a construir o futuro.

Nos dias seguintes, Renata e o advogado de Marcelo começaram a trocar informações. Descobrimos que ele não pretendia discutir minha permanência temporária no apartamento, mas queria conversar sobre uma divisão definitiva dos bens.

Isso me surpreendeu.

Eu tinha imaginado resistência imediata.

Mais tarde, entendi que Marcelo também estava começando a perceber que não podia voltar simplesmente porque queria.

Ele alugou um apartamento pequeno.

Não fui atrás do endereço.

Também não perguntei se Marina moraria com ele.

Eu estava tentando aprender uma disciplina nova: diferenciar aquilo que me machucava daquilo que realmente precisava saber.

Ainda assim, havia assuntos inevitáveis.

Entre os extratos que organizei, apareceram várias despesas ligadas ao apartamento que Marcelo vinha pagando havia meses. Quando os advogados perguntaram, ele reconheceu que ajudava Marina com o aluguel.

A admissão doeu.

Não porque eu ainda precisasse confirmar o relacionamento.

Mas porque aqueles pagamentos tinham sido feitos enquanto eu economizava em pequenas coisas dentro de casa, acreditando que estávamos planejando juntos nossa aposentadoria.

Em uma reunião, Marcelo tentou explicar:

— Eu nunca deixei faltar nada em casa.

Olhei para ele.

— Esse não é o ponto.

— Então qual é?

— Você decidiu sozinho que dinheiro da nossa vida podia financiar uma mentira.

Ele baixou os olhos.

Renata interveio apenas para manter a conversa objetiva.

Falamos de contas, aplicações, veículo, apartamento e previdência.

Nada se resolveu naquele dia.

Nem deveria.

Quando saí do escritório, percebi que me sentia estranhamente estável. Meses antes, uma conversa financeira daquele tamanho teria me assustado. Agora eu entendia os números.

Isso mudou a forma como eu me via.

Marcelo continuou tentando conversar sobre reconciliação.

Certa noite, escreveu:

“Eu sei que pedir outra chance parece absurdo, mas não consigo acreditar que terminou assim.”

Quase respondi imediatamente.

Em vez disso, deixei o celular sobre a mesa e fui tomar banho.

Uma hora depois, reli.

Escrevi:

“Não terminou por causa de uma conversa. Terminou por causa de meses de escolhas que você escondeu.”

Dessa vez, ele não insistiu.

Alguns dias depois, nos encontramos em uma cafeteria para falar sem advogados. Eu aceitei porque queria entender uma questão prática: o que ele pretendia fazer quando o bebê nascesse.

Marcelo parecia mais velho.

Disse que assumiria todas as responsabilidades como pai.

— É o mínimo — respondi.

Ele assentiu.

Depois falou:

— Eu sei que você odeia essa criança.

Levantei os olhos imediatamente.

— Não coloque isso em mim.

Marcelo pareceu surpreso.

— Eu não odeio uma criança que nem nasceu.

— Mas…

— O que você fez comigo foi sua escolha. A criança não escolheu nada.

A expressão dele mudou.

Talvez esperasse raiva.

Eu também imaginava que sentiria.

Mas, naquele momento, percebi que não queria carregar um ódio que não pertencia ao bebê.

Minha raiva era de Marcelo.

E minha responsabilidade era comigo.

Quando nos despedimos, ele perguntou se poderia continuar recebendo notícias sobre meus exames.

— Quando houver algo importante, eu aviso.

— Posso ir com você algum dia?

— Não.

Ele fechou os olhos brevemente.

— Entendi.

Pela primeira vez, ele realmente parecia entender que alguns lugares dos quais fizera parte por décadas já não estavam disponíveis.

Na volta para casa, passei por uma papelaria e comprei um caderno.

Na primeira página escrevi quatro palavras:

“Coisas que decido sozinha.”

Parece infantil quando conto.

Mas comecei a preenchê-lo.

Minha consulta.

Meu dinheiro.

Meu tempo.

Quem entra na minha casa.

Quem conhece meus exames.

Onde vou passar o fim de semana.

A lista cresceu.

E, junto com ela, alguma coisa dentro de mim que eu pensava ter perdido começou a voltar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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