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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Na sessão individual, falei durante quase uma hora sem perceber o tempo passar. Contei que Marcelo vinha fazendo grande parte do que eu considerava correto: respeitava meus limites, reorganizara a relação profissional com Júlia, permanecia em terapia e não exigia absolvição. Ainda assim, eu continuava acordando alguns dias com uma sensação de peso que não conseguia explicar.

A terapeuta perguntou uma coisa que me deixou em silêncio:

— Se você soubesse que ele nunca repetiria o que fez, você gostaria de continuar casada?

Minha primeira reação foi dizer sim.

Mas a palavra não saiu.

Fiquei pensando.

A pergunta retirava da equação o medo de uma nova traição. Restavam apenas eu, Marcelo e aquilo em que nosso vínculo tinha se transformado.

— Eu não sei — respondi.

Ela assentiu.

— Então talvez sua decisão não dependa apenas de segurança.

Saí dali confusa, mas comecei a entender.

Durante meses, eu tinha tratado nosso problema como uma ponte quebrada. Imaginava que, se Marcelo reconstruísse confiança suficiente, nós inevitavelmente chegaríamos ao outro lado.

Talvez não fosse assim.

Talvez, enquanto reconstruíamos a ponte, eu tivesse descoberto que já não queria seguir naquela direção.

Essa ideia me assustou.

Não porque eu desejasse desesperadamente permanecer casada, mas porque significava admitir que alguém podia mudar de comportamento e ainda assim não recuperar o lugar que tinha antes.

Marcelo não precisaria continuar errando para que eu escolhesse sair.

Na semana seguinte, nós dois fomos à terapia de casal.

Contei exatamente isso.

Ele ficou pálido.

Por alguns segundos, vi no rosto dele o mesmo choque do avião, embora por um motivo completamente diferente.

— Então nada do que eu fizer importa? — perguntou.

— Importa. Importa para quem você vai ser daqui para frente. Importa para a forma como a gente atravessa isso. Mas talvez não seja uma moeda que compre de volta o casamento.

Ele abaixou os olhos.

— Eu achei que, se eu fizesse tudo certo…

— Foi esse pensamento que eu também tive. Mas fazer o certo agora não apaga o que aconteceu antes.

A terapeuta interferiu.

Perguntou se Marcelo estava mudando apenas para preservar o casamento ou porque reconhecia a necessidade de mudar independentemente do resultado.

Ele demorou para responder.

— No começo, era para não perder a Helena.

— E agora?

Marcelo passou a mão pelo rosto.

— Agora eu acho que, mesmo se ela for embora, eu não quero voltar a ser o homem que conseguiu justificar tudo aquilo para si mesmo.

Eu chorei.

Não porque aquela frase tivesse me feito decidir ficar.

Chorei porque, pela primeira vez, consegui olhar para ele sem precisar escolher entre transformá-lo em vilão ou em marido arrependido.

Marcelo era uma pessoa que tinha me ferido profundamente e que agora tentava mudar.

As duas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo.

Depois da sessão, caminhamos algumas quadras sem falar.

Foi ele quem quebrou o silêncio.

— Você está pensando em se separar de verdade, não está?

Parei.

— Estou.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Há quanto tempo?

— Acho que desde o começo. Só não conseguia admitir porque parecia que, se eu considerasse sair, estaria desistindo cedo demais.

Marcelo perguntou se havia algo que pudesse fazer.

— Continue fazendo o que você decidiu fazer por você — respondi. — Não transforme isso numa campanha para me convencer.

Ele assentiu.

Naquela noite, voltamos a dormir em quartos separados.

Não houve discussão.

Foi uma escolha silenciosa.

Eu precisava perceber como me sentia sem a proximidade física empurrando meu coração na direção mais confortável.

Nas semanas seguintes, comecei a imaginar a separação de maneira concreta.

Não como ameaça.

Pensei em como dividiríamos os móveis, o que faríamos com o apartamento e onde cada um poderia morar. Pensei em domingos, aniversários e viagens. Pensei na possibilidade de voltar para uma casa silenciosa não por alguns meses, mas como parte de uma nova vida.

Para minha surpresa, algumas dessas imagens me deram tristeza.

Outras me deram paz.

A paz me chamou atenção.

Conversei novamente com a advogada e expliquei que estava mais inclinada à separação. Ela me orientou sobre a possibilidade de construir um acordo, caso ambos estivessem dispostos a resolver os aspectos patrimoniais sem conflito desnecessário. Eu saí com uma lista de documentos e questões práticas para discutir.

Não contei a Marcelo naquela mesma noite.

Esperei até o sábado.

Fiz café, sentei à mesa e pedi que ele se sentasse.

— Acho que precisamos começar a conversar sobre uma separação definitiva.

Ele ficou imóvel.

— Você tem certeza?

— Tenho certeza de que preciso caminhar nessa direção.

— Isso não é a mesma coisa.

— Não. Mas é a resposta mais honesta que consigo dar hoje.

Marcelo respirou lentamente.

Perguntou se eu queria que ele saísse do apartamento outra vez.

Respondi que sim.

Dessa vez, não por alguns dias.

Precisávamos começar a experimentar vidas separadas de verdade.

Ele levou quase toda a tarde organizando roupas, documentos e objetos pessoais. Não houve cena. Em alguns momentos, nós dois paramos diante de coisas pequenas — uma fotografia de viagem, uma caneca comprada juntos, um casaco esquecido — e nenhum sabia quem deveria ficar com aquilo.

No fim, Marcelo deixou muita coisa.

— Depois a gente decide — disse.

Na porta, antes de sair, ele me perguntou:

— Você me perdoa?

Olhei para ele.

— Eu ainda não sei o que perdão significa para mim. Mas sei que não quero passar o resto da vida com raiva.

Os olhos dele ficaram cheios de lágrimas.

— Eu sinto muito.

— Eu sei.

Dessa vez, quando a porta se fechou, eu chorei.

Mas o choro era diferente daquele da primeira noite.

Não vinha apenas de choque ou humilhação.

Era luto.

Eu estava começando a me despedir de uma vida que, apesar de tudo, também tinha tido momentos bons.

E pela primeira vez compreendi que encerrar um casamento não exigia negar tudo o que tinha existido dentro dele.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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