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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Cheguei a Curitiba no fim da tarde do dia seguinte. Durante o voo de volta, eu tinha imaginado dezenas de versões daquela conversa, desde uma discussão cheia de gritos até um silêncio absoluto em que nenhum de nós conseguiria dizer o essencial. Quando abri a porta do apartamento às sete e quarenta, Marcelo já estava lá. Ele tinha tirado o paletó, arregaçado as mangas da camisa e permanecia sentado à mesa da sala como alguém que esperava uma reunião difícil.

Coloquei minha mala no quarto, lavei o rosto e voltei para a sala. Não queria conversar ainda com roupa de viagem nem com a sensação de que estava improvisando. Peguei um copo de água, sentei-me diante dele e disse que eu faria algumas perguntas. Pedi apenas que não respondesse com “você entendeu errado” ou “não foi nada”, porque nenhuma dessas frases explicava o que eu tinha visto.

Marcelo assentiu. Comecei perguntando havia quanto tempo Júlia o acompanhava nas viagens. Ele respondeu que pouco mais de um ano, desde que assumira uma parte maior da carteira de clientes da empresa. Perguntei quando a relação entre os dois tinha deixado de ser estritamente profissional. Ele abaixou os olhos.

— Eu não sei se deixou — disse.

Eu quase ri.

— Marcelo, uma funcionária não dorme no colo do diretor porque perdeu a noção de hierarquia durante uma turbulência inexistente.

Ele passou a mão pelo rosto e afirmou que os dois tinham se tornado amigos. Disse que passavam muitas horas juntos por causa do trabalho, que Júlia conhecia projetos, clientes e problemas que ocupavam grande parte do dia dele. Eu perguntei por que essa amizade jamais tinha sido apresentada daquela maneira para mim. Marcelo respondeu que sabia que eu já me incomodava com a proximidade entre eles.

A resposta foi pior do que se ele tivesse negado tudo.

— Então você sabia que ultrapassava um limite — eu disse.

Ele tentou corrigir: sabia que eu poderia interpretar mal.

Balancei a cabeça.

— Não. Se você escondia porque sabia que sua esposa ficaria desconfortável, então o problema não era apenas a minha interpretação.

Marcelo ficou quieto.

Perguntei sobre as viagens dos últimos seis meses. Queria saber quantas tinham sido realmente necessárias e quantas tinham acontecido apenas porque era conveniente viajar com Júlia. Ele respondeu que todas tinham compromissos profissionais reais. Depois admitiu, com certa resistência, que em algumas ocasiões os dois tinham prolongado jantares após reuniões, tomado vinho e ficado conversando por horas.

Eu senti o estômago apertar.

Não havia naquela informação nenhum flagrante espetacular. Nenhum quarto secreto, nenhuma fotografia escondida, nenhum recibo milagroso. Só havia uma sequência de escolhas pequenas que, colocadas lado a lado, formavam algo que meu marido nunca teria aceitado se os papéis estivessem invertidos.

Perguntei se ele já tinha beijado Júlia.

Marcelo demorou tanto para responder que a demora se tornou resposta antes mesmo das palavras.

— Uma vez — disse finalmente.

Fiquei olhando para ele.

— Uma vez?

Ele respirou fundo.

— Duas.

Foi como assistir a uma porta se abrir devagar para um cômodo que eu já sabia existir, mas ainda não tinha visto por dentro.

Marcelo explicou que o primeiro beijo acontecera cerca de três meses antes, depois de um jantar com clientes em São Paulo. Disse que os dois haviam bebido, que estavam no saguão do hotel e que Júlia o beijou primeiro. A segunda vez, segundo ele, tinha acontecido semanas depois, quando já não havia álcool nem surpresa para usar como desculpa.

— E depois disso vocês decidiram parar? — perguntei.

Ele não respondeu imediatamente.

Eu senti um frio percorrer os braços.

— Marcelo.

— A gente tentou manter as coisas profissionais.

A frase me atingiu porque não significava nada.

— Eu não perguntei o que vocês tentaram. Perguntei o que fizeram.

Ele finalmente admitiu que continuaram trocando mensagens pessoais, conversando fora do horário de trabalho e alimentando uma intimidade que ele próprio não sabia mais definir. Garantiu que não tinham mantido relação sexual. Eu disse que não tinha como confirmar aquilo e que, naquele momento, a questão já era maior do que sexo.

Marcelo começou a chorar.

Em cinco anos, eu o tinha visto chorar poucas vezes. Mesmo assim, não senti a vontade automática de confortá-lo que provavelmente teria sentido antes. Eu estava ocupada demais tentando compreender que, enquanto eu me policiava para não ser uma esposa controladora, ele usava essa confiança como espaço para construir outra relação.

Ele disse que não queria me perder. Falou que amava nossa vida, nossa casa, nossas rotinas. Disse que tinha se deixado levar por uma proximidade que começou no trabalho e que foi crescendo sem que ele percebesse a gravidade.

— Você percebeu — respondi. — Tanto que escondeu.

A sala ficou silenciosa.

Eu então fiz uma pergunta que vinha evitando desde o voo:

— Júlia sabia que você era casado e sabia quem eu era?

— Sabia.

Fechei os olhos por um instante.

Ela tinha me conhecido na festa da empresa. Tinha apertado minha mão. Tinha conversado comigo por alguns minutos. E, ainda assim, meses depois, dormia no colo do meu marido enquanto ele a cobria como se aquilo fosse perfeitamente natural.

Mas eu não estava casada com Júlia.

Minha conversa era com ele.

Perguntei se ela acreditava que Marcelo deixaria o casamento. Ele disse que nunca havia prometido isso. Perguntei se, em algum momento, ela havia pedido. Ele respondeu que os dois evitavam falar diretamente sobre o futuro.

Ou seja, viviam no confortável território onde ninguém precisava assumir a responsabilidade completa pelo que fazia.

Levantei-me e caminhei até a janela.

— Eu preciso que você saia daqui por alguns dias.

Marcelo arregalou os olhos.

— Helena…

— Não é uma ameaça. Não é uma punição. Eu simplesmente não consigo dormir ao seu lado hoje e fingir que amanhã a gente toma café normalmente.

Ele perguntou para onde deveria ir. Respondi que era um homem adulto, com salário próprio e capacidade suficiente para organizar uma viagem três vezes por semana, portanto também conseguiria providenciar onde dormir.

Não disse aquilo com ironia.

Disse porque era verdade.

Marcelo pegou algumas roupas e uma mochila. Antes de sair, parou junto à porta e perguntou se aquilo significava que nosso casamento tinha acabado.

Olhei para ele.

— Significa que o casamento que eu achava que tinha já acabou. Agora eu preciso decidir se existe alguma coisa que ainda possa ser construída no lugar.

Ele baixou a cabeça e saiu.

Depois que a porta se fechou, fiquei sozinha no apartamento.

Não chorei imediatamente.

Primeiro lavei o copo que eu tinha usado, arrumei a cadeira que Marcelo deixara torta e coloquei minha mala para esvaziar.

Só quando encontrei, no fundo dela, a pequena nécessaire que ele havia me dado no aniversário anterior é que sentei no chão do quarto.

Então chorei.

Não porque eu tivesse perdido uma competição para uma mulher mais jovem.

Chorei porque percebi que passara meses tentando ser razoável diante de coisas que já estavam machucando minha confiança.

Naquela noite, tomei uma decisão pequena, mas importante.

Eu não escolheria meu próximo passo para provar força a Marcelo, a Júlia ou a ninguém.

Escolheria apenas aquilo que me permitisse continuar me respeitando.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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