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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

No voo para São Paulo, encontrei meu marido em viagem de trabalho com a secretária dormindo no colo dele
PARTE 1

Eu estava em um avião quando encontrei, por acaso, meu próprio marido viajando a trabalho.

A secretária dele dormia tranquilamente com a cabeça apoiada no colo dele.

Eu me aproximei, sorri e chamei:

— Oi, irmão… sua esposa é novinha, hein?

No segundo seguinte, o rosto dele perdeu toda a cor.

Os cílios dela começaram a tremer.

— Nossa, irmão… sua esposa é bem jovem mesmo!

A dez mil metros de altitude, fiquei olhando para meu marido e para a secretária dele enquanto dizia aquilo com um sorriso no rosto.

Marcelo Vieira ficou pálido na mesma hora.

Os cílios de Júlia Mendes tremeram como se ela tivesse levado um choque.

Uma comissária passou empurrando o carrinho de serviço e perguntou educadamente:

— Senhor, sua esposa gostaria de um cobertor?

Marcelo abriu a boca, mas não conseguiu responder.

E eu…

Eu só queria descobrir até onde aquela encenação iria.

Meu nome é Helena Nascimento, tenho trinta e dois anos e trabalho como gerente de compras em uma empresa de comércio exterior.

Sou casada há cinco anos com Marcelo Vieira, três anos mais velho do que eu e diretor comercial de uma empresa de tecnologia.

Para quem nos conhecia de fora, parecíamos um casal perfeito.

Nós dois tínhamos faculdade, empregos estáveis, apartamento próprio, carro e uma vida confortável em Curitiba.

Mas casamento é como sapato.

Só quem usa sabe onde aperta.

Marcelo nunca foi exatamente um marido ruim comigo.

Todos os meses, transferia metade do salário para as despesas da casa. Em aniversários e datas comemorativas, sempre lembrava de me dar algum presente. Quando viajava a trabalho, quase sempre voltava com alguma lembrança.

Só que havia uma coisa que me incomodava havia bastante tempo.

A proximidade dele com a secretária.

Júlia Mendes tinha vinte e oito anos, era bonita, tinha uma aparência muito bem cuidada e sabia falar com todo mundo de um jeito doce e agradável.

A primeira vez que realmente reparei nela foi durante a festa anual da empresa de Marcelo.

Júlia usava um vestido vermelho e passou boa parte da noite acompanhando Marcelo de mesa em mesa, segurando-o pelo braço enquanto cumprimentavam clientes e colegas.

Aquilo me deixou desconfortável.

Quando comentei com ele depois, Marcelo apenas respondeu:

— É trabalho, Helena. Não fica pensando demais.

Será que eu estava mesmo pensando demais?

Nos últimos seis meses, as viagens de Marcelo tinham se tornado cada vez mais frequentes.

Antes, ele viajava uma ou duas vezes por mês.

Depois, passaram a ser duas ou três viagens por semana em alguns períodos.

Sempre que eu perguntava, a resposta era parecida:

— Tenho que visitar cliente, negociar projeto, resolver contrato. Você acha que ser diretor comercial é fácil?

Eu não era do tipo que queria transformar o casamento em uma investigação.

Nunca gostei da ideia de mexer no celular do marido, conferir cada horário ou perguntar com quem ele estava o tempo inteiro.

Só que aquela sensação incômoda continuava ali.

Como uma pequena farpa que eu não conseguia tirar.

Até aquele dia.

Minha empresa me enviou a São Paulo para resolver um problema de qualidade com um fornecedor.

Reservei um voo para as oito da manhã.

No dia da viagem, atravessei o controle de segurança puxando minha mala pequena e encontrei meu assento junto à janela, na fileira 14 da classe econômica.

Depois de guardar a bagagem, peguei o celular e mandei uma mensagem para Marcelo:

“Vou para São Paulo a trabalho. Volto amanhã.”

Ele respondeu quase imediatamente:

“Vai com cuidado. Quando chegar, me avisa.”

Eu dei um sorriso discreto para a tela e estava prestes a colocar o celular no modo avião quando ouvi uma voz conhecida algumas fileiras à frente:

— Júlia, senta na janela. Eu fico no meio.

Meu coração apertou de repente.

Inclinei um pouco o corpo e olhei pelo espaço entre os bancos.

Era Marcelo.

Ele estava usando justamente o terno azul-marinho que eu tinha comprado para ele.

Naquele momento, ele colocava a mala de Júlia no compartimento superior.

Ela usava um suéter branco, o cabelo preso em um rabo de cavalo e parecia ainda mais jovem do que na festa da empresa.

Júlia sorriu para ele.

— Obrigada, Marcelo.

Eles se sentaram duas fileiras à minha frente.

Por alguns segundos, fiquei parada sem conseguir organizar os pensamentos.

Marcelo também estava indo para São Paulo?

E estava viajando com Júlia?

Respirei fundo e disse a mim mesma para não imaginar coisas sem motivo.

Colegas viajarem juntos a trabalho era absolutamente normal.

Eu sabia disso.

Depois que o avião decolou, porém, a situação começou a mudar.

Algum tempo mais tarde, percebi que Júlia havia apoiado a cabeça no ombro de Marcelo.

Ele não a afastou.

Pelo contrário.

Levantou o braço e o colocou ao redor dos ombros dela.

Continuei observando em silêncio.

Pouco depois, Júlia mudou de posição, deitou a cabeça no colo dele e se encolheu no assento para dormir.

Marcelo simplesmente deixou.

Ele baixou os olhos para ela.

E havia uma delicadeza naquele olhar que me atingiu mais do que qualquer discussão teria atingido.

Eu conhecia aquele homem havia anos.

E não me lembrava da última vez em que ele tinha olhado para mim daquele jeito.

Meus olhos arderam.

As lágrimas começaram a se acumular, mas eu fiquei no meu lugar.

Não me levantei para fazer escândalo.

Não gritei.

Não fui até eles exigir explicações.

Apenas fiquei olhando.

Quando o serviço de bordo começou, uma comissária se aproximou dos dois e viu Júlia dormindo com a cabeça no colo de Marcelo.

Ela perguntou com toda a naturalidade:

— Senhor, sua esposa gostaria de um cobertor?

Marcelo hesitou por um instante.

— Sim… obrigado.

Ele pegou o cobertor.

Depois, com cuidado, cobriu Júlia.

Foi naquele momento que uma lágrima finalmente escorreu pelo meu rosto.

Esposa?

Soltei uma risada sem humor.

Então enxuguei o rosto, desafivelei o cinto e me levantei.

Caminhei até a fileira deles e parei ao lado do assento.

Sorri.

— Oi, irmão!

Marcelo levantou a cabeça.

Quando me viu, ficou branco.

Continuei sorrindo.

— Sua esposa é novinha, hein?

Júlia despertou com o som da minha voz.

Assim que abriu os olhos e me reconheceu, os cílios começaram a tremer. O corpo inteiro ficou rígido.

Mantive o mesmo sorriso.

— Você e a cunhada estão indo para São Paulo passar a lua de mel?

Os lábios de Marcelo se moveram, mas nenhuma palavra saiu.

Júlia se levantou depressa e ficou completamente vermelha.

A comissária que passava pelo corredor percebeu a situação e tentou disfarçar o constrangimento.

Eu não esperei explicação.

Virei as costas e voltei para o meu lugar.

Minhas mãos tremiam.

Meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito.

Mas eu não chorei.

Helena Nascimento, pensei comigo mesma.

Se você desmoronar agora, quem perde é você.

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