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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

O aniversário de três anos do nosso noivado chegou numa quinta-feira.

Eu só percebi a data quando uma fotografia antiga apareceu entre as lembranças automáticas do celular.

Lucas e eu estávamos numa viagem, sorrindo para a câmera.

A legenda dizia: “Três anos para sempre.”

Fiquei olhando.

Depois apaguei a lembrança automática da tela.

Não apaguei a fotografia.

Já não precisava transformar cada memória em inimiga.

Naquela manhã, trabalhei normalmente.

Almocei com colegas.

No fim do dia, passei no mercado e comprei algumas coisas para casa.

Quando cheguei, encontrei um envelope na caixa de correspondência.

Meu corpo reagiu antes da mente.

Por um segundo, pensei em Lucas.

Mas o remetente era apenas uma empresa responsável por um dos últimos serviços ligados à antiga cerimônia. Havia um valor residual a ser devolvido.

Sorri de mim mesma.

Meses antes, qualquer envelope inesperado teria me lançado outra vez para o casamento.

Agora a realidade seguia em frente de maneiras muito menos dramáticas.

No sábado, minha madrinha veio me ajudar a organizar caixas antigas.

Enquanto mexíamos numa delas, encontrou o roteiro impresso da cerimônia.

— Quer guardar isso?

Peguei as folhas.

Ali estavam horários, músicas e entradas.

“Entrada da noiva.”

“Troca de votos.”

“Brinde.”

“Fotos com os familiares.”

A vida que eu teria vivido naquela noite estava organizada em tópicos.

Dobrei as folhas.

— Não.

Ela colocou no saco de descarte.

— Você está bem?

— Estou.

E eu estava.

Não feliz por tudo ter acontecido.

Mas já não sentia que minha vida tinha sido dividida entre antes e depois de Lucas.

Aquele casamento fracassado era uma parte da minha história.

Não o título dela.

Mais tarde, recebi um e-mail dele.

Pensei em deixar para outro dia.

O assunto dizia:

“Uma última conversa, se você quiser.”

Abri.

“Não vou insistir se você disser não. Só percebi que nunca devolvi a você uma resposta que devia desde aquela noite. Quando perguntou quando eu pretendia contar sobre Sofia, eu fiquei calado. A verdade é que eu não tinha decidido. Eu esperava chegar ao fim da cerimônia sem ser descoberto e ganhar tempo depois. Você merecia saber disso sem nenhuma desculpa.”

Li lentamente.

Era a resposta que faltara.

Não mudava nada.

Mas encerrava uma pergunta.

Respondi:

“Obrigada por responder agora.”

Ele escreveu:

“Eu gostaria de pedir desculpas pessoalmente uma última vez. Sem pedir nada em troca.”

Minha primeira reação foi recusar.

Depois pensei no assunto durante dois dias.

Não devia nada a Lucas.

Mas também não precisava transformar a recusa em regra permanente só para provar força.

Eu podia decidir caso a caso.

Aceitei encontrá-lo num parque movimentado durante a tarde.

Quando cheguei, Lucas já estava sentado num banco.

Ele se levantou.

Não tentou me abraçar.

— Obrigado por vir.

Sentei a uma distância confortável.

— Você disse que queria pedir desculpas.

Ele assentiu.

— Sem justificar.

Esperei.

Lucas respirou fundo.

— Eu sinto muito por ter me casado com Sofia enquanto ainda estava noivo de você.

A voz dele estava firme.

— Sinto muito por ter deixado você chegar ao salão sem saber. Sinto muito por ter esperado que você subisse ao palco mesmo depois do que eu tinha feito.

Ele abaixou os olhos.

— Sinto muito por ter segurado seu pulso, por ter tentado calar você e por ter tratado a exposição da minha mentira como se fosse a pior coisa daquela noite.

Fiquei imóvel.

Era a primeira vez que ele citava cada ação sem esconder atrás de palavras como confusão ou impulso.

— Eu também sinto muito por ter passado semanas tentando fazer você administrar meu arrependimento.

Ele olhou para mim.

— Você não devia nada disso.

Demorei alguns segundos para responder.

— Não devia.

— Eu sei.

— Sabe agora.

— Sim.

Lucas não discutiu.

Eu respirei.

— Por muito tempo eu queria ouvir exatamente isso.

— E agora?

Pensei.

— Agora eu consigo viver sem ouvir.

A expressão dele se desfez um pouco.

— Acho que essa é a parte mais difícil de aceitar.

— Qual?

— Que eu cheguei tarde demais até para pedir desculpas.

— Desculpa não é uma chave para recuperar alguém.

Ele assentiu.

— Aprendi.

Ficamos alguns minutos em silêncio, observando pessoas caminharem pelo parque.

Depois Lucas disse:

— Eu não vou procurar você de novo.

Olhei para ele.

— Não porque não me importe. Mas porque finalmente entendi que insistir também era uma forma de continuar colocando minha vontade acima da sua.

Não respondi imediatamente.

— Obrigada.

Ele respirou fundo.

— Posso perguntar uma coisa?

— Pode.

— Você está feliz?

A pergunta me surpreendeu.

Pensei no apartamento.

Nos almoços.

Nas noites tranquilas.

Na ausência de ansiedade.

Na solidão que às vezes ainda doía.

Na liberdade que eu estava reaprendendo a usar.

— Estou ficando.

Lucas sorriu de leve.

Não havia alegria naquele sorriso.

Mas havia aceitação.

— Fico feliz.

Levantei-me.

Ele também.

Desta vez sabíamos que não haveria outro encontro depois.

— Tchau, Lucas.

— Tchau, Marina.

Dei alguns passos.

Então ouvi:

— Marina.

Parei.

Ele não veio atrás de mim.

— Você fez certo naquele dia.

Meu peito apertou.

Lucas continuou:

— Em não subir ao palco.

Olhei para ele por alguns segundos.

Depois assenti.

E fui embora.

No caminho para casa, pensei que aquela talvez fosse a última peça que faltava.

Não porque eu precisasse da aprovação de Lucas para saber que tinha feito o certo.

Mas porque o homem que, no dia do casamento, tentou me convencer de que eu era responsável pela vergonha agora reconhecia que a única escolha digna que restara naquela sala tinha sido a minha.

Naquela noite, abri a janela da varanda.

A cidade continuava barulhenta.

Carros passavam.

Luzes se acendiam nos prédios.

Nada parecia extraordinário.

E, mesmo assim, eu tive a sensação nítida de estar diante do último capítulo daquela história.

Não porque o passado tivesse desaparecido.

Porque, finalmente, ninguém mais precisava dizer nada.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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