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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

A terapeuta começou fazendo uma pergunta simples: por que cada um de nós estava ali? Marcelo respondeu primeiro. Disse que queria reparar o dano que tinha causado e descobrir se ainda havia possibilidade de manter o casamento. Quando chegou minha vez, eu disse que não estava ali para salvar o casamento a qualquer custo; queria descobrir se permanecer nele ainda seria saudável para mim.

Marcelo não gostou de ouvir aquilo, embora já soubesse.

Eu percebi no jeito como ele apertou as mãos sobre as pernas.

A terapeuta perguntou se ele conseguia aceitar que o resultado do esforço não estava sob controle dele.

Marcelo respirou fundo antes de dizer que teria de aprender.

Nas primeiras sessões, voltamos várias vezes ao mesmo ponto, mas de maneiras diferentes. Eu queria entender como alguém que conhecia meus limites tinha conseguido ultrapassá-los por meses. Marcelo queria explicar que não acordara certa manhã decidido a ter uma relação paralela. A terapeuta interrompeu quando ele usou essa frase pela terceira vez.

— Talvez o problema esteja justamente aí — ela disse. — Grandes quebras de confiança costumam ser construídas por pequenas decisões repetidas.

Marcelo ficou em silêncio.

Depois da sessão, no carro, ele admitiu que aquela frase tinha sido difícil de ouvir.

— Porque é verdade — respondi.

Ele concordou.

Em casa, nossa convivência foi criando uma nova rotina. Marcelo continuava dormindo no quarto de hóspedes. Não perguntava onde eu ia quando saía, não tentava tocar em mim sem perceber se eu estava confortável e não usava tarefas domésticas como prova de que merecia perdão.

Em alguns dias, aquilo me dava esperança.

Em outros, eu pensava que ele apenas estava fazendo agora o mínimo que deveria ter feito antes.

Uma noite, durante o jantar, ele disse que Júlia havia pedido transferência para outra equipe.

Meu garfo parou no ar.

— Isso muda alguma coisa para você?

Marcelo pensou.

— Profissionalmente, facilita. Pessoalmente… acho que é melhor.

— Você falou com ela sobre isso?

— Só sobre a transferência. Ela disse que continuar trabalhando diretamente comigo estava difícil.

Assenti.

Não perguntei se ela ainda gostava dele.

Não precisava.

O fato de Júlia se afastar não apagaria as escolhas de Marcelo, e a minha decisão não poderia depender de ela permanecer ou desaparecer.

Naquela mesma semana, tivemos uma discussão séria pela primeira vez desde que ele voltara para casa.

Marcelo chegou mais tarde do trabalho e esqueceu de avisar.

Foram apenas quarenta minutos.

Em qualquer outro momento da nossa vida, aquilo teria sido insignificante.

Mas eu senti o corpo inteiro entrar em alerta.

Quando ele abriu a porta, eu estava sentada na sala tentando convencer a mim mesma de que não precisava perguntar onde estivera.

Marcelo percebeu meu rosto.

— A reunião passou do horário — disse imediatamente. — Eu devia ter avisado.

— Devia.

Ele pegou o celular.

— Se você quiser, eu te mostro…

Levantei a mão.

— Não.

Ele parou.

— Eu não quero viver assim.

— Assim como?

— Precisando conferir prova toda vez que você se atrasa.

Foi uma das conversas mais importantes que tivemos.

Expliquei que confiança não seria reconstruída porque ele me oferecia o celular para inspeção. Eu não queria me tornar fiscal da vida dele. Se nosso casamento só funcionasse quando eu pudesse verificar cada movimento, então não estaríamos recuperando confiança, apenas substituindo confiança por vigilância.

Marcelo sentou-se na poltrona.

— Então o que eu faço?

— Você age de forma previsível porque escolheu ser confiável, não porque eu estou te auditando.

Ele ficou quieto.

Depois pediu desculpas pelo atraso e pela falta de aviso.

Nada mais.

Não me mostrou mensagens.

Não abriu localização.

Não tentou transformar o gesto de transparência em espetáculo.

Nos dias seguintes, comecei a observar uma mudança pequena, mas real: quando surgia algum imprevisto, ele avisava antes que eu perguntasse. Não fazia discursos sobre isso. Apenas passou a agir.

Ainda assim, eu não me sentia pronta para voltar a dormir no mesmo quarto.

Marcelo perguntou uma única vez e aceitou quando respondi que não.

Minha maior luta passou a ser contra a pressa.

Havia dias em que eu queria que tudo voltasse ao normal porque estava cansada de viver em transição. Em outros, queria assinar os papéis do divórcio apenas para nunca mais precisar avaliar sinais, sentimentos e possibilidades.

Na terapia, percebi que as duas vontades vinham do mesmo lugar: eu queria encerrar a incerteza.

Mas terminar a incerteza rápido não significava tomar a decisão certa para mim.

Por isso continuei.

Marcelo também.

Ao final do segundo mês, tivemos uma conversa sobre intimidade.

Ele disse que sentia minha falta, mas não queria transformar carinho em cobrança.

Eu respondi que também sentia falta de partes da nossa vida.

Senti falta de assistir a séries juntos, de pedir comida numa sexta-feira, de dividir comentários idiotas antes de dormir.

Sentir falta, porém, não era o mesmo que confiar.

Naquela noite, pela primeira vez desde o voo, sentamos lado a lado no sofá para assistir a um episódio de uma série que acompanhávamos antes da crise.

Não houve beijo.

Não houve promessa.

Em determinado momento, nossas mãos ficaram próximas sobre o sofá.

Marcelo não tentou segurar a minha.

E eu percebi que aquilo me tranquilizou.

Alguns dias depois, fui sozinha à advogada novamente.

Contei que ainda não havia decidido pelo divórcio.

Ela disse que não precisava decidir antes de estar pronta, desde que eu continuasse protegendo meus interesses e não confundisse reconciliação emocional com renúncia prática.

Saí do escritório pensando nessa frase.

Em casa, encontrei Marcelo preparando café.

Ele me perguntou onde eu tinha ido.

Por um instante, pensei em esconder.

Depois respondi:

— Fui conversar de novo com a advogada.

O rosto dele ficou tenso.

— Certo.

Esperei uma reação maior.

Ela não veio.

— Você não vai perguntar o que eu decidi?

— Se você quiser me contar, conta.

Olhei para ele por alguns segundos.

Talvez confiança também fosse isso.

Não apenas eu aprender a acreditar de novo.

Mas ele aprender que não tinha direito de controlar a velocidade da minha decisão.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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