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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Não demorou nem dois minutos para Marcelo aparecer ao lado da minha poltrona. Ele se inclinou um pouco e falou meu nome quase num sussurro, provavelmente porque não queria que o restante da cabine ouvisse. Eu continuei olhando pela janela. Naquele momento, não queria explicações dadas por medo de ser descoberto.

— Helena, deixa eu falar com você quando a gente pousar — ele pediu. Eu finalmente virei o rosto e respondi que poderíamos conversar depois que eu terminasse o trabalho que me levara a São Paulo. Marcelo pareceu surpreso com a minha calma. Eu mesma não sabia de onde ela estava vindo.

Ele tentou dizer que Júlia estava cansada porque havia trabalhado até tarde na noite anterior. Acrescentou que ela tinha dormido sem perceber e que ele apenas tentou deixá-la confortável. Ouvi tudo sem interromper. Quando ele terminou, perguntei apenas por que alguém precisaria abraçar a própria secretária para deixá-la confortável.

Marcelo ficou alguns segundos sem responder. Então disse que aquilo tinha sido uma falta de cuidado e que entendia como a situação podia parecer. A palavra “parecer” me incomodou mais do que eu esperava. Eu disse que não precisava imaginar nada, porque tinha visto com meus próprios olhos.

Ele tentou continuar, mas pedi que voltasse para o lugar. Expliquei que eu ainda precisava desembarcar, encontrar o representante do fornecedor e passar o dia trabalhando. Não pretendia resolver cinco anos de casamento no corredor de um avião. Marcelo me encarou por alguns segundos antes de finalmente voltar para a própria fileira.

Durante o restante do voo, Júlia não tornou a encostar nele. Os dois ficaram sentados quase imóveis, falando apenas o necessário. De onde eu estava, conseguia perceber Marcelo olhando para trás algumas vezes. Eu não retribuí nenhum dos olhares.

Quando o avião pousou em São Paulo, esperei os passageiros da frente começarem a desembarcar. Marcelo ficou perto da saída, claramente esperando por mim, enquanto Júlia permanecia alguns passos atrás dele. Eu puxei minha mala e passei pelos dois. Quando Marcelo tentou pegar minha bagagem, afastei a mão dele antes que tocasse na alça.

— A gente precisa conversar — ele insistiu. Respondi que conversaríamos em Curitiba, dentro de casa, sem aeroporto, sem secretária e sem compromisso profissional esperando. Júlia abaixou os olhos ao ouvir aquilo. Pela primeira vez desde que a vi no avião, não senti vontade de provocar nenhum dos dois.

Marcelo explicou que um carro da empresa os levaria até uma reunião e perguntou para onde eu iria. Eu disse que já tinha organizado meu transporte e não precisava da ajuda dele. Era uma coisa pequena, mas importante para mim naquele momento. Eu queria chegar ao meu compromisso por meus próprios meios.

No caminho para a fábrica do fornecedor, meu celular vibrou várias vezes dentro da bolsa. Marcelo mandou mensagens dizendo que sentia muito, que eu estava interpretando uma situação de maneira pior do que ela era e que queria explicar tudo. Não respondi. O que eu precisava naquele momento não era de uma versão bem ensaiada.

Passei o resto do dia analisando lotes, discutindo prazos e verificando relatórios de qualidade. Algumas vezes, enquanto alguém falava comigo, a imagem de Júlia deitada no colo dele voltava à minha cabeça. Mesmo assim, continuei trabalhando. Descobri que manter a rotina funcionando era a única forma de impedir que aquela cena tomasse conta de tudo.

À noite, no hotel, liguei para Marcelo pela primeira vez desde o voo. Disse que chegaria a Curitiba no dia seguinte e que queria encontrá-lo em casa às oito da noite. Pedi que não levasse Júlia, não ligasse antes e não tentasse transformar a conversa em mensagens intermináveis. Ele concordou.

Antes de desligar, Marcelo perguntou se eu ainda confiava nele. Fiquei em silêncio durante alguns segundos. Depois respondi que aquela era justamente a pergunta que ele teria de me ajudar a responder. Pela primeira vez em cinco anos de casamento, desliguei sem dizer “boa noite”.

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