
PARTE 8
Quase três meses haviam se passado desde o dia do sangramento quando voltei ao hospital para uma consulta de acompanhamento. Dessa vez fui sozinha. Luiza ofereceu-se para vir de Belo Horizonte, mas eu disse que não precisava. A médica revisou os exames, perguntou sobre novos episódios e confirmou que minha recuperação estava evoluindo bem.
Ao sair, sentei por alguns minutos num banco do corredor.
Lembrei do primeiro dia.
Da minha mão agarrada à camisa de Marcelo.
Da porta fechando.
Da silhueta dele conversando com a médica.
Parecia uma cena de outra vida.
Naquela época, eu acreditava que o maior medo possível era ouvir a palavra “câncer”.
Depois descobri que o medo também podia ter outros nomes: mentira, dependência, solidão, recomeço.
Mas eu estava ali.
Sozinha.
E não me sentia abandonada.
Sentia-me capaz.
Naquela semana, Renata informou que a maior parte das questões patrimoniais estava encaminhada. Como Luiza já era adulta e Marcelo e eu havíamos chegado a um acordo sobre os bens, poderíamos formalizar o divórcio por escritura pública, com assistência dos advogados, se ambos mantivéssemos o consenso.
A palavra “divórcio” já não me provocou o choque de antes.
Perguntei apenas quais documentos faltavam.
Renata sorriu.
— Você mudou bastante desde a primeira consulta.
— Na primeira consulta, eu mal sabia onde estavam meus extratos.
— Agora você corrige minhas contas.
Nós duas rimos.
Não era completamente verdade.
Mas quase.
Marcelo, por outro lado, parecia atravessar as consequências concretas das decisões que tomara.
Ele havia se mudado para o apartamento de Marina porque o nascimento do bebê se aproximava. Não soube por ele. Luiza comentou depois de uma conversa com o pai.
Minha filha ainda mantinha certa distância, embora já atendesse às ligações.
Certa noite, ela me disse:
— Pai parece cansado.
— Imagino.
— Acho que ele percebeu que ter outra vida não significa recuperar a antiga.
Fiquei em silêncio.
Luiza continuou:
— Às vezes tenho pena dele.
— Pode ter.
Ela riu sem humor.
— Você sempre responde essas coisas de um jeito estranho.
— Eu não quero ensinar você a odiar ninguém.
— E você não odeia?
Pensei.
No começo, sim.
Ou pelo menos acreditava que odiava.
Agora, o sentimento parecia mais complexo.
— Ainda tenho raiva.
— Isso eu sei.
— Mas não quero fazer dela minha rotina.
Era verdade.
Eu não acordava mais pensando em Marina.
Não revisava mentalmente as mensagens.
Não imaginava onde Marcelo estava.
Quando percebi isso, senti uma liberdade inesperada.
O curso de fotografia também havia se tornado parte da minha semana. Comecei a fotografar coisas comuns: gente esperando ônibus, sombras em fachadas, mãos segurando copos de café, árvores crescendo tortas entre prédios.
O professor dizia que fotografar era escolher o que ficava dentro do enquadramento.
A frase ficou comigo.
Talvez viver também fosse isso.
Escolher o que ainda merecia espaço.
Certa tarde, recebi uma mensagem de Marcelo pedindo para conversar.
Aceitei encontrá-lo num café.
Ele chegou atrasado e pediu desculpas.
Estava realmente cansado.
Disse que Marina estava perto do parto e que os dois discutiam com frequência.
Eu levantei a mão antes que continuasse.
— Se você me chamou para falar do relacionamento de vocês, eu prefiro ir embora.
— Não.
Ele respirou fundo.
— Eu queria falar sobre nós.
— Nós estamos nos divorciando.
— Eu sei.
Marcelo ficou olhando para a mesa.
— Queria pedir desculpas por uma coisa específica.
Esperei.
— No hospital.
Meu corpo ficou tenso.
— Quando a médica falou comigo, eu devia ter voltado e contado exatamente o que ela disse. Eu achei que estava te protegendo, mas…
Ele parou.
— Eu também estava com medo de que você descobrisse tudo naquele momento. Marina estava me pressionando. Quando ouvi que podia ser algo sério, minha cabeça virou um caos.
— E você decidiu que era melhor eu ficar no escuro.
— Sim.
Foi a primeira vez que ouvi Marcelo admitir aquela parte sem justificativa.
Ele continuou:
— Eu usei seu medo para ganhar tempo.
A frase doeu.
Mas também encerrou algo.
Durante meses, eu havia me perguntado se estava sendo dura demais, se ele realmente quisera apenas me poupar.
Agora a resposta estava diante de mim.
— Obrigada por finalmente dizer isso.
Marcelo levantou os olhos.
— Existe alguma possibilidade de…
— Não.
Respondi antes que terminasse.
Não havia crueldade na minha voz.
Apenas certeza.
Ele assentiu devagar.
Depois perguntou:
— Você me odeia?
— Não sei se isso importa.
— Para mim importa.
Pensei por alguns segundos.
— Eu odeio algumas coisas que você fez. Não sei se odeio você inteiro.
Ele fechou os olhos.
— Isso já é mais do que eu mereço.
Não respondi.
Antes de irmos embora, Marcelo contou que pretendia assumir plenamente a criação do filho e que estava reorganizando as finanças para isso.
— Faça isso.
— Você realmente não culpa a criança?
— Já falei que não.
Levantei.
— Seu filho vai precisar de um pai responsável. Talvez você ainda possa ser melhor nessa parte da sua vida do que foi no final da nossa.
Marcelo pareceu levar um golpe.
Mas eu não disse aquilo para feri-lo.
Era simplesmente verdade.
Na saída, caminhamos alguns metros na mesma direção.
Depois nossas rotas se separaram numa esquina.
Marcelo virou à direita.
Eu segui em frente.
Não olhei para trás.
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