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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

Depois daquele encontro, Lucas realmente parou de me procurar.

No início, estranhei.

Durante meses, eu havia me acostumado a ver seu nome surgindo de alguma maneira: ligação, mensagem, e-mail, recado por outra pessoa.

Quando tudo cessou, percebi que uma parte de mim ainda estava preparada para se defender.

Demorei alguns dias para relaxar.

Foi nesse período que a mãe dele me enviou uma mensagem.

Não falávamos desde a discussão sobre a nota pública.

“Você aceitaria conversar comigo?”

Pensei bastante.

Minha primeira reação foi recusar.

Depois decidi que poderia ouvir, desde que não fosse uma nova tentativa de negociação.

Marcamos um encontro durante a tarde.

Ela chegou com a mesma postura elegante que sempre tivera, mas sem a rigidez habitual.

Sentou-se diante de mim.

— Eu vim pedir desculpas.

Não esperava aquilo.

Ela percebeu.

— Não por tudo que meu filho fez. Essa responsabilidade é dele.

Esperei.

— Pelo que eu fiz.

Sua voz ficou mais baixa.

— Naquele salão, quando eu recuperei os sentidos, minha primeira preocupação foi nossa vergonha.

Lembrei exatamente.

— Foi.

Ela assentiu.

— Eu devia ter perguntado como você estava.

Não respondi.

— E depois continuei pressionando você para proteger a imagem da nossa família.

— Continuou.

Ela apertou os dedos.

— Eu não percebia que estava pedindo que você carregasse mais uma consequência de uma escolha que não foi sua.

A frase era simples.

Mesmo assim, senti a garganta apertar.

— Por que está me dizendo isso agora?

— Porque Lucas finalmente parou de culpar todo mundo ao redor.

Observei seu rosto.

— Isso não significa que você precise perdoá-lo — acrescentou rapidamente. — Nem voltar.

Fiquei surpresa de novo.

Ela continuou:

— Eu passei semanas dizendo a ele que devia insistir, que três anos não podiam terminar assim, que você estava agindo pela raiva. Depois percebi que eu estava ensinando meu filho adulto a evitar a consequência do próprio comportamento.

Ela fez uma pausa.

— Não quero continuar fazendo isso.

Aquilo não apagava a forma como me tratara.

Mas também não senti necessidade de puni-la para sempre.

— Eu aceito seu pedido de desculpas.

Os olhos dela ficaram úmidos.

— Obrigada.

— Mas não quero voltar a fazer parte dessa família.

Ela assentiu imediatamente.

— Eu entendo.

Essa resposta me deu mais paz do que eu esperava.

Conversamos por poucos minutos depois disso.

Nada sobre reconciliação.

Nada sobre Sofia.

Nada sobre tentar recuperar o casamento.

Quando nos despedimos, tive a sensação de que outra porta havia se fechado.

Não com estrondo.

Apenas com firmeza.

Alguns dias depois, encontrei minha madrinha para jantar.

Contei sobre a conversa.

Ela ouviu tudo e perguntou:

— Você acha que eles mudaram?

Pensei.

— Não sei.

— E isso importa?

Sorri.

— Acho que não.

Era verdade.

Durante muito tempo, eu imaginara que minha recuperação dependeria de Lucas entender perfeitamente o que fez.

Depois achei que dependeria de Sofia admitir sua responsabilidade.

Em seguida, que a mãe dele reconhecesse a injustiça.

Agora todos, em graus diferentes, haviam demonstrado algum tipo de reconhecimento.

E eu percebia que nenhum deles era o centro da minha cura.

Aquilo dependia muito mais das decisões que eu vinha tomando nos dias comuns.

Recusar conversas que não me faziam bem.

Voltar a trabalhar sem verificar o celular.

Dormir uma noite inteira.

Aceitar convites sem pensar se Lucas estaria no mesmo lugar.

Planejar os próximos meses sem deixar espaço imaginário para uma reconciliação.

A vida voltava não com um grande anúncio, mas em pequenos hábitos.

Certa manhã, enquanto arrumava um armário, encontrei a capa do vestido.

Fiquei parada diante dela.

Durante meses, não conseguira abrir.

Dessa vez puxei o zíper.

O vestido estava exatamente como no dia do casamento.

Bonito.

Intacto.

Quase irreal.

Passei a mão pelo tecido.

Eu me lembrava de escolhê-lo e imaginar Lucas me esperando.

Lembrei também do salão.

Dos convidados.

Da certidão dentro da bolsa.

Do meu pulso vermelho.

Da voz dele dizendo que eu estava fazendo aquilo para envergonhá-lo.

Fechei os olhos.

A dor veio.

Mas passou.

Não me derrubou.

Peguei o telefone e liguei para a loja que havia feito os ajustes.

Perguntei se conheciam alguma instituição que recebesse vestidos em bom estado para projetos solidários ou revenda beneficente.

A atendente indicou algumas opções.

Na semana seguinte, levei o vestido.

Quando entreguei a capa, a funcionária perguntou:

— Tem certeza?

Olhei para ela.

— Tenho.

Não senti que estava me desfazendo de um sonho.

O sonho já tinha terminado muito antes.

Eu estava apenas deixando um objeto parar de ocupar espaço.

Na saída, meu celular tocou.

Era um número conhecido.

Sofia.

Atendi.

— Oi.

— Marina, desculpa ligar.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não. Só queria dizer que vou mudar de cidade por um tempo.

Fiquei esperando o restante.

— Não estou ligando para criar uma cena. Pensei que talvez fosse melhor você saber que não vou mais aparecer na sua vida.

— Sofia, você não precisa me avisar.

— Eu sei.

A voz dela baixou.

— Talvez eu tenha ligado porque ainda me sinto culpada.

Respirei.

— Então use essa culpa para não repetir o que fez.

Ela ficou em silêncio.

— Não precisa transformá-la numa dívida eterna comigo.

Ouvi uma respiração trêmula do outro lado.

— Entendi.

— Espero que sim.

— Eu também.

Nos despedimos.

Não havia amizade entre nós.

Não precisava haver.

Aquela história não exigia que duas mulheres feridas pelo mesmo homem se tornassem amigas para provar maturidade.

Sofia tinha sua responsabilidade.

Lucas tinha a dele.

Eu tinha a minha vida.

E, naquela altura, essas três coisas finalmente estavam começando a se separar.

Naquela noite, recebi uma mensagem curta de Lucas.

A primeira em muitas semanas.

“Minha mãe me contou que falou com você. Obrigado por ouvir.”

Quase respondi “não fiz isso por você”.

Mas não precisava.

Deixei a mensagem sem resposta.

Era uma pequena escolha.

Ainda assim, percebi que o silêncio agora tinha outro significado.

Antes, eu me calava para evitar conflitos.

Agora, eu me calava porque certas conversas simplesmente não tinham mais lugar na minha vida.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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